Reduzir a população de bovinos para combater o desmatamento e o aquecimento global

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 215 milhões de cabeças

O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 215 milhões de cabeças

Quase 70 bilhões de animais terrestres são mortos todos os anos para alimentar os cerca de 7 bilhões de seres humanos. São cerca de 10 animais mortos, anualmente, para cada pessoa.

A reportagem foi publicada pelo portal EcoDebate, 07-02-2014.

Segundo a FAO, a criação de animais domesticados, no mundo, a serviço do apetite do homo sapiens, atinge cerca de 200 milhões de búfalos, 800 milhões de cabritos, 1 bilhão de porcos, 1,1 bilhão de ovelhas, 1,45 bilhão de bovinos e dezenas de bilhões de galinhas. A pecuária ocupa 26% da superfície terrestre global. O Brasil tem o maior rebanho bovino do mundo, com cerca de 215 milhões de cabeças (mais gado do que gente).

O impacto da população de ruminantes, especialmente bovinos, sobre o meio ambiente é muito grande. O metano liberado a partir dos sistemas digestivos dos animais criados pela pecuária é responsável por 14,5% de todos os gases de efeito estufa emitidos pelas atividades antrópicas. O gás metano é cerca de 30 vezes mais potente que o efeito do dióxido de carbono no aquecimento do planeta (um boi gera 58 quilos de metano por ano).

O consumo anual médio per capita de carne no mundo desenvolvido foi de cerca de 80 quilos em 2012 e está projetado para crescer para 89 quilos em 2030. Enquanto isso, no mundo em desenvolvimento foi de 32 quilos em 2012, projetado para crescer para 37 em 2030. Se gasta 15 mil litros de água para produzir um quilo de carne. Além de ser ruim para o meio ambiente, o consumo de carne também afeta a saúde humana.

Segundo um estudo feito na Universidade da Califórnia, publicado no periódico JAMA Internal Medicine, as pessoas que não comem carne têm mais chances de ter uma vida longa, se comparadas com aquelas que têm uma dieta “carnívora”. O trabalho envolveu mais de 73 mil participantes, reunidos entre 2002 e 2007 e acompanhados pelo período de quase seis anos.

Um novo estudo da Clínica de Cleveland (EUA ) diz que uma substância química encontrada na carne vermelha é ruim para o coração. Segundo os pesquisadores, a carnitina é processada por bactérias no intestino, dando início a uma cadeia de eventos que resultam em altos níveis de colesterol e no aumento do risco de doenças cardíacas. Reportagem do jornal O Globo (30/01/2014) mostra que quase metade da carne bovina produzida no Brasil está fora do alcance da fiscalização do Ministério da Agricultura (Mapa) e não tem o Certificado de Inspeção Federal (CIF). Todo o controle de resíduos do uso de antibióticos, vermífugos e hormônios (que são proibidos no país) nos rebanhos cabe a órgãos municipais e estaduais, que geralmente não dispõem de meios adequados para a função.

No Reino Unido, o governo não recomenda comer mais do que 70g de carne vermelha ou processada por dia. Por tudo isto, cresce o movimento do Meatless day (pelo menos um dia sem carne na semana). Um dia sem comer carne é bom para a saúde e pode ajudar a combater o aquecimento global. Uma das campanhas de maior impacto é o Meatless Monday (“Segunda sem Carne”), movimento que surgiu nos Estados Unidos em 2003 e tem se espalhado ao redor do mundo.

O economista Nicholas Stern já defendeu comer menos carne para combater o aquecimento global. Estudo publicado pela revista Nature Climate Change propõe a redução da emissão de metano empurrando para cima o preço da carne através de um regime fiscal ou comércio de emissões. O aumento de impostos sobre a carne poderia reduzir o consumo pois “uma mudança na dieta em grande escala não vai acontecer voluntariamente , sem incentivos”. O professor de solos e mudança global na Universidade de AberdeenPete Smith, um dos autores do estudo, disse: “Uma das maneiras mais eficazes para reduzir o metano é reduzir as populações globais de ruminantes, especialmente bovinos”.

No Brasil a pecuária bovina é usada, dentre outras coisas, para ocupar áreas que são desmatadas visando a comercialização e a valorização da terra. Gado, desmatamento e especulação de terras andam juntas. Reportagem publicado no Portal Ecodebate mostra que o rebanho bovino da Amazônia Legal cresceu 140% e passou de 26,6 milhões para 64 milhões de cabeças, entre 1990 e 2003, constituindo-se no principal fator de desmatamento. A violência e os homicídios também costumam acompanhar este processo. As plantações de soja também ocupam áreas desmatadas e já existem projetos no Congresso Nacional tentando legalizar a plantação de cana nas áreas em que a floresta foi destruida. Ou seja, primeiro se desmata para vender as madeiras e depois se ocupa os terrenos para as atividades antrópicas e a monetarização do território transformado em lucro e especulação. Por isto tem gente que diz que o Brasil precisa de menos Friboi e mais “free boi”.

Mas a redução da população de bovinos e ruminantes domesticados não tem razões apenas econômicas. Há também uma questão ética e de respeito aos animais. Siddartha Gautama, o Buda, que viveu há cerca de 2500 anos atrás, praticava uma dieta vegetariana e defendia o direito à vida dos animais. Diversas outras personalidades da história também criticaram a matança de animais sencientes em função da alimentação humana. O veganismo defende o fim da exploração e do abuso dos animais por convicções éticas. O vegano não aceita a utilização de animais para alimentação, apropriação, trabalho, vivissecção, confinamento, nem outros usos da vida animal pelo ser humano

Portanto, reduzir a população de bovinos e demais ruminantes é uma forma de combater a escravidão animal e um meio de diminuir o desmatamento e o aquecimento global. Com mais espaços livres das atividades antrópicas, o mundo pode avançar com o processo de reselvagerização da flora e da fauna, livres do utilitarismo e do domínio onipresente de uma única espécie invasora, egoísta e espaçosa.

(Fonte: http://www.ihu.unisinos.br)

Maior jequitibá do Brasil é encontrado no sul da Bahia

Jequitibá com 48 metros de altura total e 4,35 metros de diâmetro

Jequitibá com 48 metros de altura total e 4,35 metros de diâmetro

O grande ganhador da 1ª Edição do Concurso Maiores Árvores da Região Sul da Bahia, a Fazenda Monte Florido, do proprietário Rodrigo Barreto, no município de Camacã, conquistou o prêmio por ter um jequitibá de 48 metros de altura total e 4,35 metros de diâmetro. Para a surpresa de todos, o resultado também revelou o maior exemplar da espécie do Brasil, título, até então, do jequitibá rosa localizado no Parque Estadual de Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro (SP), com 40 metros de altura e 4m de diâmetro, segundo a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

O maior jequitibá do Brasil foi encontrado em área de produção cabruca, sistema que ajuda a conservar os biomas da Mata Atlântica e da Amazônia apresentando oportunidades para atuais e futuras gerações. A importância da cabruca para a biodiversidade está em proteger espécies nativas como o jequitibá, além de propiciar que animais ameaçados de extinção, como o mico-leão da cara dourada, por exemplo, usufruam deste cenário, em boas condições, para se deslocar entre fragmentos.

A metodologia utilizada pelo concurso foi definida pelo volume da árvore em m³, por meio da equação Spurr, considerando volume com casca, DAP (Diâmetro a Altura do Peito) e altura total, já que o foco não era comercial e sim pesquisa.

Imponente pela grandeza, o jequitibá Manduca, como foi batizado, chama a atenção de longe. No meio de tantas outras espécies,  tem lugar de destaque e ganha atenção pela sua exuberância. Para chegar até ele é preciso enfrentar uma trilha ainda pouco explorada e de acesso  complicado. Para facilitar a visita,  o contemplado do concurso receberá um prêmio no valor de R$20.000 para investir em uma trilha de ecoturismo acompanhada de um plano de negócio.

A iniciativa caiu nas graças da atriz Camila Pitanga, que gravou de forma voluntária um vídeo reforçando a relevância da ação, fomentada pelo Instituto Cabruca. Na produção ela manifesta seu apoio ao Programa , convida a sociedade a participar e destaca a importância de se conservar o Bioma Mata Atlântica. Quem também contribui como voluntário com a ação foram os atores Aury Porto e Pascoal da Conceição, o eterno Dr. Abobrinha, do infantil Castelo Rá-Tim-Bum. Assim como Camila, eles manifestaram seu apoio ao Programa Árvores da Cabruca. Os atores estão juntos na peça O Duelo, integrando a mundana companhia.

O Concurso

Em 2013, o Instituto Cabruca lançou o Programa Árvores da Cabruca, com o objetivo de formar produtos ecoturísticos associados a cadeia produtiva do cacau e chocolate e reconhecer e conservar as maiores árvores da região Sul da Bahia. Uma das ações do programa é o Concurso “Maiores Árvores da Região Sul da Bahia”, a partir do qual serão escolhidas as dez maiores árvores de uma determinada categoria e o vencedor será contemplado com o prêmio no valor de R$ 20.000,00 para investir em uma trilha interpretativa de ecoturismo acompanhada de um plano de negócio, projetada por um especialista da área de Ecoturismo.

O jequitibá foi a espécie homenageada na primeira edição da iniciativa. Entre os objetivos da ação, podemos citar: identificação de árvores centenárias; ampliação do número de visitas ao local, estimulando o turismo rural; estímulo  à conservação de grandes árvores; premiação dos agricultores que possuem os maiores indivíduos arbóreos presentes em áreas do Sistema Agroflorestal Cacau – Cabruca e Mata Atlântica e  Tombamento dos maiores exemplares de árvores de diferentes espécies na região, como patrimônio histórico, cultural e paisagístico.

(Fonte: http://www.teixeiranews.com.br/)

Dia Mundial Contra o Câncer (4/2) e os Pulmões do mundo

Artigo de Cristiano Guedes Duque*

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Estão previstos mais de 27 mil novos casos de cânceres de pulmão, traqueia e brônquio este ano, no país, segundo a “Estimativa 2014 – Incidência de câncer no Brasil”. As projeções do Ministério da Saúde e do Instituto Nacional de Câncer dão o que pensar.

Já faz algum tempo que ouvimos falar dos malefícios que a poluição atmosférica pode causar à nossa saúde. Tais danos ocorrem principalmente pelo desenvolvimento de doenças respiratórias e cardiovasculares. Estima-se que a poluição seja o motivo da ocorrência de 3,2 milhões de mortes prematuras em todo o mundo.

Há, porém, um motivo a mais para se preocupar. Em outubro, a agência da Organização Mundial de Saúde (OMS) especializada em câncer, a IARC, classificou a poluição do ar externo como carcinogênica para humanos. Isto significa que há evidências suficientes de que a exposição à mesma causa câncer de pulmão.

Segundo publicação da OMS, no ano de 2010 ocorreram 223 mil mortes por câncer de pulmão causadas pela poluição do ar. Há também associação do problema com um aumento do risco de câncer de bexiga.

A poluição do ar externo a que a agência da OMS refere-se diz respeito às partículas em suspensão no ar, que são o componente principal desta poluição. Ou seja, é o ar que todos nós respiramos, independente da localização geográfica e da concentração de substâncias específicas.

Quais seriam, então, as fontes desta poluição? Elas são bem conhecidas de todos nós: as emissões dos meios de transporte, da indústria, da agricultura, do cozimento residencial (carvão) e das fontes de emissão estacionárias (geração de energia).

É importante lembrar que os casos de câncer de pulmão têm aumentado bastante, desde o início do século passado. Trata-se hoje da neoplasia maligna mais frequente na população mundial e a causa mais importante de morte por câncer. E a doença geralmente é detectada em estágios avançados.

O reconhecimento de que a poluição do ar causa câncer por uma organização respeitada como a OMS é um passo importante para começarmos a pensar em mudar nossos hábitos de vida. Para sair de casa, podemos pensar em usar meios de transporte que poluam menos. Ao fazer compras, a preferência por itens produzidos localmente e que não precisem de grandes deslocamentos ajuda, assim como a opção por automóveis mais econômicos. De nossos governantes, podemos cobrar meios de transporte público de qualidade e pouco poluentes, o estabelecimento de normas de emissão para a indústria e a agricultura, assim como o estímulo a veículos que emitam menos partículas em suspensão.

O maior causador de câncer de pulmão continua sendo o cigarro, que confere um aumento do risco em até 30 vezes. Desta forma, para quem fuma ou vive perto de pessoas que fumam, o fato de saber que, além do risco do tabagismo, está exposto à poluição do ar externo, deve ser um motivo a mais para se esforçar para abandonar o cigarro.

*Cristiano Guedes Duque é oncologista da Oncoclínica e do Inca

(Fonte: http://www.ecodebate.com.br/)

A riqueza alimentar das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC)

Apesar de ainda pouco conhecidas no Brasil, estas plantas – chamadas de PANC -, possuem grande potencial nutricional e substituem com sabor, hortaliças e frutos tradicionais

Por Cassandra Castro

Chanana ou Damiana (Turnera subulata), flor muito comum nas ruas e calçadas. É estimulante e pode ter as flores consumidas em saladas, refogados, licores, geleias, sorvetes, sucos. As folhas podem ser aproveitadas em chás e para tempero

Chanana ou Damiana (Turnera subulata), flor muito comum nas ruas e calçadas. É estimulante e pode ter as flores consumidas em saladas, refogados, licores, geleias, sorvetes, sucos. As folhas podem ser aproveitadas em chás e para tempero

Quem anda pelas ruas de Manaus e de outras cidades do Brasil pode se surpreender ao descobrir que muitas plantas e flores que nascem espontaneamente em terrenos, jardins, calçadas e espaços públicos podem ir para a mesa não como peças de decoração, mas sim, como alimento.

Olhares mais atentos aliados ao conhecimento descobrem como estas plantas podem marcar uma verdadeira revolução alimentar e por que não, econômica, além de também derrubar tabus em relação às chamadas plantas alimentícias não convencionais.

O professor doutor Valdely Ferreira Kinupp é um estudioso apaixonado pelas chamadas PANC (Plantas Alimentícias Não Convencionais) e defensor ferrenho de um melhor aproveitamento delas no nosso dia a dia. Confira aqui algumas espécies e forma de consumo e uso.

Em sua tese de doutorado, Kinupp nos leva a refletir sobre as influências que recebemos sobre nossos hábitos alimentares e como um certo ‘conservadorismo’ acaba barrando a oportunidade de experimentações gastronômicas.“Essas plantas geralmente são chamadas de ‘daninhas’, ‘nocivas’ e vários outros nomes preconceituosos, pejorativos e que refletem um ponto de vista.  Você come quase a mesma coisa o ano inteiro. Vai à feira, seja orgânica ou convencional, mas não ousa experimentar uma coisa diferente”, exemplifica o professor.

O desconhecimento destas espécies ainda é grande não só no Amazonas, mas também em outras partes do Brasil, porém, aos poucos, as pessoas começam a ter contato com estas plantas e descobrem como elas podem representar alternativas para uma alimentação diferente, saudável e rentável.

Hortaliças e frutos como vitória-amazônica, caruru, orelha-de-macaco, também conhecida como espinafre regional, cariru, ora-pro-nóbis , entre outras, podem trazer ousadia de sabores à mesa.

Kinupp explica que no Amazonas existem algumas poucas espécies tidas como hortaliças como o cubiu, ária, feijão-de-asa e o quiabo-de-metro e também frutas como sorva, pajurá e abricó, por exemplo. As frutas ainda são cultivadas em pequenos plantios ou em áreas de manejo e geralmente de extrativismo.  Mas, a grande maioria das PANC ainda não é cultivada e é desconhecida da população atual.

Taioba (Xanthosoma sagittifolim), podem ser comidas as folhas e talos bem cozidos. As batatas podem ser cozidas e usadas em farinha, pães, purês, etc

Taioba (Xanthosoma sagittifolim), podem ser comidas as folhas e talos bem cozidos. As batatas podem ser cozidas e usadas em farinha, pães, purês, etc

E esta riqueza alimentar , via de regra, não exige grandes adaptações ou técnicas para cultivo. As espécies de PANC são de fácil plantio e propagação e são adaptadas às condições de cada região. A maioria possui sementes, galhos, estacas que podem ser usados na propagação sem que o agricultor tenha de comprar sementes comerciais. São plantas que estão adaptadas às condições de solo e clima da região onde ocorrem e podem ser cultivadas de forma agroecológica, ou seja, sem agrotóxicos e adubação sintética.

O especialista cita alguns experimentos que fez substituindo ingredientes tradicionais por hortaliças e frutos como: vitória-amazônica, que utilizou fazendo pipoca, além das flores que são comestíveis; o caruru, rico em ferro e vitamina A, que poderia ser utilizado na pizza ou na fabricação de pão; e a orelha-de-macaco, conhecida como espinafre regional, que pode enriquecer o arroz e o feijão.

Ele estima que existam no Brasil, centenas ou milhares de espécies e exemplifica: “Em média de 10 a 20% da diversidade de espécies vegetais têm potencial alimentício, isto é, se temos 40 mil espécies no país temos de 4 mil a 8 mil espécies de PANC, pois a maioria não faz parte do nosso dia a dia. No Amazonas se estima (muito por baixo) em 8 mil espécies, daí teríamos de 800 a 1600 espécies potencialmente alimentícias.

Com tanta riqueza na natureza ainda desconhecida, Kinupp convida as pessoas a refletirem sobre o que sabem a respeito destas plantas. Quantas conhece, quantas já experimentou, se elas são vistas nos cardápios de restaurantes ou nos programas de gastronomia. “É uma reflexão que nós e poder público deveria fazer antes de tagarelar e propalar a todos os cantos nossa megafitodiversidade. Comemos muito da biodiversidade de outros países e continentes. Somos xenófilos à mesa!!!”, declara.

Ora-pro-Nóbis (Pereskia aculeata), comem-se folhas, flores e frutos. Na Malásia, é consumida como alimento anti-câncer de mama e outros tipos.

Ora-pro-Nóbis (Pereskia aculeata), comem-se folhas, flores e frutos.

Bem longe dos holofotes, algumas destas plantas já tiveram seus momentos de fama em pratos de chefs renomados, despertando não só a curiosidade mas também, admiração e surpresa: como não experimentei isso antes? O assunto inclusive será tema de um encontro no dia 26 de agosto, em São Paulo, dentro do projeto “Entre estantes e panelas”.

Em Manaus, algumas destas PANC podem ser garimpadas em feiras, mas sempre é necessário que o consumidor treine o olhar e cobre dos feirantes mais ofertas destas plantas. Kinupp cita a feira do Coroado onde é possível encontrar ariá (batatinha da Amazônia), feijão-de-asa, jilosão, espinafre-da-Amazônia, entre outras. Outros locais como os feirões da Sepror e na Feira de Orgânicos no Ministério da Agricultura (MAPA) também oferecem alguns tipos de PANC.

Descobrir estas plantas diferentes e saborosas pode significar não só ousar na busca de sabores ainda desconhecidos, mas aliar esta viagem gastronômica à saúde e à valorização dos produtos regionais.

(Fonte: http://acritica.uol.com.br/)

O VENENO ESTÁ MUITO ALÉM DO AGROTÓXICO: ESTÁ NA EMBALAGEM!

Vale a pena o esclarecimento no momento atual sobre alguns fatos quanto à realidade das embalagens como um todo. Estamos atolados nelas em todos os níveis. Lembremos as ilhas de plástico nos oceanos. Já a lata, por exemplo, tomou conta de tudo: do refrigerante ao suco ‘natural’. Mas será que alguém se deu conta de que todas as latas, conforme a pesquisa científica vem mostrando, tem uma película interna com o insidioso BPA (bisfenol A) em sua composição? Lembram-se das mamadeiras do plástico policarbonato que foram proibidas porque dela lixiviava o BPA que surgiu da reação química desta molécula com a arma química fosgênio? Pois a lata tem esta resina ou a epóxi que também vem do BPA. Mas alguém se pergunta se ao consumir qualquer produto em lata que esta substância pode estar se liberando dela e se misturando naquilo que vai se dar a seu filho?

- Será o CELOFANE uma solução? –

Texto de Luiz Jacques Saldanha

 

E quanto aos produtos que contém gordura, presunto, carne, pão, queijo etc., alguém já se apercebeu para ver com o que o supermercado está embalando? Que nada mais é do que o filme de PVC que envolve o produto numa bandejinha de estiropor (nome comercial – ‘isopor’) e consta serem os dois imitadores de hormônios femininos, os disruptores endócrinos?

E mais, será que alguém percebeu que existe outro material que foi substituído pelo PVC e tem grande potencial, entre nós, para ser empregado como embalagem? E que este produto se caracteriza por ser uma folha fina, transparente e com baixa permeabilidade e originário de uma matéria prima natural, a celulose?

Originalmente foi denominado como ”cellophane”, palavra originária da junção das palavras francesas ‘cellulose’ e ‘diaphane’ (transparente). E sendo de celulose, pode ser feito de qualquer material rico dela como a madeira, casca de coco ou de outras fontes de celulose, gerando um produto que mesmo que tenha sido criado artificialmente pelo homem, é completamente biodegradável.

Contextualizando, o celofane foi inventado e gerado em laboratório. Por isso é importante sabermos que mesmo sendo sintetizado e produzido pelas mãos e inteligência humanas ainda pode ser naturalmente absorvido pelos ciclos da vida. Mesmo não sendo originário de processos de transformação industrial com matéria prima que já existia originalmente na natureza e por isso degradável por meios físicos, químicos e principalmente biológicos, este material também tem esta mesma característica. Tem um comportamento em seu tempo de vida e de eliminação, de total e completa reintegração ao ambiente.

E qual a importância desta informação?

Primeiro porque mostra que a humanidade, se quiser, pode gerar produtos que, mesmo que sejam originários de moléculas sintetizadas em laboratório, ainda podem ser ‘digeridos’, ‘metabolizados’ pela vida da Terra. E em segundo porque sendo assimiláveis pela natureza, podem ser até desperdiçados e lançados no ambiente (lixão ou não) que serão reintegrados nos ciclos da vida sem perturbação.

Mas será que alguém está a par que mesmo assim ainda existe a possibilidade de que, nesta embalagem, ao ser levada para o mercado ser mesclada em sua formulação final, um aditivo artificial que compromete sua digestão pelos organismos terrestres? E ocorrer o mesmo que os produtos artificiais que não conseguem ser assimilados pela vida planetária? Pois, isso existe. É quando agregam como um ‘avanço’, uma camada com a molécula de PVdC (policloreto vinildieno, ou seja, da mesma família do problemático PVC). E sabem para quê? Simplesmente para usar o atributo das resinas plásticas de se colarem quando aquecidas, dando condições de serem seladas, o que não acontece com o celofane. Como ele não é um composto plástico e sim um polímero natural, as seladoras não conseguem fazer isso, dai ter sido o celofane envernizado com esta molécula clorada.

Este emprego foi largamente utilizado desde 1953. Nos EUA leva o nome comum de ‘Saran Wrap’, mas a partir de 2004 foi substituído pelo polietileno de baixa densidade (PEBD ou LDPE em inglês) devido a preocupações ambientais já que o PVdC contem cloro.

E aqui está a chave da questão quanto a todas as embalagens de filmes utilizados em alimentos no Brasil e em outros países – contém cloro!

E é por isso que destacamos no início do texto a importância dos consumidores saberem disso. Principalmente dos produtos que se arvoram ser ecológicos, naturais ou orgânicos, quanto ao material que embalam os alimentos.

Assim, pode houver o ressurgimento do uso privilegiado do celofane original, sem aditivos, se os consumidores se posicionarem. Há urgência em se trocar do que está hoje disponível no mercado, a resina plástica que imita o celofane original, o que será um grande passo a frente quanto a embalagens.

Revisitando as razões do por que atualmente no chamado ‘papel celofane’ houve a mudança em sua matéria prima, de natural para sintética, está provavelmente um interesse puramente comercial da indústria petroquímica. Deve ter sido somente baseada em vantagens industriais. Na época era, sem dúvida, inimaginável aquilo que estamos vivendo, tanto em termos ambientais como de saúde pública, pela invasão global de todos os tipos de resinas plásticas.

No entanto não é a indústria, no final da cadeia de consumo, o grande dispersor das embalagens no meio ambiente. Passou o ser o consumidor. E é via os alimentos sejam sólidos ou líquidos, a grande fonte da contribuição na disseminação desta tragédia global. Se examinarmos nos supermercados, veremos que quase a totalidade destas embalagens poderá, imediatamente, ser substituída por celofane original, feita de celulose sem nenhum tipo de aditivos. Atualmente todas, absolutamente todas, as embalagens são feitas de plástico. E pior, a maioria de PVC que, como o PVdC, também é constituída por cloro (até 57% de seu peso), elemento extremamente problemático por sua relação estreita e determinante com as dioxinas e furanos (materiais que formavam a arma química do Vietnam, o Agente Laranja).

Assim as indústrias, por disporem de toda a cadeia de produção em suas mãos, já que detinham o poder sobre o petróleo, abundante, barato e não questionado quanto aos seus efeitos que hoje conhecemos e sofremos, as imensas transnacionais petroquímicas, simplesmente, trocaram as matérias primas de todas as embalagens para suas moléculas sintetizadas e patenteadas. E como consequência, a cadeia de comercialização de alimentos passou, através dos grandes atacados e varejos, a utilizar aquilo que a indústria lhe fornecia. E como não houve e não há, nenhuma contestação, e a ausência de uma ação do consumidor é absoluta bem como das organizações que lidam com a produção, distribuição e venda de produtos alimentícios, incluindo os orgânicos, tudo fica como está!

Outro aspecto que também nos interessa é sabermos como tudo isso se deu e vem se dando desde o final do século XIX e definido no século XX. Praticamente todos os produtos que originalmente eram de matérias primas naturais, foram oriundas das ex-colônias europeias, hoje chamadas ‘terceiro mundo’ ou de países ‘em desenvolvimento’. Com a ‘libertação’ destas colônias, as matérias primas foram sendo trocadas por moléculas artificiais originárias do petróleo, que passam a imitar suas qualidades e seus atributos. Vale frisar que o mundo vem financiando, desde esta época, todas as experimentações e pesquisas para este tipo de enganação: a da busca de imitar as matérias primas naturais e ausentes dos países colonizadores.

Temos, atualmente, que reconhecer, pelos produtos resultantes, que às vezes a imitação é feita com perfeição e, inquestionavelmente, em muitas ocasiões até com melhores resultados de mercado. Assim não tendo quem as defendesse, as matérias primas naturais e originais foram todas descartadas como a celulose do papel celofane. E mais trágico é os países que têm estas matérias primas em seus próprios territórios, sendo, portanto, seus guardiões, terem feito esta troca que as empresas transnacionais impuseram ao mundo, sem pestanejar.

Historicamente quem inventou esta molécula do celofane foi um químico e engenheiro suíço chamado Jacques E. Brandenberger, em 1908. Tudo teria se originado porque desde o início do século ele pretendia desenvolver um material que cobrisse as toalhas e assim impedissem de serem manchadas com gotas de vinho por exemplo, como foi o caso que o levou a esta busca. Depois de alguns procedimentos químicos, finalmente chegou a um polímero de glicose, este filme, que pode ser colocado sobre a toalha e assim impede que seja manchada. Ele patenteou não só este material como o processo como se manufaturava o filme.

Em 1917 cede sua patente para a firma francesa La Cellophane Societé Anonyme, quando se junta a ela.

Nos Estados Unidos a indústria de guloseimas Whitman’s passa a importar o filme da França para embrulhar seus produtos, como chocolates e balas. Em 1924 a empresa química e grande precursora de produtos sintéticos, a norte-americana DuPont começa a manufaturar e vender o celofane o que favoreceu de que o produto fosse amplamente disseminado na América do Norte. Isso aconteceu porque um ano antes, as empresas norte-americana e francesa haviam firmado um acordo onde a DuPont recebia licença para acessar os processos secretos da indústria francesa bem como comercializar exclusivamente nas Américas do Norte e Central enquanto à francesa, no resto do mundo. Além desse esquartejar do comércio global, o ganho da cessão de sua patente, dava à empresa da França acesso integral a todos os possíveis avanços que por um acaso a norte-americana conseguisse nos processos de fabricação e desenvolvimento do celofane. E foi o que realmente aconteceu. Em 1927, é patenteado o processo que um pesquisador da DuPont desenvolveu em que tornava o celofane à prova de umidade. Ou seja, a partir deste avanço, este material poderia servir para embalar produtos como alimentos úmidos.

A trajetória do celofane foi ampla até o final dos anos trinta quando as moléculas originárias da petroquímica começam a tomar conta de todas as fontes naturais de matérias primas, substituindo-as praticamente todas. Só não teve completo sucesso quando o produto artificial não conseguia pelo menos se igualar, à qualidade do natural.

Nos dias atuais seu uso é meio na penumbra, em alguns produtos. A empresa que mantém sua patente é inglesa, Innovia Films Group, e está sediada em Wigton. Mas seu declínio vem sendo inexorável. E de tal forma que um produto descoberto pela ICI, na Inglaterra, em 1966, o BOPP (biaxially oriented polypropylene) vem ocupado seus derradeiros espaços no mercado, inclusive nesta mesma indústria. É um material sintético, a resina plástica polipropileno, e já vemos nos espaços de mercado muitos produtos ‘orgânicos’ sendo embalados com este material.

No entanto, como nos EUA a palavra celofane ficou como uma expressão genérica, quaisquer produtos passaram a ser considerados como ‘papel celofane’ se imitarem os atributos originais de transparência e utilização para embalagem. Mesmo que a matéria prima seja resina plástica. E é assim que estamos no Brasil.

Porém para os interessados, há uma maneira de se reconhecer se um produto é de origem natural ou petroquímica. Todos eles, do ‘papel celofane’ ao poliéster, acrílico, lã, poliamida, algodão e outros. Basta pegar um pedacinho e queimá-lo. Mas, cuidado! Não toque antes de saber se é natural ou sintético. Se sintético e tocar no material imediatamente após a queima, a queimadura será terrível, já que o fica é uma bolinha indestrutível. Diferente acontece se for natural, logo vira cinza!

Para este reconhecimento abaixo colocamos duas fotos que mostram este processo de queima de dois ‘papéis celofane’, um natural e outro artificial.

 

Produto final feito de celulose. Folha de Celofane original. Ao queimar, vira cinza

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Produto final feito com resina plástica. Folha Imitação Celofane. Ao queimar, enruga e ao final vica uma bolinha indestrutível!

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(Fonte: http://www.nossofuturoroubado.com.br/)

IPCC reforça influência do homem no aquecimento global

Por Fabiano Ávila

Versão final do relatório sobre as bases científicas das mudanças climáticas destaca que é praticamente certo que a emissão de gases do efeito estufa proveniente das atividades humanas é a principal causa da elevação das temperaturas

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“O aquecimento global é inequívoco, a influência humana tem sido sua causa dominante desde a metade do século XX, e as concentrações de gases do efeito estufa, já em níveis nunca vistos nos últimos 800 mil anos, vão persistir por muitos séculos.”

É assim que começa o comunicado das Nações Unidas sobre a publicação da versão final do“Mudanças Climáticas 2013: As bases físicas científicas”, apresentado nesta quinta-feira (30). O conteúdo principal do relatório já havia sido divulgado em setembro do ano passado, mas agora a íntegra do documento está disponível online.

Produzido pelo Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC), entidade vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2007, o relatório contou com 259 autores de 39 países e recebeu mais de 54 mil comentários de outros pesquisadores.

O documento afirma que é extremamente provável que mais da metade do aumento das temperaturas médias na superfície global entre 1951 a 2010 tenha sido causada pela maior concentração de gases do efeito estufa na atmosfera resultante das atividades humanas.

“A influência humana foi detectada no aquecimento da atmosfera e do oceano, em mudanças no ciclo da água, na redução de neve e gelo, no aumento do nível dos oceanos e em transformações nos extremos climáticos”, destaca o relatório.

Os cientistas apontam que é provável que o planeta se aqueça pelo menos 1,5°C até o fim deste século, sendo que a elevação de temperaturas desde a Revolução Industrial até hoje teria sido de 0,8°C. Eles também alertam que, na maioria dos cenários, é provável que o aquecimento global ultrapasse os 2°C, resultando em eventos climáticos extremos mais intensos e frequentes.

É considerado altamente provável que nos próximos 100 anos o nível dos oceanos suba entre 26 cm a 82 cm, causando impactos para cerca de  70% das regiões costeiras do planeta. A elevação entre 1900 e 2012 foi de 19 cm.

A crescente acidificação também é um problema que tende a se agravar, sendo que, desde o início da Era Industrial, o pH da superfície dos oceanos subiu 0,1, com um aumento de 26% na concentração de íons de hidrogênio.

A acidificação é a principal responsável pelo processo de “branqueamento” dos recifes de coral. Sem os corais, todo o ecossistema marinho está em perigo.

Segundo o IPCC, nas últimas duas décadas, a Groelândia e a Antártica perderam massa de gelo, e praticamente todas as geleiras do planeta passaram pelo mesmo processo.

A taxa de derretimento nas geleiras teria sido entre 91 a 361 gigatoneladas ao ano no período entre 1971 a 2009.

Na Groenlândia, é muito provável que a perda de gelo tenha acelerado recentemente, passando de 34 gigatoneladas ao ano entre 1992 a 2001 para 215 gigatoneladas anuais entre 2002 e 2011.

A versão final do relatório consiste de um sumário para legisladores, descrições técnicas divididas em 14 capítulos e seis anexos, incluindo um atlas global e projeções climáticas regionais.

“Com mais de 1.500 páginas e 600 diagramas, o relatório do Grupo de Trabalho I (GT I) fornece uma ampla base científica para as mudanças climáticas, citando mais de nove mil publicações científicas”, explica Thomas Stocker, co-presidente do GT I.

O IPCC é dividido em três Grupos de Trabalho (GTs) e uma Força-Tarefa. O GT I é responsável pela “Base Científica da Mudança Climática”, o II lida com “Impactos da Mudança Climática, Adaptação e Vulnerabilidade” e o III está a cargo de explicar a “Mitigação da Mudança Climática”. A Força-Tarefa busca melhorar as metodologias para o cálculo e divulgação das emissões nacionais de gases do efeito estufa.

A previsão é de que o GT II apresentará seu relatório em março de 2014, e o GT III, em abril.

O grande documento síntese de todos esses trabalhos será a Quinta Avaliação do IPCC (IPCC Fifth Assessment Report – AR5), que deve ser divulgada durante a Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas no final deste ano em Lima, no Peru (COP 20).

(Fonte: http://www.institutocarbonobrasil.org.br/)

As commodities ambientais e a financeirização da natureza

Entrevista especial com Amyra El Khalili

“A financeirização da natureza é a ação de tornar financeiro aquilo que é eminentemente econômico. Isso porque a melhora da qualidade de vida também é uma questão econômica”, propõe a economista.

De acordo com o Ministério da Agricultura, durante o ano de 2013 o agronegócio brasileiro atingiu a cifra recorde de 99,9 bilhões de dólares em exportações. Soja, milho, cana ou carne ganham os mercados externos na forma de commodities: padronizadas, certificadas e atendendo a determinados critérios e valores regulados internacionalmente.

Para a economista Amyra El Khalili, no entanto, as monoculturas extensivas não deveriam ser a única alternativa de produção brasileira. A movimentação econômica envolvendo as commodities tradicionais exclui do processo os pequenos e médios produtores, extrativistas, ribeirinhos e as populações tradicionais. Sem grandes incentivos governamentais, sem investimento para atingir os elevados padrões de qualidade nacionais e internacionais ou capacidade produtiva para atingir os mercados, estes permanecem sempre à margem do sistema.

Foi com base no raciocínio da inclusão que a economista de origem palestina criou o conceito de commodity ambiental. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ela aborda a polêmica dos créditos de carbono (uma “comoditização da poluição”), questiona o fornecimento de créditos por Redução de Emissões por Desmatamento (Redd) para o agronegócio e descreve o conceito inicial criado por ela. “Uma commodity tradicional é a matéria-prima extraída do ecossistema, que é manufaturada, padronizada por um critério internacional de exportação adotado entre transnacionais e governos”. Por outro lado, a commodity ambiental “também terá critérios de padronização, mas adotando valores socioambientais e um modelo econômico totalmente diferente”.

Khalili, que durante mais de 20 anos atuou como operadora de ouro no mercado financeiro, relata que o termocommodity é usado como uma provocação. O conceito está em permanente construção, mas atualmente representa o produto manufaturado pela comunidade de forma artesanal, integrada com o ecossistema e que não promove impacto ambiental. A commodity convencional privilegia a monocultura, a transgenia e a biologia sintética, com seus lucros concentrados nos grandes proprietários. A ambiental é pautada pela diversificação de produção, pela produção agroecológica e integrada, e privilegia o associativismo e o cooperativismo.

Amyra-el-Kalyli

Amyra-el-Kalyli

Amyra El Khalili é economista graduada pela Faculdade de Economia, Finanças e Administração de São Paulo. Atuou nos Mercados Futuros e de Capitais como operadora da bolsa, com uma carteira de clientes que ia do Banco Central do Brasil à Bombril S/A e ao Grupo Vicunha. Abandonou o mercado financeiro para investir seu tempo e energia no ativismo. É idealizadora do projeto da Bolsa Brasileira de Commodities Ambientais, fundadora doMovimento Mulheres pela P@Z e editora da Aliança RECOs (Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras).Khalili ministra cursos de extensão e MBA em diversas universidades, por meio de parcerias entre a rede, entidades locais e centros de pesquisa. É autora do e-book gratuito Commodities Ambientais em missão de paz – novo modelo econômico para a América Latina e o Caribe (São Paulo: Nova Consciência, 2009).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Existe diferença entre comoditização da natureza e financeirização da natureza? Quais?

Amyra El Khalili – Existe, mas uma acaba interferindo na outra. A comoditização da natureza é transformar o bem comum em mercadoria. Ou seja, a água, que na linguagem jurídica é chamada de bem difuso, deixa de ser bem de uso público para ser privatizada, para se tornar mercadoria. A financeirização é diferente, é a ação de tornar financeiro aquilo que é eminentemente econômico.

Isso porque a melhora da qualidade de vida também é uma questão econômica. Uma região onde as pessoas conseguem conviver com a natureza e tem acesso à água limpa, por exemplo, oferece um custo financeiro melhor, onde você vive melhor e gasta menos. Isso também tem fundamento econômico.

IHU On-Line – No caso da financeirização da natureza, o que se encaixaria nessa descrição?

Amyra El Khalili - A nossa obrigação de pagar por serviços que a natureza nos faz de graça e que nunca foram contabilizados na economia, como sequestrar o carbono da natureza, por exemplo. As árvores sequestram o carbono naturalmente, mas para ter qualidade de ar daqui para frente é preciso pagar para respirar. Nessa lógica, aquele que respira precisa pagar pelo preço daquele que poluiu, enquanto este deixa de ser criminalizado e recebe flexibilidade para não ser multado.

IHU On-Line – Você foi a criadora do conceito de commodities ambientais, que é bem diferente da comoditização da natureza. Qual era a sua proposta inicial para o termo?

Amyra El Khalili – Uma commodity tradicional é a matéria-prima extraída do ecossistema, que é manufaturada, padronizada por um critério internacional de exportação adotado entre transnacionais e governos. Os pequenos e médios produtores, os extrativistas e ribeirinhos, entre outros, não participam dessas decisões. O ouro, minério, não é uma commodity enquanto está na terra, é um bem comum. Ele torna-se uma quando é transformado em barras, registrado em bancos, devidamente certificado com padrão de qualidade avaliado e adequado a normas de comercialização internacional.

commodity ambiental também terá critérios de padronização, mas adotando valores socioambientais e um modelo econômico totalmente diferente. O conceito está em construção e debate permanente, mas hoje chegamos à seguinte conclusão: a commodity ambiental é o produto manufaturado pela comunidade de forma artesanal, integrada com o ecossistema e que não promove o impacto ambiental como ocorre na produção de commodities convencionais.

A convencional (soja, milho, café, etc.) é produzida com monocultura e a ambiental exige a diversificação da produção, respeitando os ciclos da natureza de acordo com as características de cada bioma. A convencional caminha para transgenia, para biologia sintética e geoengenharia; a outra caminha para a agroecologia, permacultura, agricultura alternativa e de subsistência, estimulando e valorizando as formas tradicionais de produção que herdamos de nossos antepassados. A convencional tende a concentrar o lucro nos grandes produtores, já a ambiental o divide em um modelo associativista e cooperativistas para atender a maior parte da população que foi excluída do outro modelo de produção e financiamento.

Brasil concentra sua política agropecuária em cinco produtos da pauta de exportação (soja, cana, boi, pinus e eucaliptos). A comoditização convencional promove o desmatamento, que elimina a biodiversidade com a abertura das novas fronteiras agrícolas. Nós somos produtores de grãos, mas não existe apenas essa forma de geração de emprego e renda no campo. Quantas plantas nós temos no Brasil? Pense na capacidade da riqueza da nossa biodiversidade e o que nós poderíamos produzir com a diversificação. Doces, frutas, sucos, polpas, bolos, plantas medicinais, chás, condimentos, temperos, licores, bebidas, farinhas, cascas reprocessadas e vários produtos oriundos de pesquisas gastronômicas. Sem falar em artesanato, reaproveitamento de resíduos e reciclagem. O meio ambiente não é entrave para produzir, muito pelo contrário.

IHU On-Line – Como é possível transformar em commodity algo produzido de forma artesanal?

Amyra El Khalili – O termo é justamente uma provocação. Na commodity ambiental utilizamos critérios de padronização reavaliando os critérios adotados nas commodities tradicionais. Por isso cunhei o termo para explicar a“descomoditização”. No entanto, diferentemente das convencionais, os critérios de padronização podem ser discutidos, necessitam de intervenções de quem produz e podem ser modificados. Nas commodities ambientais, o excluído deve estar no topo deste triângulo, pois os povos das florestas, as minorias, as comunidades que manejam os ecossistemas é que devem decidir sobre esses contratos, critérios e gestão destes recursos, uma vez que a maior parte dos territórios lhes pertence por herança tradicional.

Com objetivo de estimular a organização social, cito um exemplo de comercialização associativista e cooperativista bem-sucedida. É o caso dos produtores de flores de Holambra (SP). Além de produzirem com controle e gestão adequados às suas necessidades, a força da produção coletiva e o padrão de qualidade fizeram com que o seu produto ganhasse espaço e reconhecimento nacional.

Hoje você vê flores de Holambra até na novela da Globo. Essa produção, porém, ainda está no padrão de commodities convencional, pois envolve o uso de agrotóxicos. Mesmo assim conseguiu adotar outro critério para decidir sobre a padronização, comercialização e precificação, libertando-se do sistema de monocultura. A produção de flores é diversificada, o que faz com que o preço se mantenha acima do custo de produção, auferindo uma margem de lucro para seus produtores.

Inspirados no exemplo de comercialização da Cooperativa Agrícola de Holambra com o sistema de Leilão de Flores (Veiling), desenvolvemos um projeto de comercialização das commodities ambientais, além de novos critérios integrados e participativos de padronização com associativismo. No entanto, o governo também precisa incentivar mais esse tipo de produção alternativa e comunitária. A Anvisa, por exemplo, exige normas de vigilância sanitária e padrões de industrialização que tornam inacessível para as mulheres de Campos dos Goytacazes colocarem suas goiabadas nos supermercados brasileiros (para além de sua cidade). Quem consegue chegar aos supermercados para vender um doce? Só a Nestlé, só as grandes empresas.

E o questionamento que está sendo feito é justamente esse. Abrir espaço para que pessoas como as produtoras de doces saiam da margem do sistema econômico. Que elas também possam colocar o seu doce na prateleira e este concorra com um doce industrializado, com um preço que seja compatível com sua capacidade de produção. Não é industrializar o doce de goiaba, mas manter um padrão artesanal de tradição da goiabada cascão. Se nós não tivermos critérios fitossanitários para trazer para dentro essa produção que é feita à margem do sistema, elas vão ser sempre espoliadas e não terão poder de decisão. O que se pretende é que se crie um mercado alternativo e que esse mercado tenha as mesmas condições, e que possam, sobretudo, decidir sobre como, quando e o que produzir.

IHU On-Line – O termo commodities ambientais é por vezes utilizado de maneira distorcida, como que fazendo referência às commodities tradicionais, mas aplicada a assuntos ambientais, como os créditos de carbono. De que modo foi feita essa apropriação?

Amyra El Khalili – Ele foi apropriado indevidamente pelos negociantes do mercado de carbono. Eles buscavam um termo diferente da expressão “créditos de carbono”, uma palavra que já denuncia um erro operacional. Afinal, se você quer reduzir a emissão, por que creditar permissões para emitir? Contadores, administradores de empresa e pessoas da área financeira não entendiam como se reduz emitindo um crédito que entra no balanço financeiro como ativo e não como passivo.

Como o nome créditos de carbono não estava caindo na graça de gente que entende do mercado, eles pegaram a expressão commodities ambientais para tentar justificar créditos de carbono. Porque na verdade estavam comoditizando a poluição e financeirizando-a. É o que consideramos prática de assédio conceitual sub-reptício: quando se apropriam das ideias alheias, esvaziam-nas em seu conteúdo original e preenchem-nas com conteúdo espúrio. É importante salientar que esse “modus operandi” está ocorrendo também com outras iniciativas e temas como a questão de gênero e étnicas. Bandeiras tão duramente conquistadas por anos de trabalho e que nos são tão caras.

IHU On-Line – Os defensores da Redução Certificada de Emissão promovida pelos Créditos de Carbono afirmam que apesar desse recurso oferecer aos países industrializados uma permissão para poluir, o governo estabelece um limite para estas transações. Você concorda com tal afirmação?

Amyra El Khalili – Esse controle tanto não é feito de maneira adequada, que desde 2012 há uma polêmica no parlamento europeu de grupos que exigem que a Comunidade Europeia retenha 900 milhões de permissões de emissão autorizadas após o mercado ter sido inundado por estas permissões (cap and trade). São permissões auferidas pelos órgãos governamentais que foram vendidas quando a cotação dos créditos de carbono estava em alta e agora caíram para quase zero.

Então na teoria pode ser muito bonito, mas entre a teoria e a prática há uma distância oceânica. Há também o seguinte: ainda que você tenha o controle regional, a partir do momento que um título desses vai ao mercado financeiro e pode ser trocado entre países e estados em um sistema globalizado, quem controla um sistema desses? Se internamente, com os nossos títulos, às vezes ocorrem fraudes e perda de controle tanto com a emissão quanto com as garantias, como se vai controlar algo que está migrando de um canto para outro? É praticamente impossível controlar volumes vultosos de um mercado intangível e de difícil mensuração.

IHU On-Line – A China e a Califórnia planejam utilizar os arrozais como fonte para créditos de carbono, o que levou a uma reação da comunidade ambiental com o movimento No-Redd Rice. Em que consiste o movimento e por que ele é contrário a este acordo?

Amyra El Khalili – O REDD, a Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, é a compra de um título em créditos de carbono sobre uma área de floresta que deve ser preservada. Trata-se de mais um exemplo de financeirização da natureza, pois vincula a comunidade local a um contrato financeiro em que ela fica impedida de manejar a área por muitos anos, enquanto a outra parte do contrato continua produzindo e emitindo poluição do outro lado do mundo.

No caso do arroz com REDD, acontece o seguinte: com o entendimento de que uma floresta sequestra carbono, e que é possível emitir créditos de carbono sobre uma área preservada de floresta, o argumento é que a plantação também sequestra. O transgênico inclusive sequestra mais carbono do que a agricultura convencional, porque a transgenia promove o crescimento mais rápido da planta e acelera o ciclo do carbono. Então qualquer coisa que você plantar na monocultura intensiva, como a cana ou a soja, vai sequestrar carbono também. E, por isso, o agronegócio deseja emitir créditos de carbono também para a agricultura. Podemos dizer que não sequestra? Não, realmente sequestra, mas e quanto aos impactos ambientais?

O movimento internacional contra REDD com Arroz está se posicionando porque isso pressionará toda produção agropecuária mundial, colocando os médios e pequenos produtores, populações tradicionais, populações indígenas novamente reféns das transnacionais e dos impactos socioambientais que esse modelo econômico excludente está causando, além de afetar diretamente o direito à soberania alimentar dos povos, vinculando o modelo de produção à biotecnologia e com novos experimentos bio-geo-químicos.

IHU On-Line – O problema é que, se o crédito de carbono foi criado com o objetivo de diminuir os impactos ambientais, não se pode colocar sob uma monocultura que gera impactos da mesma forma a possibilidade de solução do problema, correto?

Amyra El Khalili – Exatamente. Outra coisa importante é que, mesmo com o conceito commodity ambiental estando em construção coletiva e permanentemente em discussão, hoje nós temos a certeza do que não é uma commodity ambiental. Elas não são transgênicas, nem podem ser produzidas com derivados da biotecnologia — como biologia sintética e geoengenharia. Não são monocultura, não podem se concentrar em grandes produtores, não causam doenças pelo uso de minerais cancerígenos (amianto), não usam produtos químicos, nem envolvem a poluição ou fatores que possam criar problemas de saúde pública, pois estes elementos geram enormes impactos ambientais e socioeconômicos.

A produção agrícola, como é feita hoje, incentiva o produtor a mudar sua produção conforme o valor pago pelo mercado. Então se a demanda for de goiaba, só se planta goiaba. Nas commodities ambientais, não. Não é o mercado, mas o ecossistema que tem o poder de determinar os limites da produção. Com a diversificação da produção, quando não é temporada de goiaba é a de caqui, se não for caqui na próxima safra tem pequi e na seguinte melancia. Se começarmos a interferir no ecossistema para manter a mesma monocultura durante os 365 dias do ano, vamos gerar um impacto gravíssimo.

IHU On-Line – O que é a água virtual e como esse conceito se encaixa na discussão de commodities?

Amyra El Khalili – A água virtual é a quantidade de água necessária para a produção das commodities que enviamos para exportação. No Oriente Médio, ou em outros países em crise de abastecimento, como não há água para a produção agrícola extensa a alternativa é importar alimento de outros países. Quando se está importando alimento, também se importa a água que este país investiu e que o outro deixou de gastar.

O que se defende na nossa linha de raciocínio é que, quando exportamos commodities tradicionais (soja, milho, boi, etc.), se pague esta água também. No entanto, não é paga nem a água, nem a energia ou o solo gasto para a produção daquela monocultura extensiva. A comoditização convencional, no modelo que temos no Brasil há 513 anos, é altamente consumidora de energia, de solo, de água e biodiversidade, e esse custo não está agregado ao preço dacommodity. O produtor não recebe este valor, pois vende a soja pelo preço formado na Bolsa de Chicago. Quem compra commodity quer pagar barato, sempre vai pressionar para que este preço seja baixo.

Ainda sobre a água, se é na escassez dos recursos que estes passam a ser valorizados como mercadoria, quais as perspectivas de uma crise mundial no abastecimento hídrico?

Amyra El Khalili – Eu considero a questão hídrica a mais grave e mais emergencial no mundo. Sem água não há vida, ela é essencial para a sobrevivência do ser humano e de todos os seres vivos. A falta de água é morte imediata em qualquer circunstância. No Brasil não estamos livres do problema da água. Muita dessa água está sendo contaminada com despejo de efluentes, agrotóxicos, químicos e com a eminência da exploração de gás de xisto, por exemplo, onde a técnica usada para fraturar a rocha pode contaminar as águas subterrâneas.

Os pesquisadores e a mídia dão ênfase muito grande para as mudanças climáticas, que é a consequência, sem aprofundar a discussão sobre as causas. Dão destaque para o mercado de carbono como “a solução”, sem dar prioridade para a causa que é o binômio água e energia. O modelo energético adotado no mundo colabora para esses desequilíbrios climáticos, se não for o maior responsável entre todos os fatores. Nós somos totalmente dependentes de energia fóssil, e no Brasil temos um duplo uso da água: para produzir energia (hidrelétricas) e para produção agropecuária e industrial, além do consumo humano e de demais seres vivos.

E por que é necessário produzir tanta energia? Porque nosso padrão de consumo é altamente consumidor. Seguimos barrando rios e fazendo hidrelétricas, e quando barramos rios, matamos todo o ecossistema que é dependente do ciclo hidrológico. Caso o binômio água e energia seja resolvido, também será resolvido o problema da emissão de carbono. Quando se resolve a questão hídrica, recompomos as florestas, as matas ciliares, a biodiversidade. O fluxo de oxigênio no ambiente e a própria natureza trabalhará para reduzir a emissão de carbono. Se não atacarmos as causas ficaremos circulando em torno das consequências, sem encontrarmos uma solução real e eficiente para as presentes e futuras gerações. (Por Andriolli Costa)

Foto: Clarinha Glock – IPS

(Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/)

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O relógio da Terra mostra-nos alguns dos impactos causados pelo Homem na Terra. As estatísticas nele apresentadas, que estão a ser actualizadas ao vivo, podem ser verificadas nos sites seguintes:


População mundial: US Census Bureau
Taxa de crescimento populacional: CIA World Factbook
População prisional: UK Homeoffice
Divórcios (apenas para os Estados Unidos): Wikipédia
Imigração ilegal nos Estados Unidos: Wikipédia
Abortos: Wikipédia
Mulheres que morrem durante procedimentos abortivos incorrectos: Organização Mundial de Saúde
Taxa de infecções por HIV: Avert
Taxa de incidência de cancro: UICC
Temperatura média da Terra: Wikipédia
Extinções de espécies: National Wildlife Federation
Produção de petróleo: CIA World Factbook
Produção de carros: Mation Master
Produção de bicicletas: Earth Policy
Produção de computadores: Top Secret
Estatísticas de mortalidade: Organização Mundial de Saúde