Ela viveu 738 dias em cima de uma árvore para impedir que a cortassem

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É um dos maiores exemplos de desobediência civil pacífica, e por isso mesmo inspiradora, que já vimos: Julia Butterfly Hill é uma ativista ambiental que, na década de 90, passou 738 dias em cima de uma árvore, sem tocar com um pé no chão. Tudo para que não matassem a sequoia a que carinhosamente chamou de Luna, uma árvore milenar com 60 metros de altura.

A história é antiga, mas permanece inspiradora: o protesto de Julia Butterfly só terminou no dia em que conseguiu um documento legal, assinado pela madeireira que tinha Luna na lista de árvores a serem derrubadas, dizendo que nem ela e nem outra árvore a sua volta seriam cortadas.

Tudo aconteceu no bosque da cidade de Stafford, na Califórnia, Estados Unidos, e a jovem, na altura com 23 anos, teve de sofrer para ganhar a batalha. Julia comia graças à ajuda de uma pequena equipe e tinha pouco mais do que um fogareiro, uma bolsa hermética para fazer suas necessidades e uma esponja com a qual, com a água da chuva, se lavava.

Além disso, pequenos painéis solares permitiam que carregasse seu celular e se mantivesse em contato com o mundo, não só dando entrevistas para chamar a atenção da comunidade internacional, como para se manter a par das negociações. Isto tudo a 50 metros do chão, numa plataforma de cerca de 3 metros quadrados com uma lona impermeável, para a proteger da chuva.

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Julia sobreviveu aos invernos, a tempestades e ao desmatamento de uma parte do bosque – ela diz mesmo que, durante seis dias, algumas áreas do bosque foram queimadas e a fumaça tomou conta dos seus olhos e garganta. Conta ainda que foi montada guarda com o objetivo de impedir que recebesse comida.

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Em dezembro de 1999, já com 25 anos, ela finalmente desceu, deixando um legado incrível para o resto da humanidade.

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Hoje, Julia continua sendo uma das mais influentes ativistas ambientais do mundo, tendo publicado The Legacy of Luna (O Legado de Luna, que tem edição em inglês e espanhol) e que conta toda a história em detalhes.

O vídeo abaixo, em inglês, mostra parte dos primeiros dois meses de Julia e Luna.

“Todos temos mais poder do que imaginamos!”, diz Julia. A gente acredita.

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Por Eme Viegas

Imagem de topo  Eric Slomanson

(Fonte: http://www.hypeness.com.br)

 

 

HORÁRIOS DE COLETA

ANUNCIO

Biocombustível de esgoto

Unidade de tratamento de esgoto em Maryland, nos EUA .

Unidade de tratamento de esgoto em Maryland, nos EUA .

A tecnologia que utiliza microalgas para produzir biocombustíveis a partir de esgotos domésticos parece estar a ponto de invadir o mercado. De um modo geral, o uso de algas para produzir biocombustíveis não é competitivo em relação ao petróleo, mas a utilização de esgotos domésticos, cujo tratamento custa caro para as prefeituras, acaba reduzindo essa diferença. Pesquisadores do mundo todo estão aproveitando a vantagem competitiva desse modelo, inclusive cientistas da Nasa, a agência espacial americana, e de universidades da Coréia do Sul, da Nova Zelândia, de Barcelona, na Espanha, e de Minneapolis, nos EUA.

Nos últimos dias foi divulgado que o All-gas, um projeto científico/comercial de 12 milhões de euros, está conseguindo sucesso na reciclagem do esgoto municipal do balneário de Chiclana de la Frontera, no sul da Espanha. À primeira vista, ele não tem nada de revolucionário: após a remoção de alguns contaminantes, o efluente passa por um tratamento anaeróbico em que bactérias digerem a biomassa, emitindo gás, que pode ser reaproveitado. A inovação está na etapa seguinte. O efluente vai para piscinas onde algas continuarão o tratamento, acelerado pela insolação abundante da região. Após um período de maturação, as algas são retiradas dos tanques para a extração do óleo.

O projeto foi iniciado em 2011 e teve 60% dos seus recursos financiados pela União Europeia. Atualmente a usina tem apenas 200 metros quadrados, mas a meta é ampliar a área para 10 hectares até 2016. A meta da empresa é produzir 3 toneladas de algas secas por dia – o biocombustível representa 20% dessa massa. O restante pode ser reaproveitado de várias formas, inclusive a produção de metano. O objetivo é produzir o suficiente para abastecer diariamente uma frota de 200 veículos.

Várias iniciativas aparentadas comunicaram suas vitórias recentemente. Num dos casos mais vistosos, uma joint-venture entre a americana OriginOil e a franco-britânica Ennesys criou uma fazenda de algas no alto do complexo comercial de La Défense, a oeste de Paris, para provar que edifícios podem gerar mais energia do que consomem. Ele converte a ureia do esgoto em nitratos, de modo que o efluente é turbinado antes de ser dirigido ao tanque de criação de algas. Quando estas chegam ao ponto de colheita para produção do biocombustível, são submetidas a pulsos eletromagnéticos que concentram sua massa, reduzindo o consumo de energia associado à extração do excesso de água. Atualmente, o sistema é capaz de tratar 250 mil litros diários e a expectativa é ampliar tal volume no futuro. (Por Regina Scharf)

(Fonte: http://www.pagina22.com.br/index.php/category/blogs/de-la-pra-ca/)

 

De limão a limonada

Por José Eli da Veiga*

Enquanto o saneamento básico é um direito negado a metade da população brasileira, inovações mostram as vantagens econômicas, sociais e ambientais de aproveitar efluentes tratados para gerar energia

ANALISEÉ um dos pétreos direitos humanos ter acesso ao que se convencionou chamar de “saneamento básico”. Por isso, nada pode ser mais escandaloso e revoltante do que constatar que, em setembro de 2013, tal direito continua a ser negado à metade da população brasileira.

As principais vítimas são evidentemente as pessoas que morrem em razão da falta de redes coletoras de esgoto, em sua grande maioria meninos de 1 a 6 anos. Claro, também os natimortos e suas mães, pois contato com esgoto aberto aumenta drasticamente o risco de que a gravidez não culmine em bebê vivo. E ainda existe um imensurável número de outras vítimas invisíveis, pois mesmo os que conseguem sobreviver a infecções parasitárias na infância podem ter a inteligência seriamente impactada.

Como o cérebro é o órgão do corpo humano que mais consome energia – 87% no recém-nascido, 44% aos 5 anos, 34% aos 10 –, as infecções parasitárias desviam energia para ativar o sistema imunológico. Repetidas diarreias infantis roubam do cérebro as calorias necessárias a seu desenvolvimento, podendo comprometer a inteligência por toda a vida, adverte o doutor Drauzio Varella.

Será que teria sido necessário saber mais do que isso para que o saneamento tivesse total prioridade em qualquer dos últimos governos? Infelizmente parece que não, pois é catastrófico o passo de tartaruga com que vem ocorrendo a expansão das redes coletoras de esgoto. Inclusive nos tão festejados dez anos petistas, durante os quais supostamente tudo estaria sendo feito para melhorar as condições de vida do sub proletariado. Em vez disso, com o ritmo atual arrisca-se entrar no século XXII sem que seja universalizado no Brasil o acesso a tão básico direito humano.

É imprescindível, portanto, que esse tema esteja no centro dos debates eleitorais de 2014. Para que no próximo mandato, tanto a Presidência da República quanto a maioria dos parlamentares fiquem inteiramente comprometidas, ou se sintam constrangidas, a maximizar a expansão das redes coletoras com suas respectivas estações de tratamento.

Se argumentos baseados em direitos humanos, saúde e qualidade ambiental não forem suficientes para que muitos dos candidatos sejam convencidos de que essa questão deve ocupar o topo da pauta, talvez seja necessário, então, informá-los sobre seus imensos benefícios econômicos, quase todos muito bem esmiuçados, desde 2010, no sexto relatório da série de estudos que a FGV realizou para o Instituto Trata Brasil.

Mas também é preciso ressaltar uma inovação que em poucos anos deverá abrir outra imensa janela de oportunidades: aproveitamento de efluentes tratados para a geração sustentável de energia: principalmente biocombustíveis, mas também bioeletricidade.

Microalgas são campeãs em transformar dióxido de carbono em oxigênio, o que permite o desenvolvimento de bactérias que degradam matéria orgânica em sistema que pode simultaneamente purificar a água e evitar emissões de gases estufa. Em seguida, as microalgas, assim como uma parte da matéria orgânica restante, podem ser conduzidas a digestores capazes de produzir biogás com muito metano e ainda dois subprodutos fertilizantes: composto e líquido.

Por enquanto são raros os projetos-piloto que conjugam saneamento e geração de energia pelo cultivo de microalgas. No Brasil só há experiências com vinhoto e outros resíduos agropecuários. Mas já podem ser citadas duas iniciativas francesas – o projeto Symbiose, da Naskeo Environnement, em Narbonne, e o projeto Compagnie du Vent, da GDF Suez, em Gruissan –, assim como uma espanhola, com o projeto tocado pela empresa All-Gas no município balneário de Chiclana de la Frontera, vizinho a Cádiz.

Os resultados de tão parcas experiências ainda não garantem a viabilidade econômica da tecnologia, mas tudo indica que em dez anos ela já será competitiva. Talvez até antes, caso venham a se intensificar os atuais movimentos de opinião pública contrários a agrocombustíveis de milho e de outros
gêneros alimentares básicos.

Então, além de colocar a universalização do saneamento básico no topo da agenda política do Brasil para as próximas décadas, também será imprescindível já vinculá-la a investimentos em pesquisa tecnológica direcionada à obtenção de biometano por cultivo de microalgas em estações de tratamento (mais no post “Biocombustível de esgoto).

Dar prioridade para essa dobradinha certamente será uma das propostas que em breve a Rede Sustentabilidade submeterá ao eleitorado, caso não venha a ser perversamente impedida de participar da disputa de 2014.

*José Eli da Veiga é Professor dos programas de Pós-Graduação do Instituto de Relações Internacionais da USP e do Instituto de Pesquisa Ecológicas (IPÊ) é autor de A desgovernança Mundial da Sustentabilidade (ED. 34: 2013)

(Fonte: http://www.pagina22.com.br)

 

Belo Monte Ocupado: Comunicado do povo Parakanã

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Nós cansamos de esperar. O povo Parakanã, da terra indígena Apyterewa, estado do Pará, comunica o governo federal e a Norte Energia que cansamos de esperar vocês resolverem o problema da nossa terra. Apyterewa está invadida por fazendeiros, grileiros, garimpeiros, madeireiros e colonos que durante muito tempo estão destruindo nosso território tradicional, nos impedindo de caçar, de plantar, de cuidar dos nossos filhos e ameaçando o nosso povo.

Durante muito tempo, o governo disse que ia retirar os brancos invasores e devolver nosso território, para o nosso povo viver em paz. O governo quis construir Belo Monte e disse que ia resolver o problema da nossa terra antes de construir a barragem, e colocou como condicionante de licença. Nós acreditamos, mas o governo mentiu. Belo Monte está quase pronta, mas o nosso território tradicional continua invadido pelos brancos. Nós não acreditamos mais no governo, porque o governo não cumpre as suas próprias leis, não cumpre as condicionantes que ele mesmo colocou para a Norte Energia construir Belo Monte.

O governo não está preocupado com o nosso território, não está preocupado com os povos indígenas, não está preocupado com o nosso sofrimento, só está preocupado com Belo Monte. Os Juruna do Paquiçamba, os Arara da Volta Grande e os Arara da Cachoeira Seca estão também sofrendo sem o seu território, e estamos preocupados com os nosso parentes, mas o governo federal não se importa. Nossos direitos estão sendo desrespeitados, mas ninguém toma nenhuma providencia. Por isso, cansamos de esperar a boa vontade do governo federal e nosso povo, homens, velhos, mulheres e crianças, ocupamos o canteiro de obras de Belo Monte.

Ocupamos o canteiro porque essa obra só deveria estar acontecendo se a nossa terra já estivesse livre dos invasores e devolvida para o nosso povo. Porque essa era uma condicionante para construir Belo Monte. Então, se o nosso território ainda não foi resolvido pelo governo federal, Belo Monte tem que parar. E nós vamos parar Belo Monte até o governo federal resolver o problema da nossa terra. Não estamos aqui para pedir nada para a Norte Energia. A Norte Energia também mentiu muito, também está devendo muita coisa para o nosso povo, mas hoje não estamos aqui para conversar, nem nego ciar com a Norte Energia.

Exigimos conversar com representantes do governo federal, com o ministro da Secretaria Geral da Presidência da República, com a ministra da Casa Civil, com o ministro da justiça, com o presidente do Incra, com a presidente da Funai, e cobrar que vocês cumpram a obrigação de vocês e devolvam nosso território tradicional livre dos invasores. Queremos que vocês mandem a policia federal retirar os brancos que estão destruindo nossa terra. Mas, se em vez disso, vocês mandarem a policia para nos tirar do canteiro, nós vamos morrer aqui no canteiro de Belo Monte. Porque sem o nosso território, nós não temos vida.

Altamira, 12 de setembro de 2013.

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(Fonte: http://xingu-vivo.blogspot.com.br)

Cada gota conta quando a água escasseia

Por Stephen Leahy, da IPS

As secas chamuscaram algumas partes da zona seca do Sri Lanka e devastaram os cultivos. Foto: Photostock

As secas chamuscaram algumas partes da zona seca do Sri Lanka e devastaram os cultivos. Foto: Photostock

O esgoto pode ser uma solução diante das secas e da escassez crônica de água, que segundo vários especialistas terão um papel significativo, por exemplo, na instabilidade reinante em boa parte do Oriente Médio. A demanda por água já excede a oferta em regiões onde habitam mais de 40% da população mundial. A proporção de pessoas afetadas pode chegar a 60% na próxima década, segundo um estudo.

“As regiões onde escasseia a água não podem cultivar o suficiente para alimentar sua própria população”, apontou o coautor da pesquisa, Manzoor Qadir, do Instituto para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde, da Universidade das Nações Unidas, com sede no Canadá. Cerca de 70% da água doce do mundo – e até 95% em alguns países – é usada para irrigação. Há intensa competição por este recurso entre seus usos municipal, industrial e agrícola. Cada vez mais a agricultura sai perdendo, particularmente em regiões com escassez, afirmou Qadir à IPS. Entre 2006 e 2011, até 60% da terra na Síria experimentou a pior seca de sua história, bem como uma série de perdas de cultivos.

Em 2009, a Organização das Nações Unidas (ONU) informou que mais de 800 mil sírios perderam seus meios de sustento e fugiram para as cidades em consequência da falta de água. Toda a região do Mediterrâneo atravessa uma prolongada seca vinculada à mudança climática, segundo estudo do Escritório Nacional de Administração Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos. Se as emissões de carbono, que alteram o clima, continuarem no ritmo atual, a situação vai piorar e se prolongar na região.

Com a queda no fornecimento hídrico, muitas regiões usam esgoto urbano, um recurso muito valioso se tratado adequadamente, afirma o estudo Global, Regional, and Country Level Need for Data on Wastewater Generation, Treatment, and Use (Necessidade de Dados Sobre Geração, Tratamento e Uso de Águas Residuais nos Níveis Mundial, Regional e Nacional), publicado no dia 5 na revista Agricultural Water Management. Trata-se do primeiro estudo com foco em como é usado o esgoto em 181 países. Uma das principais conclusões é que apenas 55 nações possuem bons dados.

Sintetizando a informação disponível, pesquisadores descobriram que os países de alta renda tratam 70% de seu esgoto, enquanto os de renda média tratam entre 28% e 38%. Apenas 8% do esgoto gerado em países de baixa renda recebe algum tipo de tratamento. “Desde tempos mais remotos, a maior parte do esgoto foi realmente desprezada. Porém, este é um vasto recurso se for tratado adequadamente, o que inclui separar o esgoto municipal e o das indústrias”, afirmou o diretor do Instituto para a Água, o Meio Ambiente e a Saúde, Zafar Adeel.

O volume de esgoto potencialmente disponível a cada ano em todo o mundo equivale ao caudal que flui do rio Mississippi para o Golfo do México no período de 14 meses, destacou Adeel à IPS. Em países pobres com escassez hídrica, o esgoto é usado amplamente para irrigar terras agrícolas. Alguns estimam que em 300 milhões de hectares produzem 10% dos alimentos do mundo, segundo o estudo. Porém, há poucos dados para confirmar isto. Muitos países têm um “segredo sujo”: boa parte dos alimentos consumidos em áreas urbanas é cultivada com água de esgoto sem tratamento.

Essas águas são valiosas porque têm um elevado nível de nutrientes, incluindo potássio, nitrogênio e fósforo, o que elimina a necessidade e o custo dos fertilizantes. Entretanto, o esgoto não tratado pode transmitir doenças como o cólera. O Chile registrou focos dessa doença e proibiu o uso de esgoto não tratado em 1992. Focos de doenças gerados a partir desse tipo de líquido “ocorrem, mas raramente isto é citado como a causa” do problema, advertiu Qadir.

Um motivo é que são feitos poucos estudos. Há poucos anos, Qadir e seus colegas descobriram maiores proporções de enfermidades originadas da má qualidade da água, como gastroenterite em crianças do Mediterrâneo que comiam alimentos cultivados com esgoto não tratado. Na década de 1990, as exportações de frutas e verduras da Jordânia estiveram proibidas por motivos semelhantes. Desde então, esse país implantou uma campanha agressiva para reabilitar e melhorar as estações de tratamento de esgoto e introduziu padrões.

“Israel emprega quase cada gota de seus esgotos com fins específicos determinados pela qualidade”, indicou Qadir. Muitas casas no Estado da Califórnia, nos Estados Unidos, têm sistemas separados de águas negras e águas cinzas. Estas últimas, derivadas do chuveiro e da lavagem da louça da cozinha, são reutilizadas para regar gramados e jardins, segundo o informe. As pessoas costumam ser reticentes a comerem alimentos cultivados com o uso de esgoto, mas é perfeitamente seguro se for tratado adequadamente, enfatizou Qadir. “Infelizmente, muitos países não consideram que o tratamento da água seja uma prioridade”, acrescentou.

(Fonte: http://envolverde.com.br/ips)

O envenenamento das abelhas

Por Inês Castilho, com a colaboração de Taís González

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Em sua recente participação no III Encontro Internacional de Agroecologia, em Botucatu (SP), a cientista indiana Vandana Shiva lembrou a tragédia que a levou a estudar o impacto da indústria química na agricultura: o vazamento de 42 toneladas de um gás letal na fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bophal, na Índia, em 1984, causando a morte de três mil pessoas e sequelas permanentes em mais de 100 mil. O presidente da empresa norte-americana, Warren Anderson, teria fugido do país em avião do governo, dias depois, abandonando na fábrica toneladas de produtos químicos perigosos, entre eles DDT – que estão lá até hoje.

A origem da tragédia, lembra Vandana, está na chamada Revolução Verde, imposta pelos Estados Unidos em sua área de influência geopolítica nos anos 1960 para ampliar o mercado de produtos agrícolas e agroquímicos – fabricados a partir de armas químicas usadas na Guerra do Vietnã. O resultado desse modelo, o agronegócio, é conhecido: 65% da biodiversidade e da água doce do planeta contaminadas por agrotóxicos – caldo de cultura para a morte súbita e desaparecimento das abelhas melíferas, fenômeno batizado em 2006 de Colony Collapse Disorder (CCD), ou Desordem de Colapso da Colônia.

Prestadoras de inestimáveis serviços ambientais, as abelhas respondem pela polinização de 71 dos 100 tipos de colheita que alimentam e vestem a humanidade, segundo relatório da ONU de 2010. Às abelhas devemos, além do mel, do própolis e da cera – os aspargos, o óleo de canola e o de girassol, as fibras têxteis do linho e algodão e culturas utilizadas para forragem na produção de carne e leite, como a alfafa. A videira depende em parte do trabalho das abelhas e, com ela, a produção de vinhos. Em um mundo sem abelhas seriam impensáveis os cítricos, o abacate, o agrião… Em particular, a produção de maçãs, morangos, tomates e amêndoas.

Parece assustador – e é mesmo. A cultura de amêndoas, totalmente dependente da polinização das abelhas, é exemplo da dimensão do desastre: são hoje necessárias 60% das colmeias remanescentes nos Estados Unidos para polinizar as plantações do estado da Califórnia, responsáveis pela produção de mais de 80% das amêndoas no mundo. Nos últimos seis anos, a CCD dizimou cerca de 10 milhões de colmeias do país. A taxa de mortalidade das colônias é de 30% ao ano: das 6 milhões de abelhas existentes em 1947, restam hoje não mais que 2,5 milhões.

Desastre global. O declínio da população de abelhas foi notado em 2006, nos EUA. Quando a Europa acordou para o problema, em 2007, a CCD já atingia Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal. Ouviam-se notícias sobre o desastre no Canadá, Austrália, Brasil, e até mesmo o desaparecimento de 10 milhões de abelhas em Taiwan. “Sim, é um fenômeno global”, confirma Carlo Polidori, pesquisador do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madri, na Espanha, onde as perdas chegam a 90%, em algumas regiões. As últimas notícias são de julho, na província canadense de Ontário, onde se perderam 37 milhões de insetos.

No Chile, onde até o ano passado a versão oficial era de que não havia evidências da existência da CCD, apicultores da região de BioBio registraram, em maio, a perda de milhões de abelhas. Como no Brasil, as chamadas externalidades negativas do modelo de exportação agroindustrial atingem em cheio o pequeno criador.

A abandonada fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bophal, na Índia

A abandonada fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bophal, na Índia

No Brasil. Registros sobre mortalidade súbita de abelhas encontram-se no país desde 2007 – no Piauí, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo. Todos ligados à exposição de pesticidas nas cercanias de áreas de monocultura – de tabaco, soja, cana, milho, laranja. “Os laranjais, que já foram importante fonte de néctar para a produção de mel, são hoje perigosos, dada a quantidade de agrotóxicos usada para combater doenças como o greening”, afirma o geneticista David De Jong, doutor pela Universidade de Cornell (EUA) e professor da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto (SP).

Em Santa Catarina, em 2011, morreram por causas desconhecidas um terço das 300 mil colmeias existentes no estado. “Quem sente mais são as 30 mil famílias que dependem da produção de mel. Sua perda foi estimada em 6 mil toneladas”, afirma o presidente da Federação dos Apicultores e Meliponicultores do Estado, Nésio Fernandes de Medeiros. Na região de Dourados (MS), desapareceram no início deste ano cerca de 3,5 milhões de abelhas, produtoras de uma tonelada anual de mel. “Há forte suspeita de que foi provocada pela aplicação de um inseticida da classe dos neonicotinoides em um canavial”, considera Osmar Malaspina, professor da Unesp de Rio Claro (SP).

Não surpreende, assim, que nos últimos dois anos o Brasil tenha caído da 5a para a 10a posição no ranking mundial de exportadores de mel. “Menosprezamos o serviço ecológico que as abelhas nos prestam”, observa Afonso Inácio Orth, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Já em 2011 se verificava a falta de abelhas para polinizar maçãs naquele estado. O mesmo ocorre com o pepino, o melão e a melancia. Por polinização insuficiente, além de nascerem frutos com formato e sabor alterados, tem havido perda de produção de laranja, algodão, soja, abacate, café. “Através de experiências controladas verificamos que, onde colocamos mais abelhas, aumenta a produção. Na cultura de maracujá estão tendo de polinizar com a mão, por falta de abelhas”, informa De Jong.

Causas. As causas propostas são diversas: inseticidas e fungicidas, déficit nutricional associado à carência de flora natural, mudanças climáticas, manejo intensivo das colmeias, baixa variabilidade genética, vírus, fungos, bactérias e ácaros – juntas ou separadamente. Até a emissão eletromagnética de celulares já foi investigada, sem resultados conclusivos. Mas o principal fator do desastre, concordam estudiosos, é a classe de agroquímicos denominada neonicotinoides: clotidianidina e imidacloprida, fabricados pela Bayer, e tiametoxan, da Syngenta – neurotoxinas que atingem o sistema nervoso dos insetos, prejudicando olfato e memória.

“Os pesticidas são causa de perdas importantes, com certeza”, afirma David De Jong.“Temos situações de toxicidade aguda, em que as abelhas morrem de uma vez, logo após a aplicação do agrotóxico. Mas há outras em que doses subletais podem fazê-las perder o rumo e não voltar ao ninho. Doses baixas de inseticidas também enfraquecem o sistema imunológico da abelha. O fato é que, com os novos inseticidas do grupo dos neonicotinoides, estamos definitivamente perdendo muitas abelhas Apis mellifera e espécies de abelhas nativas”, adverte o pesquisador.

A avaliação confirma pesquisa realizada na Universidade de Stirling, no Reino Unido, pela equipe do professor David Goulson. O estudo comprova que os neonicotinoides, associados a parasitas e à destruição de habitats ricos em flores que servem de alimento às abelhas, são as principais razões para a perda das colônias. “Abelhas mal nutridas parecem ser mais suscetíveis a patógenos, parasitas e outros estressores, inclusive toxinas”, confirma o relatório de 2012 do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA). De fato, boa nutrição é essencial para as abelhas: o avanço das monoculturas tem para elas um efeito devastador.

O presidente da Confederação Brasileira de Apicultores (CBA) e da câmara setorial do mel em Brasília, José Cunha, revela que “esses agrotóxicos são sistêmicos. A planta se desenvolve e o produto tóxico vai para seiva, pólen, néctar, permanecendo no solo durante anos. Mesmo na rotação de culturas continua presente, atingindo o lençol freático. Os polinizadores estão pagando um preço muito alto, é um passivo ambiental incalculável”. Para Suso Asorey, secretário da Associação de Apicultores Galegos (AGA), “a colocação no mercado destes pesticidas neurotóxicos sistêmicos coincide com perdas de até 40% das colmeias.”

Estudo da Universidade de Maryland e do USDA chega a resultados ainda mais graves. Ao contaminar o pólen, misturas de pesticidas e fungicidas, algumas de até 21 tipos, levam as abelhas a perder a resistência ao parasita Nosema ceranae, relacionado à CCD. “A questão é mais complexa do que fomos levados a crer”, afirma Dennis van Engelsdorp, responsável pela pesquisa. “O fato de não ser um só produto significa que a solução não está em proibir apenas um tipo de agroquímico, mas que é necessário rever as práticas de pulverização agrícola”, diz ele. O Greenpeace lançou em abril o relatório Bees in Declive, no qual afirma ser crucial eliminar o uso dos agroquímicos que afetam as abelhas.

No Chile, os apicultores relacionam a mortandade dos insetos à aplicação de inseticidas já proibidos em outros países, mas que lá continuam legais – e também ao uso, como alimento das abelhas, de frutose e vitaminizadores feitos com milho transgênico.

Proibição. O que dizer do Brasil, campeão mundial no consumo de agrotóxicos, com mais de um milhão de toneladas anuais – sem contar o que é contrabandeado? Sob forte pressão do agronegócio e da indústria química, o Ibama e o Ministério da Agricultura (Mapa) proibiram o uso de agrotóxicos contendo fipronil (um pirazol) e três neonicotinoides, imidacloprido, clotianidina e tiametoxam, apenas durante o período de floração das culturas.

E só depois da interdição do uso dos neonicotinoides na Itália, França, Alemanha e Eslovênia, e de muito hesitar, é que a Comissão Europeia resolveu não ceder ao lobby da indústria e, também em abril, restringir o uso desses agroquímicos por dois anos, em todo o continente. A guerra pela salvação das abelhas está, portanto, bem longe de terminar.

Sociedade de abelhas. Existem cerca de 20 mil espécies de abelhas, entre elas as melíferas, das quais cerca de 15% são insetos sociais, com forte sentido coletivo, que vivem em colônias em torno da rainha. Há as guardiãs do ninho, as que se especializam em cuidar dos ovos e filhotes, e os que se encarregam de trazer alimentos – néctar e pólen – para a produção de mel.

Cada indivíduo é um prodígio da engenharia biológica: está equipado com sensores de temperatura, dióxido de carbono e oxigênio. Seu corpo, carregado de eletricidade estática, atrai grãos de pólen que elas levam de uma flor a outra, fertilizando-as. O fenômeno tem dimensões extraordinárias, quando examinamos o trabalho coletivo. Em um único dia, uma colmeia pode fertilizar milhões de flores, numa área correspondente a 700 hectares, equivalente a 350 campos de futebol.

Amor incondicional. Mel, pólen, própolis, geleia real são produtos do trabalho da abelha melífera que nos servem de alimento e medicina. O veneno, embora possa ser mortal, é também curativo. Na Coréia do Sul, por exemplo, os insetos são colocados diretamente no corpo, nos pontos de acupuntura, em tratamentos para artrite, reumatismo e esclerose múltipla.

Para o xamanismo, cada espécie tem um espírito grupal, e esses espíritos animais integram a consciência coletiva de todas espécies, inclusive a nossa. A abelhas possuem um sofisticado sistema de comunicação, e sua vida é inteiramente identificada com o coletivo. Seriam guias da humanidade na comunicação, organização e fortalecimento das comunidades. Para o espiritismo, são exemplo de desapego e amor incondicional. Um blog espírita português propõe fazer “um zumbido global gigante” para banir os agrotóxicos da Europa, assinando uma petição.

“As abelhas são seres cuja energia primordial é o amor e, por isso, completamente isentas de medo. Tudo o que produzem é fruto dessa energia … O mel é algo que poderíamos chamar de ‘amor líquido’ e seu uso pelos seres humanos deveria ser feito em profunda reverência”, afirmam os adeptos da Comunidade Figueira, do líder espiritual Trigueirinho, em Minas Gerais.

Habitantes da Terra há mais de 60 milhões de anos, as abelhas são um dos sistemas mais importantes de suporte à vida, e revelam a íntima interdependência entre os reinos animal, vegetal e humano. Citação atribuída a Einstein que circula na internet sugere que, se elas desaparecessem hoje do planeta, a humanidade só sobreviveria por mais quatro anos. Não por acaso, sua morte é conhecida nos EUA como Armagedon das abelhas.

(Fonte: http://outraspalavras.net)

Qual é o habitat do ser humano?

Artigo de Reinaldo Canto

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Habitat é o local ideal para que uma espécie, seja ela animal ou planta, possa se desenvolver, se alimentar e procriar. Pesquisadores já identificaram os habitats de inúmeras espécies. Sabemos, por exemplo, quais são os melhores lugares para que o elefante, a onça, o tamanduá-bandeira e o esquilo possam viver. Identificamos os biomas naturais e os seres vivos que os habitam. Até mesmo fomos capazes de considerar algumas espécies como exóticas, quando elas passam a ocupar e interagir de maneira pouco saudável com as espécies chamadas nativas dessa região. E nós, humanos, quais são os nossos ambientes, nem diria naturais, mas ideais para podermos viver com qualidade?

Ao longo da nossa história, as cidades e comunidades humanas foram sendo formadas levando em conta as questões ambientais existentes no local. Bom exemplo é o da água, vital para a sobrevivência. Nós humanos íamos ao seu encontro e instalávamos nossas moradias próximas às fontes do líquido precioso. Não é à toa que todas as grandes civilizações do passado se desenvolveram em torno dos grandes rios e muitas continuam lá até hoje.

O crescimento desordenado plenamente acompanhado da evolução tecnológica capacitou o homem, em sua megalomania, a vencer, domar a natureza criando espaços artificiais que aterraram e desviaram rios, asfaltaram a terra e eliminaram os outros seres vivos que, de alguma forma, bloqueassem esse caminho chamado de progresso, até mesmo outros seres humanos (indígenas e povos tradicionais, só para citar alguns).

Claro que muita coisa boa foi criada, mas junto com interessantes inovações vieram também a total falta de bom senso em relação a uma análise criteriosa sobre os benefícios e malefícios envolvidos com essas transformações. Perguntas básicas deixaram de ser feitas, como as que envolvem, o quanto determinada obra impacta a vida de todos e interfere nas fundamentais leis naturais a que todos nós estamos subordinados. As cidades, assim como elas foram concebidas, representam a melhor e mais saudável maneira de se viver?

Uma perversa consonância entre ganância, ignorância e ausência de planejamento foram os principais responsáveis pelo atual caos generalizado dos grandes aglomerados urbanos, notadamente nos países mais pobres e em desenvolvimento. Sem que isso signifique que o tal mundo desenvolvido tenha equacionado tais problemas, mas ao menos foram capazes de trabalhar em parte com maior seriedade.

Um novo cenário. Tal estado de coisas ao menos foi capaz de fazer surgir um movimento povoado de boas intenções conhecidos por vários formatos como ecovilas, cidades e comunidades sustentáveis, movimentos de moradias alternativos e também as chamadas construções sustentáveis.

Na semana passada, São Paulo foi palco do Greenbuilding Brasil que em sua quarta edição mostra um mercado em crescente expansão. Só para ter ideia, esse mercado de construções sustentáveis partiu de um patamar de 3% do PIB geral da construção civil brasileira em 2010, para 9% em 2012. O registro de empreendimentos que buscam obter a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), principal certificadora do gênero no Brasil, partiu de 1 projeto em 2004 para 219 pedidos em 2012. O Brasil já registra um total de 109 edificações devidamente certificadas como sustentáveis e ocupa a 4ª posição no mundo nesse cenário atrás de EUA, China e Emirados Árabes.

Ainda é pouco, principalmente se levarmos em conta o boom do mercado imobiliário nos últimos anos, mas demonstra uma crescente preocupação com os impactos causados pelo setor. Um estudo realizado pela Universidade de Oxford (Inglaterra), feito a pedido da OIT (Organização Internacional do Trabalho), constatou ser o setor da construção civil responsável por 40% das emissões dos gases de efeito estufa do planeta. Além disso, os custos maiores de uma obra sustentável que podem atingir de 1 a 3%, pouco mais do que uma construção convencional, serão plenamente compensados se analisarmos que ao longo da vida útil de um edifício, 80% dos custos envolvem gastos com manutenção. Portanto, redução nos consumos de energia, água e o uso de materiais locais e menos agressivos ao meio ambiente que já contribuem positivamente para a sustentabilidade, também irá aliviar o desembolso mensal daqueles que optarem por essas obras mais sustentáveis.

Políticas públicas. Mas é verdade também que mais do que o crescimento das construções sustentáveis – ou novas ecovilas – e mesmo o desenvolvimento de núcleos de moradias autossuficientes será preciso um envolvimento mais sério dos nossos gestores públicos responsáveis pela elaboração de macro políticas urbanistas. Será preciso uma nova visão que pense as atuais cidades e as futuras aglomerações urbanas de modo a priorizar uma maior integração com o meio ambiente e o uso racional de todos os recursos disponíveis. Prioridade também para o bem viver de todos, mais próximo de uma imagem do paraíso, ao invés do inferno atual das metrópoles. Mais harmonia no dia a dia e menos estresses cotidianos que empobrecem as nossas rotinas e prejudicam a saúde física e psicológica de tantas pessoas.

E, antes de mais nada, possam fazer a simples e óbvia pergunta que ainda não foi respondida no início dessa missiva e que de certa maneira também não foi feita ao longo de toda a nossa história, afinal, qual é mesmo o habitat do ser humano? Quem se habilita?

(Fonte: http://mercadoetico.terra.com.br)

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O relógio da Terra mostra-nos alguns dos impactos causados pelo Homem na Terra. As estatísticas nele apresentadas, que estão a ser actualizadas ao vivo, podem ser verificadas nos sites seguintes:


População mundial: US Census Bureau
Taxa de crescimento populacional: CIA World Factbook
População prisional: UK Homeoffice
Divórcios (apenas para os Estados Unidos): Wikipédia
Imigração ilegal nos Estados Unidos: Wikipédia
Abortos: Wikipédia
Mulheres que morrem durante procedimentos abortivos incorrectos: Organização Mundial de Saúde
Taxa de infecções por HIV: Avert
Taxa de incidência de cancro: UICC
Temperatura média da Terra: Wikipédia
Extinções de espécies: National Wildlife Federation
Produção de petróleo: CIA World Factbook
Produção de carros: Mation Master
Produção de bicicletas: Earth Policy
Produção de computadores: Top Secret
Estatísticas de mortalidade: Organização Mundial de Saúde