Retirada de combustível do reator 4 de Fukushima ameaça criar cenário apocalíptico

Em novembro, a TEPCO começa a remover os bastões de combustível, que têm emissão de radiação equivalente a 14 mil bombas como as que foram jogadas em Hiroshima

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Uma operação com consequências potencialmente “apocalípticas” deve começar em cerca de duas semanas – “em torno de 8 de novembro” – no reator 4 de Fukushima, que está danificado e vazando. É aí que a operadora da usina, a TEPCO, vai tentar remover 1.300 bastões de combustível gastos de um depósito completamente estragado no andar superior da usina. Os bastões têm radiação equivalente a 14 mil bombas como as que foram jogadas em Hiroshima.

Apesar de o prédio do reator 4 em si não ter sofrido um colapso, ele passou por uma explosão de hidrogênio, e está indo de mal a pior, e a chance de aguentar mais um abalo sísmico é zero.

O Japan Times explicou:

“Para remover os bastões, a TEPCO colocou um guindaste de 273 toneladas por cima do prédio, que será operado remotamente, de uma sala separada. [...] os bastões gastos vão ser retirados das armações em que eles estão armazenados um a um e inseridos em uma pesada câmara de aço, com as peças ainda submersas debaixo da água. Quando essa câmara for retirada da água e depositada no chão, será transportada até outra piscina em um prédio intacto para armazenamento.

Em circunstâncias normais, uma operação como essa demoraria três meses. Mas a TEPCO esperar completar essa antes do início do ano fiscal de 2014.”

Um coro de vozes têm soado como um alarme contra o plano – nunca algo assim já foi feito – de remover manualmente 400 toneladas de combustível gasto da TEPCO, que tem sido responsabilizada por problema atrás de problema na danificada usina nuclear.

Arnie Gunderson, engenheiro nuclear veterano dos EUA e diretor da Fairewinds Energy Education, alertou, nesse verão, que “eles terão dificuldade na remoção de um número significativo dos bastões”, e disse que “daí se pular direto para a conclusão de que vai dar tudo certo é um belo salto no escuro”. Paul Gunter, diretor do Reactor Oversight Project, também deu o alarme, afirmando ao Commom Dreams que “dadas as incertezas sobre as condições objetivas e a disposição de centenas de toneladas de partes, vai ser como um perigosíssimo jogo de pega varetas radioativo”. Gunter fez a seguinte analogia sobre o perigoso processo de remover os bastões de combustível gastos:

“Se você pensar na armação nuclear como um maço de cigarros, se você puxar um cigarro direto, ele sai – mas essas armações sofreram danos. Agora, quando eles forem puxar o cigarro direto para cima, ele vai provavelmente quebrar e soltar Césio e outros gases, Xenônio e Criptônio, no ar. Suspeito que quando chegar novembro, dezembro, janeiro, vamos ouvir que o prédio foi evacuado, que eles quebraram um dos bastões, que os bastões estão liberando gases. [...]

Suspeito que vamos ter mais liberações no ar à medida que eles tiram o combustível. Se eles puxarem rápido demais, quebram o bastão. Acho que as armações foram retorcidas, o combustível superaqueceu – a piscina ferveu – e o efeito é que provavelmente, boa parte do combustível vai ficar lá por muito tempo.”

O Japan Times acrescentou:

“A remoção dos bastões costuma ser feita por computador, que sabe a localização de cada uma das peças com precisão milimétrica. O trabalho às cegas em um ambiente altamente radioativo faz com que haja um risco de o guindaste danificar um dos bastões – um acidente que deixaria ainda mais miserável a região de Tohoku.”

Como explicou Harvey Wasserman, ativista contra atividade nuclear de longa data:
“Os bastões gastos de combustível precisar ser mantidos resfriados o tempo todo. Se eles forem expostos ao ar, seu revestimento de liga de Zircônio vai pegar fogo, os bastões vão se queimar e grandes quantidades de radiação serão liberadas. Se os bastões encostarem um no outro, ou se eles se desfizerem numa pilha grande o suficiente, pode haver uma explosão.”

RT ainda acrescenta que, na pior das hipóteses: “a piscina pode desabar no chão, derrubando os bastões uns sobre os outros, o que poderia provocar uma explosão muitas vezes pior do que a que aconteceu em março de 2011.”

Wasserman diz que o plano é tão arriscado que merecia uma intervenção global, um pedido do qual Gunter compartilha, afirmando que “a perigosa tarefa não deveria ficar nas mãos da TEPCO, deveria envolver a supervisão e o gerenciamento de especialistas internacionais independentes”.

Wasserman disse ao Commom Dreams que:

“A retirada dos bastões de energia da unidade 4 de Fukushima pode bem ser a missão mais perigosa da engenharia até hoje. Tudo indica que a TEPCO é incapaz de fazer isso sozinha, ou de informar de maneira confiável à comunidade internacional o que está acontecendo. Não há razões para se acreditar que o governo japonês também faria isso. Esse é um trabalho para ser feito pelos melhores engenheiros e cientistas do mundo, com acesso a todos os recursos que poderiam ser necessários

A potencial liberação de radiação em um caso desses pode ser descrita como apocalíptica. Só o Césio equivale a 14 mil bombas como as que foram jogadas sobre Hiroshima. Se algo der errado, a radiação poderia forçar que todos os seres humanos no local sejam evacuados, e poderia provocar a falha dos equipamentos eletrônicos. A humanidade seria forçada a assistir sem poder fazer nada enquanto bilhões de curies de radiação mortal são jogadas no ar e no mar.”

Por mais ousado que possa parecer o alerta de Wasserman, ele encontra ressonância na pesquisadora de fallout de radiação Christina Consolo, que disse ao RT que na pior das hipóteses o cenário é de apocalipse. O alerta de Gunter também foi ousado.

“O tempo é curto enquanto nos preocupamos que outro terremoto pode danificar ainda mais o complexo do reator e o depósito do resíduos nucleares”, continuou ele. “Isso poderia literalmente reinflamar o acidente nuclear a céu aberto e incendiar até alcançar proporções hemisféricas”, disse Gunter.

Wasserman diz que, dada a gravidade da situação, os olhos do mundo deveriam estar voltados para Fukushima.

“Essa é uma questão que transcende ser antinuclear. O destino da Terra está em jogo aqui, e o mundo todo deve acompanhar cada movimento daquele local a partir de agora. Com 11 mil bastões de energia espalhados pelo local, e com um fluxo constante de água contaminada envenenando o oceano, é a nossa sobrevivência que está em jogo.” (Por Andrea Germanos, para o Commom Dreams)

Tradução de Rodrigo Mendes.
(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/)

As incongruências da experimentação científica em animais

Artigo de Ricardo Laurino* 

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Na maioria das vezes, o debate quanto à utilização ou não de animais em testes inicia antes mesmo de se discutir o assunto. De um lado, pessoas preocupadas em debater os rumos e limites do desenvolvimento através das ações humanas e, de outro, um grupo de estudiosos, detentores de técnicas e diplomas, que pretende estabelecer entre si quais são esses rumos e limites.

Com a invasão por parte de ativistas do Laboratório Royal, a discussão se acendeu em nosso país e, ao defender suas posições, pesquisadores tentam desqualificar a opinião de pessoas leigas quanto ao tema como se nada tivessem a acrescentar ao debate. Entretanto, pode ser que o grande público não conheça os detalhes da utilização de animais em pesquisas e muito menos seus obscuros resultados, mas não é preciso ser um especialista para opinar se é contra ou a favor do uso desses animais como meras ferramentas de trabalho, destituídas de interesses e desprovidas de sentimentos como a dor e o sofrimento. Desta forma deixo claro que o fato de não ser um experimentador não desqualifica qualquer pessoa a dar sua opinião quanto ao uso de animais em pesquisas.

Não é difícil questionar a eficácia dos experimentos científicos, já que as grandes catástrofes farmacológicas foram previamente testadas em animais. Técnicas medicinais com graves erros e irreversíveis, além de uma série de substâncias altamente tóxicas e prejudiciais à saúde humana, mas que somente daqui a alguns anos serão detectadas – perceba a quantidade de medicamentos que são retirados das prateleiras de tempos em tempos por problemas, muitas vezes fatais, não previstos – apontam esses testes como uma provável falácia científica para nosso moderno mundo do século XXI.

Para exemplificar, podemos citar o Dr Albert Sabin, que declarou que as primeiras doses aplicadas a seres humanos da vacina contra a pólio matou as pessoas que as receberam, mas nada acontecera nos testes anteriores com animais. Além disso tudo nos leva a crer que diversas drogas que poderiam estar salvando seres humanos não tiveram seus estudos concluídos por conta de resultados negativos em pesquisas com animais.

Outro ponto muito questionável é que, mesmo entre humanos, as reações a determinadas substâncias são diversas por conta de inúmeros fatores biológicos característicos de cada indivíduo. Como o médico americano Dr. Ray Greek cita em seus artigos, a própria indústria farmacêutica já assumiu a eficácia média em 50% das pessoas de suas drogas, podendo ser maior ou menor em determinados casos, sendo uma exigência da Ciência médica a eficácia em 90% dos casos.

Entretanto mais importante do que isso é entendermos o fundamento da objeção pela experimentação animal, independentemente de seus resultados. Pois uma pergunta deve ser obrigatoriamente respondida para assumirmos uma ou outra posição: se para pesquisadores animais são semelhantes aos humanos em suas reações e sensações, não deveriam ter semelhantes considerações relativas aos seus interesses de não serem submetidos à dor, ao trauma físico e psicológico, à humilhação, ao temor, à morte com hora marcada, assim como se considera os interesses de seus “semelhantes” humanos? É difícil imaginar uma resposta a tal questão que defenda a pesquisa em animais sem que sejam usados argumentos que passam pela incoerência e a tendenciosidade.

Apesar disso a velha e antiquada filosofia médico-científica perpetua, através da pseudoautoridade do conhecimento, a ideia de que animais são “pequenos humanos” devido a essas semelhanças. Não são poucos os ativistas e pesquisadores contrários aos testes em animais que dizem: os testes em animais servem para evitar processos milionários que pesquisadores e empresas responderiam pelas reações adversas e muitas vezes irreversíveis e mortais aos seres humanos, quando do uso de seus produtos e técnicas pelos consumidores. É um “certificado de garantia”, tendo respaldo de seus protocolos e “códigos de ética” por eles mesmos criados, de terem sido previamente testados. Ou seja, “lavamos nossas mãos, pois fizemos nossa parte”.

Diante desse cenário, da incoerência e da resistência a novos conceitos, podemos observar a triste, mas real situação de adultos que quando crianças pediam a seus pais permissão para levar para suas casas um “vira lata” ou um gato abandonado por compaixão, porém hoje, através de uma cultura de continuismo e retrocesso alimentada por “mestres” e “doutores”, submetem ratos, gatos, porcos, sapos, cachorros, coelhos e outros animais a verdadeiras sessões de tortura – desde privações das necessidades básicas até mesmo órgãos abertos, fraturas, entre outras intervenções contra seres que nada têm a ver com suas práticas.

Quantos não são aqueles que, com extrema aptidão a profissões relacionadas à medicina, veterinária, entre outras, abandonam seus sonhos ao verem que para isso terão de abrir mão de sua sensibilidade e respeito para com os animais? Diversos são os estudos que demonstram como os próprios estudantes, quando expostos pela primeira vez a tais circunstâncias, sentem-se incomodados e contrariados, mas que por vergonha e medo de serem excluídos do grupo submetem-se ao processo “invisível” da dessensibilização ou abandonam seus cursos, sob desdém de muitos de seus colegas e professores

Talvez uma frase de Thomas Edison, famoso cientista americano, resuma por que cada vez mais pessoas desaprovarem a experimentação animal: “a não violência nos leva à mais alta ética, a qual é o objetivo de toda a evolução. Até pararmos de ferir outros seres vivos, seremos ainda selvagens”. (Instituto CarbonoBrasil)

 * Ricardo Laurino é autor do livro O Último Teste. Lançado em setembro deste ano, é a primeira obra literária a abordar a experimentação científica em animais por meio de ficção policial.

(Fonte: http://www.mercadoetico.com.br/)

Eficiência na energia, sem horário de verão

Artigo de Washington Novaes

Diz o noticiário (Agência Estado, 20/10) que será de R$ 400 milhões a economia de energia (0,5%) que o País fará com o horário de verão, nas duas horas de pico do consumo (19 às 21 horas), até 16 de fevereiro. Serão 2.065 MW no Sudeste e no Centro-Oeste, mais 630 MW no Sul, “sobretudo de usinas térmicas”. A razão invocada pelo Ministério de Minas e Energia é o baixo volume de água retido em reservatórios de usinas hidrelétricas.

No País todo, diz a Empresa de Pesquisa Energética, o consumo per capita de energia é de 2.500 MWh, que, multiplicados por mais de 200 milhões de pessoas, se traduzem em 532 mil GWh. Na geração de energia em 2011 – segundo conferência do professor José Goldemberg (Problemas Brasileiros, setembro/outubro 2013) – a hidreletricidade respondia por 86%; pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), por 4%; térmicas a gás, por 3%; nuclear, por 3%; eólica, biomassas, a óleo (biocombustível, gás/óleo), por 1% cada; e usinas a carvão mineral, também por 1% cada.

383_ft1A ABEEólica, que congrega as usinas movidas por ventos, afirma que o setor já tem hoje 2,7 GW e chegará a 16 GW até 2021 (o que nos poderia dispensar das usinas movidas a carvão mineral, as mais poluidoras entre todas). É preciso acrescentar que, até aqui, a área federal tem desestimulado os projetos nessa área das eólicas, a ponto de haver impedido, recentemente, sua participação em leilão para novas usinas -, depois de vir a público que dezenas de usinas já instaladas no Nordeste não entravam em atividade porque o governo federal, a quem cabia a obrigação, por contrato, não construíra as linhas para levar a energia das turbinas até as linhas de transmissão. Também há fontes, já citadas em outros artigos neste espaço, segundo as quais estamos perdendo nas linhas de transmissão até 17% da energia gerada – a área federal dá números menores.

A inconveniência das térmicas a carvão, além da poluição gerada, está também no preço – a ponto de, no mais recente leilão de novos projetos, nenhuma das três que concorriam pôde ir adiante, já que seu preço, de R$ 170 por MWh, era superior ao teto do edital, de R$ 140 (Folha de S.Paulo, 11/9).

Seria o horário de verão indispensável mesmo? Não haveria outros caminhos para evitar os contratempos para mais de 100 milhões de consumidores? No debate com o professor Goldemberg mencionado há poucas linhas, Mário Ernesto Humberg (Pensamento Nacional das Bases Empresariais) citou estudo segundo o qual seria viável reduzir o consumo de energia no País em 30%. O próprio professor Goldemberg lembrou, em outra ocasião, que hoje mais de 50% do consumo de energia nos shopping centers brasileiros vai para sistemas de ar-condicionado, que, por sua vez, servem para enfrentar o aquecimento gerado pelo sistema de iluminação em estabelecimentos absolutamente fechados para o ambiente externo, que não se servem em nada da iluminação natural. Um círculo vicioso de desperdício.

É assim mesmo. Há pouco tempo o autor destas linhas, ao participar de um evento no auditório da Oca, no Parque do Ibirapuera, às 10 horas de uma manhã luminosa, de céu azul, fez questão de contar: havia centenas de luminárias acesas no salão, exatamente porque não entrava no ambiente nenhuma iluminação natural. E teve oportunidade também, na época em que foi secretário de Meio Ambiente, Ciência e Tecnologia do Distrito Federal (1991-1992), de participar de um episódio demonstrativo.

O Distrito Federal importava na época, de usinas em outros Estados, 97% da energia que consumia e, na prática, exportava renda – num lugar com crescimento vertiginoso da população, por causa das migrações, e que precisava também por isso gerar renda e empregos em alta densidade. A secretaria propôs, por essa razão, implantar um programa de conservação de energia e eficiência energética. Começando pelo setor público, que consumia cerca de 20% da energia total. Se conseguisse reduzir em 25% o consumo, seriam 5% do consumo total que deixariam de ser providos pela energia gerada fora.

Criado um grupo de trabalho com vários secretários e dirigentes de empresas para conceber e implantar o programa – que começaria pelo edifício anexo ao Palácio Buriti, onde havia várias secretarias -, na primeira reunião, logo que expostos os objetivos, um dirigente da empresa distrital de energia afirmou que não cumpriria o programa porque “seria linchado por funcionários e fornecedores”, com a redução do faturamento da empresa (proporcional à redução do consumo). Foi preciso criar um caminho adicional para que o governo levasse para a empresa, sob a forma de aporte de capital, o equivalente à redução do faturamento.

Iniciada a implantação no anexo do Buriti, verificou-se que, em projeto recente, o arquiteto optara pelo comando centralizado de energia por pavimento. Para acender uma única luminária era preciso acender todo o pavimento, houvesse ou não necessidade. A única forma foi desligar manualmente luminárias, porque um estudo da iluminação demonstrara que a luz que vinha do exterior era três vezes maior que a necessária naquele lugar. Mas com o desligamento e outras providências foi possível reduzir em 40% o consumo de energia no anexo. Só que com a saída do secretário de Meio Ambiente todo o programa foi esquecido.

O episódio serve para mostrar quanto desperdício pode ser evitado ou combatido – sem obrigar a população a fazer sacrifícios. E a necessidade de caminhar em direção a outros programas de implantação de energias renováveis, de microgeração distribuída (como se está fazendo no Paraná, gerando energia a partir de dejetos de animais) e outros caminhos. Só nos edifícios brasileiros a economia seria enorme, pois eles respondem por 47% do total da energia elétrica consumida no País (urbanista Mônica Welker, UFRJ, revista Eco 21, setembro 2013).

Com mudanças na matriz energética e programas de conservação de energia não precisaremos de horário de verão.

(Fonte: http://www.estadao.com.br/)

 

Do campo para a sala de aula

Artigo de Esther Vivas*

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“Menino, de onde vem o leite?”, lhe perguntam. “Da Tetra Pak”, responde. Quantas vezes você já ouviu esta piada? A distância entre o campo e o prato, entre a produção e o consumo, apenas aumentou nos últimos anos. E os mais novos, com frequência, nunca puseram os pés em uma horta, viram uma galinha ou se aproximaram de uma vaca. Alimentar-se não se trata de apenas ingerir alimentos, mas também saber de onde eles vêm, o que nos fornecem, como foram feitos. A educação também envolve ensinar a comer e comer bem. E isso é precisamente o que fazem as cantinas escolares ecológicas, que recentemente começaram a aparecer por aqui.

O interesse em comer direito, bem e com justiça chega, aos poucos, às mesas das escolas. Refeições que buscam mais que a ingestão calórica necessária, uma alimentação orgânica e de proximidade. Se trata de aproveitar espaços que permitam, como nenhum outro, a interação entre estudantes, educadores, cozinheiros e, em um segundo nível, com famílias, professores e agricultores, para recuperar não só o saber e o sabor dos alimentos, mas também, aprender e valorizar o trabalho que está por trás da produção, na agricultura, e por trás do fogão, na cozinha.

As cantinas escolares ecológicas têm uma vertente educativa e nutricional, ao defender a economia social e solidária e o território. Alimentos orgânicos, sim, mas de proximidade. Uma aposta imprescindível em um contexto de crise que, por um lado, dá uma saída econômica à pequena agricultura, que tenta viver dignamente no campo, incentivando alguns canais de comercialização alternativos e uma venda direta e, por outro, oferecendo uma alimentação saudável e ecológica para os menores, em um contexto em que aumenta a pobreza e a subnutrição.

Na Catalunha, 40% das crianças fazem a principal refeição do dia, o almoço, nos centros educativos. Incorporar esses valores às cantinas escolares deveria ser uma prioridade, e os custos econômicos não podem ser o argumento para não fazê-lo. Integrar a cozinha aos refeitórios dos centros permite um maior controle sobre a alimentação dos pequenos, e se compramos alimentos de proximidade, sazonais e diretamente com o agricultor, podemos reduzir custos. Do campo, passando pelas cozinhas das escolas e até o prato dos alunos, transparência, qualidade e justiça, esse é o desafio. E a administração pública deveria estar comprometida com esta finalidade. Investir em uma boa alimentação na sala de aula é investir no futuro.

Cantinas escolares que levam os princípios da soberania alimentar para as escolas, e não só na teoria, mas, o que é mais importante, na prática. Soberania alimentar, que nos permite recuperar a capacidade de decidir sobre o que comemos, que aposta na agricultura camponesa, local e agroecológica e que devolve aos agricultores e consumidores, e neste caso às crianças, o controle e o conhecimento sobre sua alimentação. (Traduzido por Natasha Ísis, do Canal Ibase)

*Esther Vivas é ativista e pesquisadora em movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares, autora de vários livros, entre os quais “Planeta Indignado”. Esther Vivas é licenciada em jornalismo e mestre em Sociologia. Seus principais campos de pesquisa passam por analisar as alternativas apresentadas por movimentos sociais (globalização, fóruns sociais, revolta), os impactos da agricultura industrial e as alternativas que surgem a partir da soberania alimentar e do consumo crítico.

(Fonte: http://www.ecodebate.com.br/)

Já estamos vivendo em um novo planeta?

Artigo de Reinaldo Canto

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Não surpreendeu, surpreendendo, saber que caminhamos todos rumo ao desconhecido. Diferentemente do que anunciava a série Star Trek, “indo onde nenhum homem jamais esteve”, não precisamos ser um capitão Kirk no comando da nave estelar USS Enterprise. Basta apenas sentar no próprio sofá, na cadeira do trabalho ou no banco do carro para realizarmos uma jornada a um novo mundo.

Segundo o IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, órgão da ONU), atingimos tal quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, inédita, ao menos nos últimos 800 mil anos. E suas consequências para o futuro imediato é, pelo menos, o acirramento ainda maior dos fenômenos climáticos extremos que já temos observado sem grandes esforços. Períodos maiores de secas; chuvas mais torrenciais; ciclones e tornados mais frequentes ou ocorrências inéditas em locais antes não atingidos por esse tipo de fenômeno; aumento no nível dos oceanos e derretimento de geleiras.

Todas essas evidências, assim como o aumento da temperatura média do planeta e a decisiva ação humana para que esse quadro se configurasse, já haviam sido apontadas no último relatório do IPCC divulgado em 2007. Mas o que antes era uma certeza, transcorridos mais 6 anos de estudos exaustivos levados a cabo por cientistas do mundo todo, tornou-se convicção. Para o órgão das Nações Unidas, nós somos os responsáveis por esse estado de coisas e nos cabe também a missão de começar a reverter esse quadro.

O documento divulgado pelo IPCC enfatiza que: “a concentração de CO2 na atmosfera aumentou 40% desde a era pré-industrial em razão das emissões oriundas da queima de combustíveis fósseis. Deste total, 30% foram absorvidos pelos oceanos que, por essa razão, se tornaram mais ácidos e menos capazes de regular o clima”.

De 2007 para 2013 sem motivos para comemorar

Muitas das novas conclusões entre o penúltimo e o último relatório divulgados pelo órgão da ONU para mudanças climáticas está a certeza de que a pouca movimentação de autoridades para melhorar o quadro, trouxe como consequência o acirramento de alguns problemas, ou seja, o que era ruim ficou um pouco pior.

Quanto ao aumento da temperatura média desde 1850 estimada em 0,76 graus Celsius no relatório de 2007, passou para 0,85 ºC tendo como base o ano de 1880. O aumento no nível do mar também sofreu uma alteração para cima entre um documento e outro de 17 centímetros para 19cms. A velocidade de derretimento no Ártico foi outra constatação que mudou de patamar subindo de uma perda de 2,7% de gelo por década para algo entre 3 e 4,1% a cada dez anos.

Ceticismo sem lugar na história

São muitos os obstáculos para que possamos empreender mudanças nas políticas públicas mundiais que contemplem uma reversão no cenário apontado pelo IPCC. A ganância e imediatismo humanos são mais do que suficientes interesses econômicos a dificultar esse processo. Agora ainda ser obrigado a ouvir insistentemente os mesmos gatos pingados a bater na tecla que as mudanças climáticas e o aquecimento global não passam de bobagens, é demais para fígados sensíveis.

Quase sempre financiados por grandes corporações interessadas em deixar tudo como está a “base científica” usada por eles se assemelha aos comentários de botequim utilizando-se largamente de dados fora de contexto e responsabilidade zero.

Esperemos que as novas informações divulgadas mundialmente pelo IPCC sejam capazes de despertar a urgência na tomada de posições e evitar que no comando de nossa Enterprise esteja algum desses céticos trogloditas a arrastar nossa nave-mãe Terra para dentro de buracos negros ainda mais obscuros e desconhecidos.

(Fonte: http://www.mercadoetico.com.br/)

A tragédia da civilização do automóvel

Por Cesar Sanson*

O carro promete liberdade, mas se tornou uma espécie de cárcere privado. A tragédia da ‘civilização do automóvel’ é resultado das políticas do Estado que sempre foram generosas com a indústria automotiva

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Há exatos 40 anos, num ensaio considerado visionário, André Gorz publicou um texto intitulado ‘Le Sauvage’ [O Selvagem]. O ensaio, datado de 1973, é considerado pelos ambientalistas como o ‘Manifesto contra o carro’ por antecipar a tragédia da civilização do automóvel.  No texto, Gorz afirma que “o carro fez a cidade grande inabitável, a fez fedorenta, barulhenta, sufocante, empoeirada, congestionada”.

O carro instaurou uma lógica e um estilo de vida que promete liberdade, mas no lugar de ir e vir se tornou uma espécie de cárcere privado. Paradoxalmente, promete agilidade, mas proporciona a lentidão dos tempos pré-industriais. Promete ganhar tempo, mas na realidade faz perder tempo.

Eles entopem os estacionamentos das universidades privadas e públicas, dos aeroportos, dos shoppings, dos supermercados. Estacionar já se tornou um drama. Ter uma vaga cativa – e gratuita – é um privilégio que se assemelha ao da casa própria. Nos grandes centros já é mais caro estacionar do que almoçar

O estresse no trânsito é alto, os engarrafamentos enormes, a irritação é grande, mas ninguém quer abrir mão do carro. E ainda tem mais: quanto mais potente, belo e equipado, melhor. O sociólogo Richard Sennett, em seu livro A nova cultura do capitalismo, afirma que as pessoas se movem pela “paixão consumptiva” que assume as formas de “envolvimento em imagística e incitação pela potência”, ou seja, as pessoas quando consomem não compram apenas produtos, mas prazer e poder.

O fantástico e maravilhoso mundo prometido pelo carro tem um outro lado menos edificante. O carro provoca o caos, confusão, barulho, estresse, poluição, perdas econômicas e, o pior, mata. E mata muito. As estatísticas dão conta de que mata em média mais de 50 mil pessoas por ano, apenas no Brasil.

A tragédia da ‘civilização do automóvel’ tem como um dos responsáveis as políticas do Estado que sempre foram generosas com a indústria automotiva. No caso brasileiro, o modelo de desenvolvimento ancorou nas montadoras a sua base crescimentista. Desde Juscelino Kubistchek, a indústria automotiva recebe incentivos, subsídios e isenções.

Erigimos o ‘Império do automóvel’ e agora – da prometida sociedade do bem-estar -, ele, o carro, nos empurra para um crescente mal-estar. A mobilidade prometida pelo carro aos indivíduos se tornou fonte de angústia, estresse e sofrimento.

Outra mobilidade e cidade são possíveis, porém é preciso superar a cultura carrocentrista e promover ousadas políticas públicas que invistam pesado no transporte coletivo.

*Cesar Sanson é professor de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

(Fonte: http://revistaforum.com.br)

‘Explorar petróleo no Ártico é criminoso’

Por Laura Greenhalgh

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Quando o Skype conecta o entrevistado, nas primeiras horas do dia em Amsterdã, na Holanda, ele pede desculpas pela aparência. Tem dormido pouco e trabalhado além do limite físico. Há um mês não faz outra coisa senão lidar com a prisão de 28 ativistas do Greenpeace em uma cadeia de Murmansk. O sul-africano Kumi Naidoo, de 48 anos, número 1 da organização ambiental, anda preocupado com a situação dos colegas. Vê intransigência em autoridades russas, ainda que líderes como o presidente Vladimir Putin e o primeiro-ministro Dmitri Medvedev rejeitem a acusação de pirataria imputada ao grupo. “É absurdo. Nós nos preparamos para enfrentar as consequências dos atos, mas que haja proporcionalidade entre o que fazemos e do que nos acusam”, diz em entrevista exclusiva ao Estado.

Em nenhum momento Naidoo nomeia os presos – entre eles, a bióloga brasileira Anna Paula Maciel. Fala de todos coletivamente e defende a “desobediência civil pacífica” como arma da organização. Tornou-se fonte de inspiração para milhares de ativistas do Greenpeace, cuja capilaridade pelo mundo constitui fenômeno à parte no ambientalismo. Este líder modelo tem disposição para o ataque, mas sabe fazer ativismo de salão, tendo sido ouvido na ONU e no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Kumi Naidoo debutou na militância contra o apartheid em seu país. Com Mandela livre e no poder, ajudou a montar a ala jovem do Congresso Nacional Sul-africano. Depois, foi se especializando em protestos de massa contra a pobreza da era da globalização. Em 2009, quando participava de uma greve de fome pelo Zimbábue, foi procurado pela direção do Greenpeace, que o convidava a entrar num processo de seleção para o seu mais alto posto. Aceitou o desafio a pedido da filha. “Ela me animou, seria a chance de atuar numa organização que não fica falando, falando…aqui se faz”. No ano passado, Naidoo fez barulho no Ártico. Subiu no bote para protestar contra a exploração de petróleo numa região que classifica como “santuário global”. Há um mês não estava lá para ser preso. Mas avisa que não vai desistir dessa guerra.

Qual é a situação dos presos?
É séria. No início, foram mandados para lugares distintos, depois reunidos numa só prisão. Enfrentaram condições muito duras em termos de comida, água, cobertores. Agora estão autorizados a receber cartas da família, há momentos em que se encontram fora das celas, mas, na maior parte do tempo, permanecem solitariamente confinados. Por horas e horas, ao longo de todos esses dias.

E o que o Greenpeace vem fazendo?
Recorremos das acusações e pedimos a libertação imediata do grupo. Contudo, na terça-feira, esses recursos foram julgados e negados, o que me preocupou. Há fatos novos. O governo holandês entrou com uma representação questionando a legalidade de prisões em águas internacionais, tomando como base a Convenção do Mar do Norte. Isso vai ser apreciado na próxima segunda, numa corte de arbitragem em Hamburgo. Tecnicamente, eu deveria esperar uma solução positiva. Mas tenho dúvidas. Essa situação ainda pode levar um par de semanas ou um par de meses. Difícil prever o desfecho.

As autoridades russas jogam duro?
Sim e não. O Conselho de Direitos Humanos, órgão do governo russo, vem contestando o processo e vai pedir que os ativistas sejam alvo de acusações adequadas. Pode-se até discutir uma acusação de tentativa de invasão da propriedade alheia, mas não de pirataria. Veja bem, nós não pretendemos estar acima da lei. Mas não queremos estar fora dela tampouco. Acreditamos no poder da desobediência civil pacífica, inspirados em momentos da História em que essa tática foi utilizada – na luta contra o colonialismo, a escravidão, o apartheid. A desobediência civil pacífica é uma arma legítima, usada por mulheres e homens quando dizem “agora, basta, isso não dá mais”. Gandhi, Luther King ou Mandela, cujas lutas hoje incorporamos e celebramos, fizeram uso dela. E nos ensinaram: quando existem leis injustas ou injustiças protegidas por leis, é preciso reagir.

Seria este o motor da campanha “Save de Arctic”, do Greenpeace?
A exploração de petróleo no Ártico não é só injusta, mas criminosa. Então desafiamos leis e acordos que justifiquem essa atividade. Temos a responsabilidade moral de fazer isso. Agora, somos uma organização consciente dos riscos que corre e nos preparamos para arcar com as consequências. Não vamos fugir do julgamento, só exigimos julgamento justo. Como disse o sr. Medvedev, falando pelo Conselho de Direitos Humanos, acusar o Greenpeace de pirataria e de formação de gangue, com intuito de sabotar plataforma de petróleo, é absurdo. Até o presidente Putin não vê sentido nisso. Espero que o bom senso prevaleça. E que sejamos acusados na proporção do que fizemos.

Como calcular essa proporção?
Fizemos uma ação visando a chamar a atenção do mundo para o seguinte problema: vazamento de óleo no Ártico é dano irrecuperável. Subimos em botes de borracha, num grupo de não mais de dez pessoas, para pacificamente hastear faixas e cartazes lembrando que uma catástrofe ali é iminente, há risco real. Mas os executivos da (companhia russa depetróleo) Gazprom preferiram inverter as coisas e nos acusar de colocar em risco a plataforma. Em nenhum momento quisemos protestar na plataforma, não é do nosso interesse. Queremos ficar do lado de fora. Então, colocamos o quê em risco? Ora, risco é o que estão fazendo por lá. Convido os seus leitores a pensar no que representa para todo o planeta uma atividade que provoca a formação de milhares de imensas placas de gelo, que se deslocam num lugar de remoto acesso, onde as condições para operar uma plataforma são as mais precárias que se possa imaginar. Isso é risco.

Você já fez protestos na região?
Sim. No ano passado fiquei naquelas águas por sete dias. Equipes de segurança da plataforma passaram o tempo todo provocando a guarda costeira russa, dizendo que os guardas deveriam nos prender. Mas eles viram que estávamos protestando pacificamente, não ameaçávamos nada. Ficaram nos observando três, quatro dias. Quando decidimos sair da área, daí eles nos perguntaram: e agora, para onde vão? Dissemos que iríamos à Noruega, depois ao Polo Norte, mas o fato é que não costumamos antecipar nossas ações. Não sei como explicar por que o relacionamento com as autoridades costeiras russas mudou tão drasticamente nos últimos 12 meses.

Qual é a influência das companhias de petróleo no jogo com as autoridades?
Seja na Rússia, no Canadá ou nos Estados Unidos, sempre nos deparamos com o poder excessivo das gigantes do óleo, gás e carvão. São poucas companhias ao todo, mas capturam e manobram governos segundo seus interesses. Costumo dizer que os EUA são a melhor democracia que o dinheiro pode comprar. Lobbies empresariais atuam junto ao meio político americano. E, dentre eles, os mais ferozes hoje são os das empresas poluidoras. Mobilizam equipes financeiras num corpo a corpo com cada representante do Congresso, para garantir que as leis da energia fóssil tramitem sem obstáculos. Na Rússia, a situação é diferente. A Gazprom foi uma estatal, não está bem claro onde terminam os interesses do governo, onde começam os da iniciativa privada.

Diz-se que as companhias russas são mais atrasadas do ponto de vista tecnológico.
Sim, o que só aumenta o risco de catástrofe ambiental. A Gazprom está drenando on shore neste momento. Ou seja, faz uma extração mais simples do que a offshore. E já ocorrem vazamentos pelo uso de 40 bombas obsoletas. Ou seja, usam equipamento velho, adotam práticas ruins, numa plataforma que não passa de um amontoado de peças de plataformas desativadas no Mar do Norte. Peças até cobertas de ferrugem!

Qual é o risco ambiental maior?
Num lugar daqueles, em que seis meses do ano, ou até mais, o oceano permanece congelado, a extração de óleo acaba ocorrendo de maneira intensiva no verão. E é feita com equipamentos velhos, vazamentos frequentes, derretimento de placas que não deveriam derreter. Daí, quando chega o inverno, toda essa bagunça é novamente congelada por um longo período. Assim, não há renovação da natureza, só destruição.

O que dizem os cientistas disso?
Há pesquisas em duas frentes: sobre o Ártico em si e sobre o Ártico no contexto da mudança climática. O Painel Intergovernamental de Mudança Climática da ONU (IPCC, na sigla em inglês) há duas semanas tornou público um relatório que reforça a visão do Greenpeace. A conclusão é a seguinte: há consenso científico de que 75% das reservas conhecidas de carvão, óleo e gás no planeta precisam ficar exatamente onde estão, se quisermos evitar uma catástrofe climática de escala planetária. Mas o IPCC é composto por governos, portanto, é um corpo conservador que acabará propondo medidas restritas, mesmo diante de evidências da ciência. Há até cientistas russos apoiando nossa posição no Ártico, ou seja, de que é preciso declarar a região santuário global, protegendo-a como se faz com a Antártida.

Existem consensos, mas não unanimidade entre os cientistas.
Existem cientistas trabalhando para companhias poluidoras, o que os torna ambíguos em relação aos riscos. Assim como existem cientistas independentes, insistindo que os danos serão irreversíveis. Que não vai dar para limpar o estrago. Também existe um consenso da ordem de 98% dos estudos feitos, reiterando que a mudança climática é real, vem se acelerando e ameaça a vida no planeta. Vamos continuar colocando isso em dúvida? O planeta em si não é o problema, porque ele vai mudar com o clima. Muda o solo, mudam os oceanos, mudam as estações. A dúvida é sobre a capacidade humana de coexistir com esse planeta em mutação, por séculos e séculos à nossa frente.

O Brasil tem um programa ambicioso de exploração de petróleo. Ele está no alvo do Greenpeace?
Como já disse, nunca antecipamos nossas ações. O que posso dizer é que atuamos em escala global, para desencorajar governos de investir em energia fóssil e poluidora. O Brasil tem a oportunidade histórica de se converter num líder global no setor da energia renovável. Não tenho dúvida de que já estamos passando de uma economia suja, marrom e fóssil, para uma economia limpa, verde e renovável. Basta ver como os investimentos nesse setor vêm crescendo.

O que forçará a mudança: os imperativos econômicos ou a consciência ambiental fortalecida?
Para muita gente no planeta, já é tarde para reagir… Segundo a Fundação Kofi Annan, 500 mil mortes anuais são causadas por alterações do clima. Em Darfur, a perda da terra levou à falta de comida que, combinadas, levaram ao genocídio. É isso o que se quer? Não há lugar para otimismo e não temos muito tempo para repensar nosso sistema energético, reduzir as emissões de carbono e gerar milhões de empregos numa economia sustentável, que leve em conta a vida das pessoas. É completamente injusto que comunidades pobres sejam hoje as mais penalizadas pelas emissões de carbono dos países ricos. Elas pagam um preço mais alto por isso, mas somos todos afetados.

(Fonte: http://www.estadao.com.br)

O mundo em que vivemos é ecocida

Leronardo Boff

Leronardo Boff

No dia 27 de setembro os centenas de cientistas reunidos em Estocolmo para avaliar o nível de aquecimento global do planeta, o conhecido Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC), nos transmitiram dados preocupantes: “Concentrações de dióxido de carbono (CO2), de metano (CH4) e de óxido nitroso (N2O), principais responsáveis pelo aquecimento global, agora excedem substancialmente as maiores concentrações registradas em núcleos de gelo durante os últimos 800 mil anos”. A atividade humana influiu nesse aquecimento com uma certeza de 95%. Entre 1951 e 2010 a temperatura subiu entre 0,5ºC e 1,3ºC e em alguns lugares já chegou a 2ºC. As previsões para o Brasil não são boas: poderemos ter a partir de 2050  um permanente verão durante todo o ano.

Tal temperatura poderá produzir efeitos devastadores para muitos ecossistemas e para crianças e idosos. Os cientistas do IPCC fazem um apelo ardente para que se iniciem no mundo todo imediatamente ações, em termos de produção e de consumo, que possam deter este processo e minorar seus efeitos maléficos. Como disse um dos coordenadores do relatório final, o suíço Thomas Stocker:”A questão mais importante não é onde estamos hoje, mas onde estaremos em 10, 15 ou 30 anos. E isso depende do que fizermos hoje”.

Pelo visto muito pouco ou quase nada se está fazendo de forma articulada e global. Os interesses econômicos de acumulação

Mark Hathaway

Mark Hathaway

ilimitada à custa do esgotamento dos bens e serviços naturais  prevalecem sobre as preocupações pelo futuro da vida e pela integridade da Terra.

A percepção básica que se tem ao ler o resumo de 31 páginas é que vivemos num tipo de mundo que sistematicamente destrói a capacidade de nosso planeta de sustentar a vida. Nossa forma de relacionamento para com a natureza e a Terra como um todo é ecocida e geocida. A seguir por este rumo vamos seguramente ao encontro de uma tragédia ecológico-social.

O propósito de incontáveis grupos, movimentos e ativistas se concentra na identificação de novas maneiras de viver de sorte que garantamos a vida em sua vasta diversidade e que vivamos em harmonia com a Terra, com a comunidade de vida e com o cosmos.

taoNum trabalho que nos custou mais de dez anos de intensa pesquisa um pedagogo canadense e experto em moderna cosmologia Mark Hathaway e eu tentamos ensaiar uma reflexão atenta que incluísse a contribuição do Oriente e do Ocidente a fim de delinearmos uma direção viável para todos. O livro se chama :”O Tao da libertação :explorando a ecologia da transformação” (Vozes 2012). Fritjof Capra fez-lhe um belo prefácio e a  comunidade científica norte americana acolheu a edição inglesa benevolamente, pois o Instituto Nautilus nos conferiu em 2010 a medalha de ouro em Ciência e Cosmologia.

Nossa pesquisa parte da seguinte constatação: há uma patologia aguda inerente ao sistema que atualmente domina e explora o mundo: a pobreza, a desigualdade social, o esgotamento da Terra e o forte desequilíbrio do sistema-vida; as mesmas forças e ideologias que exploram e excluem os pobres estão também devastando toda a comunidade de vida e minando as bases ecológicas que sustentam o Planeta Terra.

Para sair desta situação dramática somos chamados, de uma maneira muito real, a nos  reinventar como espécie. Para isso precisamos de sabedoria que nos leve a uma profunda libertação/transformação pessoal, passando de senhores sobre as coisas a irmãos e irmãs com as coisas. Essa reinvenção implica também uma transformação/libertação coletiva através de um outro design ecológico. Este nos convence a respeitar e viver segundo os ritmos da natureza. Devemos saber o que extrair dela para a nossa subsistência coletiva e como aprender dela pois ela se estrutura sistemicamente em redes de inter-retro-relações que garantem a cooperação e a solidariedade de todos com todos e conferem sustentabilidade à vida em todas as suas formas, especialmente à vida humana. Sem esta cooperação/solidariedade de nós com a  natureza e entre todos os humanos, não encontremos uma saída eficaz.

Sem uma revolução espiritual (não necessariamente religiosa) que envolva uma outra mente (nova visão) e um novo coração (nova sensibilidade) em vão procuramos soluções meramente científicas e técnicas. Estas são indispensáveis mas incorporadas dentro de um outro quadro de princípios e valores que estão na base de um novo paradigma civilizatório.

Tudo isso está dentro das virtualidades do processo cosmogênico e também dentro das possibilidades humanas. Importa crer em tais realidades. Sem fé e esperança humanas não construiremos uma Arca salvadora para todos.

(Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com)

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O relógio da Terra mostra-nos alguns dos impactos causados pelo Homem na Terra. As estatísticas nele apresentadas, que estão a ser actualizadas ao vivo, podem ser verificadas nos sites seguintes:


População mundial: US Census Bureau
Taxa de crescimento populacional: CIA World Factbook
População prisional: UK Homeoffice
Divórcios (apenas para os Estados Unidos): Wikipédia
Imigração ilegal nos Estados Unidos: Wikipédia
Abortos: Wikipédia
Mulheres que morrem durante procedimentos abortivos incorrectos: Organização Mundial de Saúde
Taxa de infecções por HIV: Avert
Taxa de incidência de cancro: UICC
Temperatura média da Terra: Wikipédia
Extinções de espécies: National Wildlife Federation
Produção de petróleo: CIA World Factbook
Produção de carros: Mation Master
Produção de bicicletas: Earth Policy
Produção de computadores: Top Secret
Estatísticas de mortalidade: Organização Mundial de Saúde