A tragédia da civilização do automóvel

Por Cesar Sanson*

O carro promete liberdade, mas se tornou uma espécie de cárcere privado. A tragédia da ‘civilização do automóvel’ é resultado das políticas do Estado que sempre foram generosas com a indústria automotiva

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Há exatos 40 anos, num ensaio considerado visionário, André Gorz publicou um texto intitulado ‘Le Sauvage’ [O Selvagem]. O ensaio, datado de 1973, é considerado pelos ambientalistas como o ‘Manifesto contra o carro’ por antecipar a tragédia da civilização do automóvel.  No texto, Gorz afirma que “o carro fez a cidade grande inabitável, a fez fedorenta, barulhenta, sufocante, empoeirada, congestionada”.

O carro instaurou uma lógica e um estilo de vida que promete liberdade, mas no lugar de ir e vir se tornou uma espécie de cárcere privado. Paradoxalmente, promete agilidade, mas proporciona a lentidão dos tempos pré-industriais. Promete ganhar tempo, mas na realidade faz perder tempo.

Eles entopem os estacionamentos das universidades privadas e públicas, dos aeroportos, dos shoppings, dos supermercados. Estacionar já se tornou um drama. Ter uma vaga cativa – e gratuita – é um privilégio que se assemelha ao da casa própria. Nos grandes centros já é mais caro estacionar do que almoçar

O estresse no trânsito é alto, os engarrafamentos enormes, a irritação é grande, mas ninguém quer abrir mão do carro. E ainda tem mais: quanto mais potente, belo e equipado, melhor. O sociólogo Richard Sennett, em seu livro A nova cultura do capitalismo, afirma que as pessoas se movem pela “paixão consumptiva” que assume as formas de “envolvimento em imagística e incitação pela potência”, ou seja, as pessoas quando consomem não compram apenas produtos, mas prazer e poder.

O fantástico e maravilhoso mundo prometido pelo carro tem um outro lado menos edificante. O carro provoca o caos, confusão, barulho, estresse, poluição, perdas econômicas e, o pior, mata. E mata muito. As estatísticas dão conta de que mata em média mais de 50 mil pessoas por ano, apenas no Brasil.

A tragédia da ‘civilização do automóvel’ tem como um dos responsáveis as políticas do Estado que sempre foram generosas com a indústria automotiva. No caso brasileiro, o modelo de desenvolvimento ancorou nas montadoras a sua base crescimentista. Desde Juscelino Kubistchek, a indústria automotiva recebe incentivos, subsídios e isenções.

Erigimos o ‘Império do automóvel’ e agora – da prometida sociedade do bem-estar -, ele, o carro, nos empurra para um crescente mal-estar. A mobilidade prometida pelo carro aos indivíduos se tornou fonte de angústia, estresse e sofrimento.

Outra mobilidade e cidade são possíveis, porém é preciso superar a cultura carrocentrista e promover ousadas políticas públicas que invistam pesado no transporte coletivo.

*Cesar Sanson é professor de sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

(Fonte: http://revistaforum.com.br)

‘Explorar petróleo no Ártico é criminoso’

Por Laura Greenhalgh

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Quando o Skype conecta o entrevistado, nas primeiras horas do dia em Amsterdã, na Holanda, ele pede desculpas pela aparência. Tem dormido pouco e trabalhado além do limite físico. Há um mês não faz outra coisa senão lidar com a prisão de 28 ativistas do Greenpeace em uma cadeia de Murmansk. O sul-africano Kumi Naidoo, de 48 anos, número 1 da organização ambiental, anda preocupado com a situação dos colegas. Vê intransigência em autoridades russas, ainda que líderes como o presidente Vladimir Putin e o primeiro-ministro Dmitri Medvedev rejeitem a acusação de pirataria imputada ao grupo. “É absurdo. Nós nos preparamos para enfrentar as consequências dos atos, mas que haja proporcionalidade entre o que fazemos e do que nos acusam”, diz em entrevista exclusiva ao Estado.

Em nenhum momento Naidoo nomeia os presos – entre eles, a bióloga brasileira Anna Paula Maciel. Fala de todos coletivamente e defende a “desobediência civil pacífica” como arma da organização. Tornou-se fonte de inspiração para milhares de ativistas do Greenpeace, cuja capilaridade pelo mundo constitui fenômeno à parte no ambientalismo. Este líder modelo tem disposição para o ataque, mas sabe fazer ativismo de salão, tendo sido ouvido na ONU e no Fórum Econômico Mundial, em Davos.

Kumi Naidoo debutou na militância contra o apartheid em seu país. Com Mandela livre e no poder, ajudou a montar a ala jovem do Congresso Nacional Sul-africano. Depois, foi se especializando em protestos de massa contra a pobreza da era da globalização. Em 2009, quando participava de uma greve de fome pelo Zimbábue, foi procurado pela direção do Greenpeace, que o convidava a entrar num processo de seleção para o seu mais alto posto. Aceitou o desafio a pedido da filha. “Ela me animou, seria a chance de atuar numa organização que não fica falando, falando…aqui se faz”. No ano passado, Naidoo fez barulho no Ártico. Subiu no bote para protestar contra a exploração de petróleo numa região que classifica como “santuário global”. Há um mês não estava lá para ser preso. Mas avisa que não vai desistir dessa guerra.

Qual é a situação dos presos?
É séria. No início, foram mandados para lugares distintos, depois reunidos numa só prisão. Enfrentaram condições muito duras em termos de comida, água, cobertores. Agora estão autorizados a receber cartas da família, há momentos em que se encontram fora das celas, mas, na maior parte do tempo, permanecem solitariamente confinados. Por horas e horas, ao longo de todos esses dias.

E o que o Greenpeace vem fazendo?
Recorremos das acusações e pedimos a libertação imediata do grupo. Contudo, na terça-feira, esses recursos foram julgados e negados, o que me preocupou. Há fatos novos. O governo holandês entrou com uma representação questionando a legalidade de prisões em águas internacionais, tomando como base a Convenção do Mar do Norte. Isso vai ser apreciado na próxima segunda, numa corte de arbitragem em Hamburgo. Tecnicamente, eu deveria esperar uma solução positiva. Mas tenho dúvidas. Essa situação ainda pode levar um par de semanas ou um par de meses. Difícil prever o desfecho.

As autoridades russas jogam duro?
Sim e não. O Conselho de Direitos Humanos, órgão do governo russo, vem contestando o processo e vai pedir que os ativistas sejam alvo de acusações adequadas. Pode-se até discutir uma acusação de tentativa de invasão da propriedade alheia, mas não de pirataria. Veja bem, nós não pretendemos estar acima da lei. Mas não queremos estar fora dela tampouco. Acreditamos no poder da desobediência civil pacífica, inspirados em momentos da História em que essa tática foi utilizada – na luta contra o colonialismo, a escravidão, o apartheid. A desobediência civil pacífica é uma arma legítima, usada por mulheres e homens quando dizem “agora, basta, isso não dá mais”. Gandhi, Luther King ou Mandela, cujas lutas hoje incorporamos e celebramos, fizeram uso dela. E nos ensinaram: quando existem leis injustas ou injustiças protegidas por leis, é preciso reagir.

Seria este o motor da campanha “Save de Arctic”, do Greenpeace?
A exploração de petróleo no Ártico não é só injusta, mas criminosa. Então desafiamos leis e acordos que justifiquem essa atividade. Temos a responsabilidade moral de fazer isso. Agora, somos uma organização consciente dos riscos que corre e nos preparamos para arcar com as consequências. Não vamos fugir do julgamento, só exigimos julgamento justo. Como disse o sr. Medvedev, falando pelo Conselho de Direitos Humanos, acusar o Greenpeace de pirataria e de formação de gangue, com intuito de sabotar plataforma de petróleo, é absurdo. Até o presidente Putin não vê sentido nisso. Espero que o bom senso prevaleça. E que sejamos acusados na proporção do que fizemos.

Como calcular essa proporção?
Fizemos uma ação visando a chamar a atenção do mundo para o seguinte problema: vazamento de óleo no Ártico é dano irrecuperável. Subimos em botes de borracha, num grupo de não mais de dez pessoas, para pacificamente hastear faixas e cartazes lembrando que uma catástrofe ali é iminente, há risco real. Mas os executivos da (companhia russa depetróleo) Gazprom preferiram inverter as coisas e nos acusar de colocar em risco a plataforma. Em nenhum momento quisemos protestar na plataforma, não é do nosso interesse. Queremos ficar do lado de fora. Então, colocamos o quê em risco? Ora, risco é o que estão fazendo por lá. Convido os seus leitores a pensar no que representa para todo o planeta uma atividade que provoca a formação de milhares de imensas placas de gelo, que se deslocam num lugar de remoto acesso, onde as condições para operar uma plataforma são as mais precárias que se possa imaginar. Isso é risco.

Você já fez protestos na região?
Sim. No ano passado fiquei naquelas águas por sete dias. Equipes de segurança da plataforma passaram o tempo todo provocando a guarda costeira russa, dizendo que os guardas deveriam nos prender. Mas eles viram que estávamos protestando pacificamente, não ameaçávamos nada. Ficaram nos observando três, quatro dias. Quando decidimos sair da área, daí eles nos perguntaram: e agora, para onde vão? Dissemos que iríamos à Noruega, depois ao Polo Norte, mas o fato é que não costumamos antecipar nossas ações. Não sei como explicar por que o relacionamento com as autoridades costeiras russas mudou tão drasticamente nos últimos 12 meses.

Qual é a influência das companhias de petróleo no jogo com as autoridades?
Seja na Rússia, no Canadá ou nos Estados Unidos, sempre nos deparamos com o poder excessivo das gigantes do óleo, gás e carvão. São poucas companhias ao todo, mas capturam e manobram governos segundo seus interesses. Costumo dizer que os EUA são a melhor democracia que o dinheiro pode comprar. Lobbies empresariais atuam junto ao meio político americano. E, dentre eles, os mais ferozes hoje são os das empresas poluidoras. Mobilizam equipes financeiras num corpo a corpo com cada representante do Congresso, para garantir que as leis da energia fóssil tramitem sem obstáculos. Na Rússia, a situação é diferente. A Gazprom foi uma estatal, não está bem claro onde terminam os interesses do governo, onde começam os da iniciativa privada.

Diz-se que as companhias russas são mais atrasadas do ponto de vista tecnológico.
Sim, o que só aumenta o risco de catástrofe ambiental. A Gazprom está drenando on shore neste momento. Ou seja, faz uma extração mais simples do que a offshore. E já ocorrem vazamentos pelo uso de 40 bombas obsoletas. Ou seja, usam equipamento velho, adotam práticas ruins, numa plataforma que não passa de um amontoado de peças de plataformas desativadas no Mar do Norte. Peças até cobertas de ferrugem!

Qual é o risco ambiental maior?
Num lugar daqueles, em que seis meses do ano, ou até mais, o oceano permanece congelado, a extração de óleo acaba ocorrendo de maneira intensiva no verão. E é feita com equipamentos velhos, vazamentos frequentes, derretimento de placas que não deveriam derreter. Daí, quando chega o inverno, toda essa bagunça é novamente congelada por um longo período. Assim, não há renovação da natureza, só destruição.

O que dizem os cientistas disso?
Há pesquisas em duas frentes: sobre o Ártico em si e sobre o Ártico no contexto da mudança climática. O Painel Intergovernamental de Mudança Climática da ONU (IPCC, na sigla em inglês) há duas semanas tornou público um relatório que reforça a visão do Greenpeace. A conclusão é a seguinte: há consenso científico de que 75% das reservas conhecidas de carvão, óleo e gás no planeta precisam ficar exatamente onde estão, se quisermos evitar uma catástrofe climática de escala planetária. Mas o IPCC é composto por governos, portanto, é um corpo conservador que acabará propondo medidas restritas, mesmo diante de evidências da ciência. Há até cientistas russos apoiando nossa posição no Ártico, ou seja, de que é preciso declarar a região santuário global, protegendo-a como se faz com a Antártida.

Existem consensos, mas não unanimidade entre os cientistas.
Existem cientistas trabalhando para companhias poluidoras, o que os torna ambíguos em relação aos riscos. Assim como existem cientistas independentes, insistindo que os danos serão irreversíveis. Que não vai dar para limpar o estrago. Também existe um consenso da ordem de 98% dos estudos feitos, reiterando que a mudança climática é real, vem se acelerando e ameaça a vida no planeta. Vamos continuar colocando isso em dúvida? O planeta em si não é o problema, porque ele vai mudar com o clima. Muda o solo, mudam os oceanos, mudam as estações. A dúvida é sobre a capacidade humana de coexistir com esse planeta em mutação, por séculos e séculos à nossa frente.

O Brasil tem um programa ambicioso de exploração de petróleo. Ele está no alvo do Greenpeace?
Como já disse, nunca antecipamos nossas ações. O que posso dizer é que atuamos em escala global, para desencorajar governos de investir em energia fóssil e poluidora. O Brasil tem a oportunidade histórica de se converter num líder global no setor da energia renovável. Não tenho dúvida de que já estamos passando de uma economia suja, marrom e fóssil, para uma economia limpa, verde e renovável. Basta ver como os investimentos nesse setor vêm crescendo.

O que forçará a mudança: os imperativos econômicos ou a consciência ambiental fortalecida?
Para muita gente no planeta, já é tarde para reagir… Segundo a Fundação Kofi Annan, 500 mil mortes anuais são causadas por alterações do clima. Em Darfur, a perda da terra levou à falta de comida que, combinadas, levaram ao genocídio. É isso o que se quer? Não há lugar para otimismo e não temos muito tempo para repensar nosso sistema energético, reduzir as emissões de carbono e gerar milhões de empregos numa economia sustentável, que leve em conta a vida das pessoas. É completamente injusto que comunidades pobres sejam hoje as mais penalizadas pelas emissões de carbono dos países ricos. Elas pagam um preço mais alto por isso, mas somos todos afetados.

(Fonte: http://www.estadao.com.br)

O mundo em que vivemos é ecocida

Leronardo Boff

Leronardo Boff

No dia 27 de setembro os centenas de cientistas reunidos em Estocolmo para avaliar o nível de aquecimento global do planeta, o conhecido Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC), nos transmitiram dados preocupantes: “Concentrações de dióxido de carbono (CO2), de metano (CH4) e de óxido nitroso (N2O), principais responsáveis pelo aquecimento global, agora excedem substancialmente as maiores concentrações registradas em núcleos de gelo durante os últimos 800 mil anos”. A atividade humana influiu nesse aquecimento com uma certeza de 95%. Entre 1951 e 2010 a temperatura subiu entre 0,5ºC e 1,3ºC e em alguns lugares já chegou a 2ºC. As previsões para o Brasil não são boas: poderemos ter a partir de 2050  um permanente verão durante todo o ano.

Tal temperatura poderá produzir efeitos devastadores para muitos ecossistemas e para crianças e idosos. Os cientistas do IPCC fazem um apelo ardente para que se iniciem no mundo todo imediatamente ações, em termos de produção e de consumo, que possam deter este processo e minorar seus efeitos maléficos. Como disse um dos coordenadores do relatório final, o suíço Thomas Stocker:”A questão mais importante não é onde estamos hoje, mas onde estaremos em 10, 15 ou 30 anos. E isso depende do que fizermos hoje”.

Pelo visto muito pouco ou quase nada se está fazendo de forma articulada e global. Os interesses econômicos de acumulação

Mark Hathaway

Mark Hathaway

ilimitada à custa do esgotamento dos bens e serviços naturais  prevalecem sobre as preocupações pelo futuro da vida e pela integridade da Terra.

A percepção básica que se tem ao ler o resumo de 31 páginas é que vivemos num tipo de mundo que sistematicamente destrói a capacidade de nosso planeta de sustentar a vida. Nossa forma de relacionamento para com a natureza e a Terra como um todo é ecocida e geocida. A seguir por este rumo vamos seguramente ao encontro de uma tragédia ecológico-social.

O propósito de incontáveis grupos, movimentos e ativistas se concentra na identificação de novas maneiras de viver de sorte que garantamos a vida em sua vasta diversidade e que vivamos em harmonia com a Terra, com a comunidade de vida e com o cosmos.

taoNum trabalho que nos custou mais de dez anos de intensa pesquisa um pedagogo canadense e experto em moderna cosmologia Mark Hathaway e eu tentamos ensaiar uma reflexão atenta que incluísse a contribuição do Oriente e do Ocidente a fim de delinearmos uma direção viável para todos. O livro se chama :”O Tao da libertação :explorando a ecologia da transformação” (Vozes 2012). Fritjof Capra fez-lhe um belo prefácio e a  comunidade científica norte americana acolheu a edição inglesa benevolamente, pois o Instituto Nautilus nos conferiu em 2010 a medalha de ouro em Ciência e Cosmologia.

Nossa pesquisa parte da seguinte constatação: há uma patologia aguda inerente ao sistema que atualmente domina e explora o mundo: a pobreza, a desigualdade social, o esgotamento da Terra e o forte desequilíbrio do sistema-vida; as mesmas forças e ideologias que exploram e excluem os pobres estão também devastando toda a comunidade de vida e minando as bases ecológicas que sustentam o Planeta Terra.

Para sair desta situação dramática somos chamados, de uma maneira muito real, a nos  reinventar como espécie. Para isso precisamos de sabedoria que nos leve a uma profunda libertação/transformação pessoal, passando de senhores sobre as coisas a irmãos e irmãs com as coisas. Essa reinvenção implica também uma transformação/libertação coletiva através de um outro design ecológico. Este nos convence a respeitar e viver segundo os ritmos da natureza. Devemos saber o que extrair dela para a nossa subsistência coletiva e como aprender dela pois ela se estrutura sistemicamente em redes de inter-retro-relações que garantem a cooperação e a solidariedade de todos com todos e conferem sustentabilidade à vida em todas as suas formas, especialmente à vida humana. Sem esta cooperação/solidariedade de nós com a  natureza e entre todos os humanos, não encontremos uma saída eficaz.

Sem uma revolução espiritual (não necessariamente religiosa) que envolva uma outra mente (nova visão) e um novo coração (nova sensibilidade) em vão procuramos soluções meramente científicas e técnicas. Estas são indispensáveis mas incorporadas dentro de um outro quadro de princípios e valores que estão na base de um novo paradigma civilizatório.

Tudo isso está dentro das virtualidades do processo cosmogênico e também dentro das possibilidades humanas. Importa crer em tais realidades. Sem fé e esperança humanas não construiremos uma Arca salvadora para todos.

(Fonte: http://leonardoboff.wordpress.com)

Eventos climáticos extremos ameaçam esforços para acabar com a miséria

Até 2030, mais de 325 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza estarão nos 49 países mais vulneráveis às mudanças climáticas, o que dificultará ainda mais as tentativas de desenvolvimento

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Quando o furacão Mitch devastou países na América Central em 1998, o Programa Mundial de Alimentação (PMA), das Nações Unidas, afirmou que o desastre destruiu 20 anos de trabalho para erradicar a fome e a pobreza na região.

Eventos climáticos extremos ao redor do mundo têm efeitos semelhantes todos os meses, mas, mesmo assim, a gestão de seus riscos ainda não é uma prioridade da comunidade internacional, alerta um relatório divulgado nesta quarta-feira (16).

O documento foi produzido pelo Overseas Development Institute (ODI), uma das principais entidades civis britânicas ligada a causas humanitárias, em parceria com o Met Office e a consultoria Risk Management Solutions (RMS).

Segundo o relatório, mais de 325 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza estarão nos 49 países mais vulneráveis às mudanças climáticas até 2030. Dessa forma, eventos climáticos extremos, como secas prolongadas ou enchentes constantes, as afetarão de forma particularmente rigorosa, tornando os esforços para acabar com a miséria mundial ainda mais difícil.

“Desastres representam uma ameaça crítica ao objetivo de acabar com a pobreza, e alguns países são tão vulneráveis que basta um punhado de eventos extremos para que os esforços nesse sentido sejam completamente destruídos”, afirmou Tom Mitchell, um dos autores do estudo.

Os pesquisadores analisaram, por exemplo, os impactos das secas na Etiópia e em regiões da Índia. E concluíram que a falta de acesso à água é o principal intensificador da pobreza.

“Normalmente, a má condição de saúde pública é apontada como a maior responsável pela miséria. Porém, em áreas vulneráveis à seca, o fator climático é o mais importante, já que é ele que está por trás dos problemas de saúde da população”, explicou Mitchell.

As 11 nações que reúnem as piores condições, ou seja, maior parcela da população abaixo da linha da pobreza e mais vulnerabilidade climática, são: Bangladesh, República Democrática do Congo, Etiópia, Quênia, Madagascar, Nepal, Nigéria, Paquistão, Sudão do Sul, Sudão e Uganda.

O Brasil também é citado no relatório, aparecendo com “vulnerabilidade moderada” e sendo classificado como um “país a ser observado”. Segundo os pesquisadores, mais de um milhão de brasileiros viverão com menos de US$ 1,25 por dia em 2030, e estarão expostos a múltiplos perigos climáticos.

Camarões, Indonésia, Nicarágua, Vietnã, Botsuana e Costa do Marfim são alguns dos outros países na mesma categoria que o Brasil.

O que os pesquisadores argumentam é que a gestão de riscos climáticos deveria ser um componente fundamental nos esforços de redução da pobreza.

Assim, as metas de desenvolvimento das Nações Unidas para após 2015 precisam incluir os perigos das mudanças climáticas, já que uma das suas consequências é o aumento da frequência e intensidade dos fenômenos climáticos extremos.

“Se a comunidade internacional quiser realmente acabar com a pobreza extrema até 2030, então a gestão de riscos de desastres deve estar no centro das ações e receber financiamentos adequados”, disse Mitchell.

De acordo com a ODI, de cada US$ 100 que foram destinados para causas humanitárias na última década, apenas US$ 0,40 foram aplicados em redução de riscos de desastres.

Leia o relatório: The geography of poverty, disasters and climate extremes in 2030

(Fonte: http://www.institutocarbonobrasil.org.br)

Ou mudamos ou morremos

Artigo de Leonardo Boff*

Hoje vivemos uma crise dos fundamentos de nossa convivência pessoal, nacional e mundial. Se olharmos a Terra como um todo, percebemos que quase nada funciona a contento. A Terra está doente e muito doente. E como somos, enquanto humanos também Terra (homem vem de humus=terra fértil), nos sentimos todos, de certa forma, doentes. A percepção que temos é de que não podemos continuar nesse caminho, pois nos levará a um abismo. Fomos tão insensatos nas últimas gerações que construímos o princípio de auto-destruição. Não é fantasia holywoodiana. Temos condições de destruir várias vezes a biosfera e impossibilitar o projeto planetário humano. Desta vez não haverá uma arca de Noé que salve a alguns e deixa perecer os demais. Os destinos da Terra e da humanidade coincidem: ou nos salvamos juntos ou sucumbimos juntos.

Agora viramos todos filósofos, pois, nos perguntamos entre estarrecidos e perplexos: como chegamos a isso?

Como vamos sair desse impasse global? Que colaboração posso dar como pessoa individual?

Em primeiro lugar, há de se entender o eixo estruturador de nossas sociedades hoje mundializadas, principal responsável por esse curso perigoso. É o tipo de economia que inventamos. A economia é fundamental, pois, ela é responsável pela produção e reprodução de nossa vida. O tipo de economia vigente se monta sobre a troca competitiva. Tudo na sociedade e na economia se concentra na troca. A troca aqui é qualificada, é competitiva. Só o mais forte triunfa. Os outros ou se agregam como sócios subalternos ou desaparecem. O resultado desta lógica da competição de todos com todos é duplo: de um lado uma acumulação fantástica de benefícios em poucos grupos e de outro, uma exclusão fantástica da maioria das pessoas, dos grupos e das nações.

Atualmente, o grande crime da humanidade é o da exclusão social. Por todas as partes reina fome crônica, aumento das doenças antes erradicadas, depredação dos recursos limitados da natureza e um ambiente geral de violência, de opressão e de guerra.

Mas reconheçamos: por séculos essa troca competitiva abrigava a todos, bem ou mal, sob seu teto. Sua lógica agilizou todas as forças produtivas e criou mil facilidades para a existência humana. Mas hoje, as virtualidades deste tipo de economia estão se esgotando. A grande maioria dos países e das pessoas não cabem mais sob seu teto. São excluídos ou sócios menores e subalternos, como é o caso do Brasil.

Agora esse tipo de economia da troca competitiva se mostra altamente destrutiva, onde quer que ela penetre e se imponha. Ela nos pode levar ao destino dos dinossauros.

Ou mudamos ou morremos, essa é a alternativa. Onde buscar o princípio articulador de uma outra sociabilidade, de um novo sonho para frente? Em momentos de crise total precisamos consultar a fonte originária de tudo, a natureza. Que ela nos ensina? Ela nos ensina, foi o que a ciência já há um século identificou, que a lei básica do universo não é a competição que divide e exclui, mas a cooperação que soma e inclui. Todas as energias, todos os elementos, todos os seres vivos, desde as bactérias e vírus até os seres mais complexos, somos inter-retro-relacionados e, por isso, interdependentes. Uma teia de conexões nos envolve por todos os lados, fazendo-nos seres cooperativos e solidários. Quer queiramos ou não, pois essa é a lei do universo. Por causa desta teia chegamos até aqui e poderemos ter futuro.

Aqui se encontra a saída para um novo sonho civilizatório e para um futuro para as nossas sociedades: fazermos desta lei da natureza, conscientemente, um projeto pessoal e coletivo, sermos seres cooperativos. Ao invés de troca competitiva onde só um ganha devemos fortalecer a troca complementar e cooperativa, onde todos ganham. Importa assumir, com absoluta seriedade, o princípio do prêmio de economia John Nesh, cuja mente brilhante foi celebrada por um não menos brilhante filme: o princípio ganha-ganha, onde todos saem beneficiados sem haver perdedores.

Para conviver humanamente inventamos a economia, a política, a cultura, a ética e a religião. Mas nos últimos séculos o fizemos sob a inspiração da competição que gera o individualismo. Esse tempo acabou. Agora temos que inaugurar a inspiração da cooperação que gera a comunidade e a participação de todos em tudo o que interessa a todos.

Tais teses e pensamentos se encontram detalhados nesse brilhante livro de Maurício Abdalla, O princípio da cooperação. Em busca de uma nova racionalidade.

Se não fizermos essa conversão, preparemo-nos para o pior. Urge começar com as revoluções moleculares. Começemos por nós mesmos, sendo seres cooperativos, solidários, com-passivos, simplesmente humanos. Com isso definimos a direção certa. Nela há esperança e vida para nós e para a Terra.

*Leonardo Boff, teólogo e professor, é autor de mais de 60 livros sobre teologia, filosofia, espiritualidade, antropologia e mística

(Fonte: http://www3.ethos.org.br)

Pela primeira vez, poluição do ar é classificada como cancerígena pela OMS

Poluição do ar em Pequim

Poluição do ar em Pequim

A poluição do ar é a principal causa ambiental do câncer em humanos, é o que acaba de concluir a Agência Internacional para Pesquisas do Câncer (IARC), um braço da Organização Mundial de Saúde (OMS).

Após revisões abrangentes das mais recentes literaturas científicas disponíveis, os especialistas da agência concluíram que a exposição à poluição atmosférica causa câncer de pulmão e que há indícios positivos da ligação com o aumento no risco de câncer de bexiga. É a primeira vez que a poluição do ar é classificada como cancerígena para os humanos.

O material particulado, um dos principais componentes da poluição atmosférica, foi avaliado separadamente e também classificado como carcinogênico.

Apesar de a composição da poluição e do material particulado e dos níveis de exposição variarem muito, as conclusões do grupo de trabalho se aplicam a todas as regiões do mundo.

Já se sabe que a poluição aumenta os riscos de diversas doenças, como respiratórias e do coração, e pesquisas recentes mostram que os níveis de exposição aumentaram muito nos últimos anos, especialmente nos países em rápida industrialização.

Os dados mais recentes mostram que, em 2010, 223 mil mortes por câncer de pulmão ao redor do mundo resultaram da poluição do ar.

“O ar que respiramos se tornou poluído, com uma mistura de substâncias que causam câncer”, comentou Kurt Straif, chefe da seção de monografias do IARC.

As principais fontes de poluição do ar são a queima de combustíveis no setor de transportes, a geração de energia estacionária, as emissões industriais e agrícolas, e, nas residências, o aquecimento e o cozimento.

“Classificar a poluição do ar exterior como carcinogênica para humanos é um passo importante”, enfatizou o Dr. Christopher Wild, diretor do IARC.

“Há formas efetivas de reduzir a poluição do ar e, dada a escala de exposição afetando as pessoas ao redor do mundo, este relatório deve enviar um sinal forte para a comunidade internacional agir sem mais atrasos”, completou Wild.

O resumo da avaliação será publicado na quinta-feira (24) no periódico The Lancet Oncology. (Fernanda B. Müller)

(Fonte: http://www.institutocarbonobrasil.org.br)

Tratamento adequado de resíduos pode ser verdadeira mina de ouro

lixo_eletronicoCerca de 3,5 bilhões de pessoas, metade da população mundial, não dispõem de serviços cruciais de gestão de resíduos, o que significa um prejuízo significativo para o meio ambiente, a saúde e as economias, alertou as Nações Unidas na segunda-feira (7). A ONU também ressaltou que a reciclagem e o tratamento adequado do lixo podem ser, literalmente, uma mina de ouro.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) chamou de “impressionante” os números divulgados no relatório “Diretrizes para Estratégias Nacionais de Gestão de Resíduos: Dos Desafios às Oportunidades”, lançado em parceria com Instituto das Nações Unidas para Formação e Pesquisa (UNITAR).

O estudo mostra que uma tonelada de lixo eletrônico reciclado poderia render o equivalente entre cinco e 15 toneladas de ouro e afirma que a gestão de resíduos não é apenas um desafio, mas “uma oportunidade inexplorada”.

Além do potencial de ouro que pode ser extraído de uma tonelada de resíduos de equipamentos eletroeletrônicos (e-waste), a pesquisa observa que a quantidade de cobre, alumínio e metais raros retirados do material reciclado excederia muitas vezes a quantidade encontrada naturalmente.

Outros benefícios incluem a redução da emissão de dióxido de carbono e dióxido de enxofre para a atmosfera, aumento na geração de emprego e redução do desperdício de alimentos e poluição do ar.

No geral, um número estimado de 1,3 bilhão de toneladas de resíduos sólidos são coletados em todo o mundo, uma quantidade que deverá aumentar para 2,2 bilhões de toneladas até 2025. Além disso, a degradação da fração orgânica dos resíduos sólidos contribui com cerca de 5% dos gases de efeito estufa emitidos no mundo. (ONU Brasil)

(Fonte: http://www.mercadoetico.com.br)

Chineses criam projeto de ônibus sustentável que anda por cima dos carros

Com o excesso de carros nas ruas, a insegurança em andar de moto ou bicicleta e as opções muitas vezes problemáticas dos transportes públicos, é comum se perguntar se há algum meio de transporte urbano realmente eficiente. A resposta, pelo menos para os chineses, pode estar acima das ruas. Trata-se de um projeto de transporte urbano semelhante a um metrô, mas que passa por cima dos carros.

O veículo, chamado Land Air Bus, é uma mistura de ônibus e metrô, e seus trilhos ficariam localizados à margem das vias, enquanto ele passa por cima das ruas e avenidas, como se fosse um túnel.

 

Um dos chamarizes do projeto, além de prometer reduzir o trânsito em 30%, é o corte no uso de combustível: o ônibus, que é parcialmente movido por placas solares e motor elétrico, economizaria até 860 toneladas de combustível por ano, e diminuiria a emissão de dióxido de carbono para a atmosfera em 2640 toneladas anuais.

Outras vantagens são a rapidez e o preço de sua construção: enquanto que, para construir 40 quilômetros de infraestrutura de metrô seriam necessários três anos, para a implementação do Land Air Bus seria necessário apenas um ano, e o custo seria 10% menor.

O ônibus comporta até 1200 pessoas, divididas em quatro vagões com uma capacidade de 300 pessoas cada. O veículo possui seis metros de largura por quatro de altura e ocupa duas pistas, permitindo que carros de até dois metros de altura passem por baixo.

Ele pode chegar a até 60 quilômetros por hora, mas deve andar a uma velocidade média de 40 km/h. O Land Air Bus tem ainda um sistema que freia automaticamente em caso de emergência, como um acidente à frente.

Embora ainda não haja previsões concretas da implementação do ônibus em nenhuma cidade chinesa, o projeto está sendo apresentado no país como o futuro do transporte nas grandes cidades, e há rumores de que um trecho seria construído na cidade de Pequim.

(Fonte: http://www.institutocarbonobrasil.org.br)

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O relógio da Terra mostra-nos alguns dos impactos causados pelo Homem na Terra. As estatísticas nele apresentadas, que estão a ser actualizadas ao vivo, podem ser verificadas nos sites seguintes:


População mundial: US Census Bureau
Taxa de crescimento populacional: CIA World Factbook
População prisional: UK Homeoffice
Divórcios (apenas para os Estados Unidos): Wikipédia
Imigração ilegal nos Estados Unidos: Wikipédia
Abortos: Wikipédia
Mulheres que morrem durante procedimentos abortivos incorrectos: Organização Mundial de Saúde
Taxa de infecções por HIV: Avert
Taxa de incidência de cancro: UICC
Temperatura média da Terra: Wikipédia
Extinções de espécies: National Wildlife Federation
Produção de petróleo: CIA World Factbook
Produção de carros: Mation Master
Produção de bicicletas: Earth Policy
Produção de computadores: Top Secret
Estatísticas de mortalidade: Organização Mundial de Saúde