A incrível energia do som

Foto de Steve Jurvetson/Flickr

Foto de Steve Jurvetson/Flickr

Nenhuma fonte de energia – nem o petróleo, nem as marés, nem os ventos, e nem mesmo a energia solar – é tão onipresente quanto o som. Humanos são capazes de fazer muito barulho mesmo numa madrugada gelada, no meio do deserto. E agora, pela primeira vez, cientistas e empresas estão conseguindo explorar essa energia.

Na semana passada, pesquisadores da Queen Mary’s University, de Londres, e da Microsoft anunciaram ter utilizado a nanotecnologia num protótipo capaz de carregar celulares com a energia da vibração gerada pelo barulho ambiente. O equipamento, do tamanho de um celular convencional, utiliza nanotubos de óxido de zinco que geram eletricidade ao serem distendidos ou comprimidos pelo som de conversas, música ou do trânsito.

Os cientistas pulverizaram uma placa de plástico com os nanotubos e aqueceram a superfície a 90 graus Celsius, o que permitiu que a substância se multiplicasse, cobrindo a placa. No vídeo ao lado (em inglês), Steve Dunn, professor de Nanomateriais da Escola de Engenharia e Ciência dos Materiais da Queen Mary’s University, dá uma visão sobre o projeto, como essa tecnologia poderia ganhar escala nos próximos anos e o seu potencial de substituição das baterias. Dunn cogita, por exemplo, a instalação de painéis publicitários interativos e autônomos em trens, capazes de aproveitar o alto nível de decibéis desse meio de transporte.

O esforço de gerar eletricidade acústica é relativamente recente. Em 2011, cientistas coreanos já haviam demonstrado essa possibilidade, mas eles conseguiram gerar apenas uma tensão elétrica ínfima, 50 milivolts. A pesquisa divulgada na semana passada viabilizou a expansão da geração a 5 volts, o suficiente para carregar um celular.

Antes disso, em 1999, Scott Backhaus e Greg Swift, do maior laboratório de pesquisas nucleares dos Estados Unidos, o Los Alamos National Laboratory, demonstraram a viabilidade de um motor termoacústico, concebido a partir dos escritos de um engenheiro escocês do século XIX, Robert Stirling, que ficaram adormecidos durante cem anos. As pesquisas desenvolvidas em Los Alamos, por sua vez, inspiraram cientistas da University of Nottingham, na Inglaterra, que criaram um sistema que usa um fogão doméstico comum para aquecer ar comprimido contido no interior de um cano. Com isso, ele passa a vibrar, produzindo ondas sonoras altíssimas, de mais de 170 decibéis (comparáveis às de um foguete decolando). Entretanto, do lado de fora do sistema, o som é abafado. As ondas sonoras vibram um diafragma no outro extremo do cano, que movimenta uma mola, que gera a corrente elétrica.  O equipamento, que permite gerar eletricidade e refrigeração, está sendo testado no Nepal e Bangladesh.

Qual o real potencial dessas tecnologias? Apartentemente, os investimentos em geração sonora ainda são baixos e não viabilizaram sua utilização em escala. Mas é tentador sonhar com as possibilidades de exploração de  um recurso tão abundante, gratuito, renovável e onipresente.(Por Regina Scharf)

(Fonte: http://www.pagina22.com.br/)

Gases de efeito de estufa registram recorde de quase 20 anos, diz OMM

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Concentração de dióxido de carbono na atmosfera atingiu 396  partículas por milhão no ano passado; efeito do aquecimento sobre o clima subiu 34% entre 2012 e 2013.

OMM

O ano passado registrou um novo recorde da quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera, informou esta terça-feira a Organização Meteorológica Mundial, OMM.

A agência da ONU explica que o resultado deveu-se ao aumento nos níveis de dióxido de carbono, CO2. Em 2013, a concentração global do gás carbônico na atmosfera atingiu 396 partículas por milhão.

Aumento Constante 

A subida observada entre 2012 e 2013 foi maior do que qualquer outro ano desde 1984. De acordo com dados preliminares, a razão da subida teria sido a redução da absorção de CO2 pela biosfera terrestre, além do aumento constante nas emissões do gás carbônico.

A agência explica que os dados do boletim referem-se às concentrações atmosféricas, que representam o que permanece no espaço após complexas interações entre a atmosfera, a biosfera e os oceanos. Cerca de um quarto das emissões totais é absorvida pelos oceanos e o outro quarto pela biosfera, o que reduz a quantidade de CO2 atmosférico.

A agência explica, entretanto, que a publicação não fornece dados sobre as emissões de gases poluentes, que representam a quantidade que sobe para a atmosfera.

A informação consta do Boletim de Gases de Efeito de Estufa, emitido anualmente pela OMM. A publicação realça a urgência quanto à necessidade de uma ação internacional coordenada contra a aceleração e as potencialmente arrasadoras mudanças climáticas.

Aquecimento

Entre 1990 e 2013, o efeito do aquecimento sobre o clima, conhecido por perturbação radioativa, subiu 34%. Por detrás do fenômeno estiveram os gases de efeito estufa de vida longa como o dióxido de carbono, o metano e óxido nitroso.

A OMM toma como referência o ano de 1750, a era pré-industrial, ao comparar os níveis dos três elementos na atmosfera. No ano passado, a concentração de CO2 foi de 142% em relação a esse período, enquanto o metano registrou 253% e o óxido nitroso 121%.

Acidificação de Oceanos 

A OMM alerta também que a atual taxa de acidificação dos oceanos não tem precedentes, pelo menos ao longo dos últimos 300 milhões anos. Diariamente, os oceanos absorvem cerca de 4 kg de CO2 por pessoa.

O secretário-geral da agência, Michel Jarraud, disse que o boletim fornece informação para para a tomada de decisões. Ele aponta que as provas da atmosfera e dos oceanos sublinham a necessidade de uma ação política urgente.

Cimeira

O responsável diz haver conhecimento e instrumentos de ação à disposição com vista a tentar manter o aumento da temperatura a 2º C, para que o planeta e as próximas gerações possam ter um futuro.

Neste 23 de setembro, líderes políticos reúnem-se em Nova Iorque numa Cimeira do Clima convocada pelo secretário-geral das Nações Unidas.

Na segunda-feira, Ban Ki-moon manifestou a expectativa de que a reunião seja marcada por negociações para acontecer o aumento da temperatura abaixo dos 2º C .

(Fonte: http://www.ecodebate.com.br/)

Degradação florestal no Brasil preocupa especialistas

Por Elton Alisson

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O Brasil avançou muito nos últimos 25 anos no monitoramento do desmatamento da Floresta Amazônica por meio de ações como a implementação do Programa de Cálculo do Deflorestamento da Amazônia (Prodes), em 1988, e do Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), em 2004 – ambos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Agora, precisa olhar com mais atenção para outro problema ambiental tão grave quanto o desmatamento: a degradação florestal, que afeta não só a Amazônia, mas também outros biomas brasileiros.

A avaliação foi feita por um grupo de pesquisadores de instituições como Inpe, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), Nasa (a agência espacial dos Estados Unidos), Instituto Max Planck (na Alemanha) e Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) durante o Workshop on Monitoring Forest Dynamics: carbon stocks, greenhouse gas fluxes and biodiversity, realizado entre os dias 2 e 4 de setembro na Universidade de Brasília (UnB).

“Precisamos interpretar os dados do desmatamento na Amazônia, mas também olhar para outros processos da dinâmica florestal como a degradação florestal, que também tem impactos nas funções ecológicas, no armazenamento de carbono e na conservação da biodiversidade”, disse Mercedes Bustamante, professora do Departamento de Ecologia da UnB e organizadora do evento.

De acordo com os participantes do encontro, a degradação florestal difere do desmatamento, que se caracteriza pelo corte raso de árvores e responsável pela alteração significativa da paisagem da Amazônia brasileira, quando parcelas da floresta são convertidas em áreas de pastagem.

Já a degradação é definida pela perda da capacidade da floresta de realizar suas funções originais, como contribuir para o balanço climático, hídrico e de carbono, em razão do corte seletivo de árvores de interesse comercial e de queimadas intencionais, entre outros fatores.

“A degradação fica em uma posição intermediária entre a floresta intacta e a que foi transformada em área de pastagem. É uma floresta que ainda não foi desmatada completamente”, resumiu Michael Keller, cientista do US Forest Service dos Estados Unidos e pesquisador visitante da Embrapa Monitoramento por Satélite.

“Uma floresta degradada já não possui o mesmo estoque de carbono e a biodiversidade que tinha antes de ser afetada, mas, se for feito um manejo bem feito no prazo de 20 a 30 anos, ela pode se regenerar e até mesmo se aproximar de suas características originais”, explicou.

Outra diferença significativa entre os dois processos, segundo os pesquisadores, é que o desmatamento é mais evidente e inequívoco e pode ser observado mais facilmente pelos satélites usados no monitoramento ambiental.

A degradação, por sua vez, é mais sutil. Trata-se de um processo de longo prazo e deve ser acompanhada continuamente para que suas causas sejam identificadas.

“É preciso o acompanhamento de longo prazo não só das mudanças na cobertura da floresta, mas dos processos que causam essas alterações ambientais”, disse Bustamante.

“Sem isso, não é possível estimar qual será a trajetória das florestas degradadas e comparar com informações de estudos em campo para avaliar se vão se regenerar, se ganharão ou perderão carbono ou se podem evoluir para o desmatamento”, disse.

Degradação da Amazônia

No fim de agosto, o Inpe divulgou pela primeira vez o mapeamento de áreas de degradação florestal na Amazônia Legal nos anos de 2011, 2012 e 2013, feito pelo projeto Mapeamento da Degradação Florestal na Amazônia Brasileira (Degrad).

O objetivo da iniciativa é identificar, por meio de imagens de satélite, as áreas expostas à degradação florestal progressiva pela exploração seletiva de madeira, com ou sem uso de fogo, mas que ainda não sofreram o corte raso.

Os dados do levantamento apontam que a taxa de degradação na região nesses três anos foi a menor registrada desde o início da série histórica do projeto, em 2007, e acompanha a tendência de queda de desmatamento por corte raso na floresta verificada pelo Prodes após 2005.

“É preciso investir em um sistema de monitoramento em escala nacional que abranja e leve em conta as particularidades dos diferentes biomas brasileiros que também possuem tanta relevância na regulação do clima, conservação da biodiversidade e diversas funções ecossistêmicas como a Amazônia”, afirmou Bustamante.

É mais fácil monitorar e identificar a degradação da Amazônia em comparação com outros biomas brasileiros, porque ela tem uma vegetação mais fechada e, por isso, as clareiras provocadas por derrubada de árvores, por exemplo, podem ser notadas mais facilmente.

Já o Cerrado tem vegetação mais aberta, com maior sazonalidade de árvores, arbustos e gramíneas, dificultando a identificação das áreas degradadas.

“A grande ênfase no monitoramento de degradação florestal no Brasil tem sido na Amazônia, mas a Embrapa está desenvolvendo, em parceria com o Inpe e a Universidade Federal de Goiás, um sistema de classificação das terras do Cerrado”, contou Keller.

O Serviço Florestal Brasileiro (SFN) está avançando no desenvolvimento do Inventário Florestal Nacional do Brasil (IFN-BR), contou Joberto Freitas, pesquisador da instituição, durante palestra no evento.

A ideia é que os dados do inventário sejam integrados com os de sensoriamento remoto para monitorar a degradação florestal nos diferentes biomas.

“Muitos países, como os Estados Unidos, utilizam sistemas de monitoramento integrado como esse que o Brasil pretende desenvolver e esse é o caminho que o país deve seguir”, avaliou Keller.

“O monitoramento da degradação utilizando dados integrados funciona muito melhor do que quando apenas baseado em dados de satélite ou só por meio de inventários de florestas”, afirmou.

REDD+

Além do controle florestal, o monitoramento da degradação é importante para o Brasil e outros países em desenvolvimento definirem estratégias de promoção de aumento de cobertura vegetal e pedirem compensações financeiras por isso, como previsto pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

O organismo internacional ligado ao IPCC instituiu um mecanismo, denominado REDD+ ou REDD plus, que permite a remuneração de países em desenvolvimento por seus resultados no combate ao desmatamento e à degradação florestal.

A questão é que ainda não se sabe de que forma os países poderão comprovar o controle da degradação florestal, uma vez que não há uma linha de base para distinguir as suas causas – que podem ter origem em uma perturbação natural, como um período de seca intensa, ou na ação humana.

Além disso, não há uma definição clara de degradação florestal entre os próprios países signatários da UNFCCC .

“Do ponto de vista de alguns cientistas e países, a degradação é a perda no longo prazo da capacidade da floresta de continuar exercendo suas funções”, disse Thelma Krug, pesquisadora do Inpe e vice-presidente de uma força-tarefa do IPCC sobre inventários nacionais de gases de efeito estufa.

“Por outro lado, há cientistas e países que dizem que, se a função da floresta for recuperada plenamente, isso não seria degradação”, ponderou.

Segundo Krug, não há intenção de definir o conceito nas negociações climáticas internacionais para não dificultar o processo. “Se um determinado país não se vir refletido na definição de degradação ou de desmatamento em uma negociação, não é possível obter consenso.”

*O repórter viajou a convite da Universidade de Brasília (UnB)

(Fonte: http://agencia.fapesp.br/)

CONVITE

Convite Gerco

Governo, catadores e prefeitos vão atualizar a lei de resíduos sólidos

USINA

Representantes do governo federal, Ministério Público, dos municípios e dos catadores de material reciclável decidiram formar um grupo de trabalho para negociar junto ao Congresso Nacional com o objetivo de aprimorar a lei que estabeleceu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). A reunião, promovida pelo Conselho Nacional de Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União, foi realizada na sexta-feira, 22 de agosto, em Porto Alegre.

“A ideia de construir esse diálogo não nasce de agora. É uma ideia que resulta da Conferencia Nacional de Meio Ambiente, a maior conferencia já realizada nesse país. Na conferência entendemos que não devemos adiar prazos, devemos buscar novos caminhos para o diálogo envolvendo o Congresso Nacional e buscar novas soluções para as pendências que estão postas na mesa”, destacou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que representou o governo federal no encontro, ao lado do ministro de Relações Institucionais Ricardo Berzoini, e do Advogado-Geral da União, Luís Inácio Adams.

Na oportunidade, a ministra fez um balanço da atual situação do país com relação aos resíduos sólidos e mostrou que a PNRS trouxe muito avanços, mas ainda há muito que melhorar. Ressaltou a importância de observar e respeitar as peculiaridades de cada município. “Não acredito sinceramente que apenas uma emenda ou uma medida provisória resolva o problema, mas processar mais de 2 mil prefeitos também não é a solução”, observou. “Temos que entender as diversidades do país, situação de municípios de fronteira, municípios do Nordeste com IDH muito baixo.”

Cooperativa

No município de Montenegro, vizinho a Porto Alegre, a ministra conheceu a usina de compostagem e biogás Ecocitrus. Formada inicialmente por uma cooperativa de agricultores familiares, hoje conta com mais de cem associados e possui um vasto campo de atuação. Além da produção de cítricos e derivados totalmente livre de agroquímicos, a empresa também fabrica adubo orgânico, biofertilizante líquido e se destaca na produção de biogás.

Presta, também, serviços de destinação, tratamento e biodigestão de resíduos agroindustriais para as empresas da região. “Além de trazer uma alternativa ambientalmente adequada para resíduos industriais, tem como resultado produtos de excelente qualidade”, acrescentou Izabella. ”Gera mais rendas para os associados e tudo isso com tecnologia exclusivamente nacional. É um projeto super vencedor e que deveria mais do que nunca ser compartilhado com o restante do país”.

A cooperativa encontrou uma solução socialmente inclusiva e economicamente eficiente para a produção de energia renovável. Desde maio de 2013, após um período de testes de qualidade e de implantação, o biogás vem sendo utilizado no abastecimento dos veículos dos agricultores cooperados e da frota da Sulgás, parceira do empreendimento. “Estamos utilizando um subproduto da indústria para produzir gás. Ou seja, transformando um problema em energia”, explicou o presidente da cooperativa Fábio José Esswein.

Produzido por meio da valorização de substratos orgânicos, o biometano é capaz de atingir as especificações do gás natural e de substituí-lo em suas aplicações, além de desempenhar um papel importante tanto pela possibilidade de redução da dependência energética e por sua geração distribuída, quanto pela redução significativa de emissões de gases de efeito estufa.

(Fonte: http://www.doeseulixo.org.br/)

Catadores integram Conselho do Meio Ambiente

MNCR

O Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) conta, a partir deste mês, com a participação de representantes do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). A inclusão é fruto da IV Conferencia Nacional de Meio Ambiente, que ocorreu em Brasília, de 24 a 27 de outubro de 2013. Os representantes indicados são: Roberto Laureano da Rocha (titular), Ronei Alves (1º suplente) e Maria do Carmo (2º suplente). Eles participaram da 115ª reunião do Conama, realizada no dia 20/08.

A diretora do Departamento de Cidadania e Responsabilidade Ambiental (DCRS) do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Raquel Breda, destaca que a inclusão dos catadores no Conama está em consonância com a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).”Garantir a participação do MNCR no Conama é uma forma de reconhecer o trabalho que tem sido realizado pelos catadores e catadoras de todo Brasil, que há muito tem contribuído para um gerenciamento mais sustentável dos resíduos”, disse.

O MMA defende que seja garantido ao catador o espaço e a remuneração adequada dentro do processo de logística reversa, no qual o fabricante das embalagens é o responsável pela reciclagem do material. (MMA)

(Fonte: http://www.doeseulixo.org.br/)

Proteger a Mata Atlântica custaria menos de 0,01% do PIB

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Um estudo publicado na edição desta semana da revista Science, liderado pela bióloga brasileira Cristina Banks-Leite, professora da Imperial College London, na Inglaterra, e professora visitante na Universidade de São Paulo (USP) investigou custos relacionados à conservação da Mata Atlântica brasileira.

RPPN-Alto-da-Boa-Vista-I-e-II-_-03-300x225Resultado de uma extensa pesquisa sobre dados ecológicos e econômicos e do mapeamento de áreas estratégicas para a conservação, o trabalho concluiu que ações de conservação e recuperação da Mata Atlântica custariam ao Brasil 443 milhões de reais – o que equivale a menos de 0,01% do PIB. Esse valor seria destinado a esforços de restauração florestal e iniciativas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) e valeria para os 3 primeiros anos – após esse período o investimento diminuiria para menos de 0,0026% do PIB.

“Esse custo é mínimo considerando que o investimento em ações de conservação da floresta traz inúmeros benefícios para mais de 69% da população brasileira que vive na área de abrangência da Mata Atlântica. Estamos falando de serviços ambientais como regulação do clima, prevenção de enchentes e deslizamentos, melhoria na qualidade do ar e proteção do abastecimento de água”, explica Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Artigo científico citado:
BANKS-LEITE, C. et alUsing ecological thresholds to evaluate the costs and benefits of set-asides in a biodiversity hotspotScience, v. 345, n. 6200, 29 ago 2014.

(SOS Mata Atlântica)

Decifrar o lixo, decifrar perspectivas

Entrevista especial com Maurício Waldman*

“O meio urbano se tornou a expressão mais pura da Civilização do Lixo”, constata o geógrafo.

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As evidências demonstram que a quantidade de lixo gerada tem crescido consideravelmente nos últimos anos, mas quando se trata de quantificar os dados, “as disparidades nos levantamentos estatísticos constituem controvérsia endêmica entre os especialistas em resíduos”, assinala Maurício Waldman, autor de Lixo: Cenários e Desafios (Cortez Editora, 2010), em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Numa “radiografia quantitativa” a partir de estudos franceses, é possível que os resíduos urbanos globais oscilem entre 2,5 e 4 bilhões de toneladas, com uma “margem de erro”, conforme destaca o pesquisador, “note-se bem: uma margem de erro de ‘apenas’ 1,9 bilhão de toneladas de sobras”. No Brasil, a conta gira em torno de “78,4 milhões de toneladas, uma massa de refugos considerável sob qualquer ponto de vida”, pontua. E informa: “A população brasileira aumentou 15,6% entre 1991 e 2000. Entretanto, neste mesmo período, o lixo domiciliar expandiu-se 49%, três vezes o índice demográfico”.

Doutor em Geografia e referência em pesquisas sobre a problemática do lixo no BrasilWaldman está cursando o terceiro pós-doutorado, estudando especialmente a reciclagem dos resíduos sólidos, e alerta para a ampliação acelerada de novas toneladas de lixo produzidas no Brasil. “As cidades brasileiras ampliaram os descartes no biênio 2012-2013, de 201.058 toneladas de lixo por dia para 209.280 toneladas. Uma expansão assombrosa de 4,1% em apenas doze meses! Uma calamidade se pensarmos as formas de gestão de resíduos em curso no país, a começar pelas 20 mil toneladas diárias que sequer são coletadas, dos mais de 3.500 lixões ativos e a continuidade do descaso com o trabalho dos catadores”, menciona.

Waldman chama a atenção para as propagandas em torno do“lixo zero”, lembrando que “não existe erradicação total do lixo”, porque “toda atividade humana gera resíduo, sendo que deste montante devemos excluir os rejeitos, sobras não passíveis de reaproveitamento”.

Maurício Waldman é doutor em Geografia, mestre em Antropologia e graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Cursou pós-doutorado em Geociências pelaUniversidade de Campinas – UNICAMP e em Relações Internacionais pela USP.Waldman iniciou em janeiro de 2014 seu 3º pós- doutorado, pesquisa centrada na área do meio ambiente com foco na questão dos catadores, incineração e reciclagem dos resíduos sólidos. A investigação possui respaldo institucional da Universidade do Oeste Paulista – UNOESTE, de Presidente Prudente, e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPqMaurício Waldman foi Chefe da Coleta Seletiva de Lixo da Capital paulista eCoordenador do Meio Ambiente em São Bernardo do Campo. Realizou duas traduções de monta: El Ecologismo de los Pobres – Conflictos Ambientales y Lenguajes de Valoración (de Joan Martinez Alier) e Fifty Major Philosophers (de Diané Collinson). Mais informação noPortal Acadêmico do Professor Maurício Waldman:www.mw.pro.br.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Sabe-se que a geração de lixo no Planeta tem crescido incessantemente. Existem dados a este respeito?

Maurício Waldman – Sim e não. Retenha-se que as disparidades nos levantamentos estatísticos constituem controvérsia endêmica entre os especialistas em resíduos. Seguramente, tal assertiva poderia ser estendida à totalidade dos prontuários contábeis devotados ao tema. Citando um exemplo paradigmático, os resíduos urbanos globais oscilariam numa radiografia quantitativa da lavra de especialistas franceses, entre 2,5 e 4 bilhões de toneladas. Note-se bem: uma margem de erro de “apenas” 1,9 bilhão de toneladas de sobras. Assim sendo, é obrigatório ressalvar que qualquer número apresentado pode apresentar discrepâncias de índole diversa.

IHU On-Line – É possível estimar quantas toneladas de lixo são produzidas no Brasil anualmente?

Maurício Waldman – No caso brasileiro, para nos atermos aos últimos dados disponibilizados pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais – ABRELPE, os refugos urbanos descartados pelos domicílios brasileiros durante o ano de 2013 girariam em torno de 78,4 milhões de toneladas, uma massa de refugos considerável sob qualquer ponto de vida.

IHU On-Line – Qual é a principal tendência da geração de lixo no Brasil?

Maurício Waldman – O que salta aos olhos é a expansão vertiginosa do lixo brasileiro. Levando-se em conta dados da ABRELPE e do Instituto Brasileiro de Administração Municipal – IBAM, um recorte matricial é a ampliação exponencial da ejeção de lixos em todo o território nacional. Indo direto ao ponto, este fenômeno fica demonstrado quando observamos que a população brasileira aumentou 15,6% entre 1991 e 2000. Entretanto, neste mesmo período, o lixo domiciliar expandiu-se 49%, três vezes o índice demográfico.

Neste particular, relatório técnico elaborado pela ABRELPEconstata para 2009 um crescimento de 6,6% na geração per capita de resíduos sólidos urbanos com relação a 2008. Mas, para o mesmo ano, o crescimento populacional foi de somente 1%. Nos últimos dez anos, a população do Brasil expandiu 9,65%. Contudo, no mesmo decênio a geração de lixo cresceu mais do que o dobro este percentual, batendo a casa dos 21%. As cidades brasileiras ampliaram os descartes no biênio 2012-2013, de 201.058 toneladas de lixo por dia para 209.280 toneladas. Uma expansão assombrosa de 4,1% em apenas doze meses! Uma calamidade se pensarmos as formas de gestão de resíduos em curso no país, a começar pelas 20 mil toneladas diárias que sequer são coletadas, dos mais de 3.500 lixões ativos e a continuidade do descaso com o trabalho dos catadores.

IHU On-Line – Qual proporção desta tonelagem recebe destino adequado?

Maurício Waldman – Depende do que se entende por “adequado”. Certo é que a Lei 12.305 (de 02-08-2010), instituindo o Plano Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, estabelece como destinações ambientalmente adequadas procedimentos como a reutilização, a reciclagem e a compostagem, um elenco de práticas que desfrutam de consenso entre os especialistas. Por outro lado, admite o chamado “aproveitamento energético do lixo” — processos de incineraçãoWaste to Energy — e a disposição final dos resíduos em aterros sanitários como normas operacionais aceitáveis, inclusive do ponto de vista ambiental. Trata-se de uma posição no mínimo questionável.

IHU On-Line – Por que os incineradores e os aterros seriam questionáveis?

Maurício Waldman – Assinale-se que do ponto de vista legal, oSenado suprimiu na última hora em sessão noturna o dispositivo que enquadrava a queima do lixo como opção apenas na eventualidade de outras medidas não serem viáveis. Com base neste subterfúgio, os senadores encaminharam sem demora o texto para sanção da Presidência, então exercida por Lula. Isso ao arrepio das mobilizações mundiais contrárias à expansão dos incineradores, que em países como o Brasil tem como um dos pontos programáticos mais fortes o apoio aos catadores urbanos. Quanto aos aterros, bastaria recordar as pesquisas de William Rathje, famoso antropólogo estadunidense fundador daGarbology (Lixologia em português), que os classifica como mausoléus de lixos, uma representação emblemática da incúria ambiental da civilização moderna. Formando verdadeiras montanhas de detritos, os aterros sanitários configuram a etapa final da parte do leão de muitos restos urbanos, impostados da condição de parceiros de uma civilização que esgota sem piedade as reservas de insumos naturais, com isso catalisando os pré-requisitos de sua própria autoextinção.

Deste modo, como julgar “adequado” um equipamento cuja função é enterrar materiais que, podendo ser compostados e recuperados, geram, pelo contrário, uma coletânea de estorvos ambientais? Isso é solução?

IHU On-Line – E no Brasil, o que está acontecendo com os materiais descartados nas lixeiras?

Maurício Waldman – Para começo de conversa — para focarmos as questões relacionadas à massa dos itens descartados — é importante sublinhar que o Brasil corresponde a 2,8% da população mundial e praticamente 3% do PIB global. Mas, por outro lado, seria origem de um montante estipulado entre 5,5% do total mundial dos resíduos sólidos. Isso para lembrarmos que a responsabilidade brasileira na geração mundial de lixo é inquestionável.

Embora o fato escape à percepção da maioria da população, oBrasil figura entre os maiores geradores planetários de descartes. Um segundo apontamento diria respeito à modelagem das cifras pelas estatísticas, que em alguns contextos afetam uma exata compreensão do problema. Recorde-se que os relatórios daABRELPE acusam a existência de “alguma iniciativa de coleta seletiva” em 62% dos 5.570 municípios brasileiros em 2013, concentradamente nas regiões Sul (34%) e Sudeste (52%).

IHU On-Line – No que esta definição seria problemática?

Maurício Waldman – Ora, suponha que eu convide alguém para almoçar na minha casa e o convidado indague sobre o que iremos comer. Imagine se eu responder que vamos nos fartar com“algum tipo de comida”. Bem, “algum tipo de alimento” pode ser qualquer coisa: o que sobrou do jantar de ontem, pão amanhecido, uma maçã devorada pela metade ou alguns pedaços de pizza. Na mesma lógica “alguma iniciativa de coleta seletiva” significa que uma cidade pode ter um ecoponto isolado na rodoviária ou uma “ilha recicladora” em algum parque e, apesar desta precariedade, ser brindada com o status de disponibilizar serviço de Coleta Seletiva de Lixo – CSL.

IHU On-Line – Mas a proporção dos materiais reciclados tem aumentado?

Maurício Waldman – De um modo geral, sim. Mas, como sempre, muitos passos aquém do necessário. Em princípio oBrasil tem marcado algumas boas posições no ranking mundial da reciclagem. A recuperação da lata de alumínio atinge índices verdadeiramente icônicos, da ordem de 97,9%, imbatível no mundo inteiro. Quatro outros materiais — latas de aço, papel, plástico e embalagens longa vida — também apresentam porcentagens expressivas de reciclagem: 47%, 45,7%, 58,9% e 27%. Contudo, entenda-se que ocorre uma procura pelas sobras que auferem maior valor nas bolsas de recicláveis. Dito de outro modo, são resgatados os resíduos mais bem posicionados junto aos polos mais capitalizados da economia. Sem contar a irrisória porcentagem da compostagem da fração orgânica do lixo — em torno de 2%, uma das mais baixas do mundo —, ainda assim existem falhas gritantes atingindo ciclos produtivos que deveriam dispor de uma logística mais azeitada.

IHU On-Line – Em qual sentido?

Maurício Waldman – Confira-se o caso da indústria têxtil. Por incrível que pareça, o Brasil está importando plástico PET doParaguai para abastecer a linha de produção de camisetas. Também compra no exterior restos de roupa para fazer estopa. Isso porque a captação no território nacional é insuficiente para atender a demanda das recicladoras. Damo-nos ao luxo de perder em torno de 50% do plástico PET nas sarjetas e desperdiçamos 90% dos restos têxteis. Atentemos que o Brasil importou mais de 223 mil toneladas de resíduos nos anos 2008-2009. Isso num país em que o lixo transborda por todos os lados.

IHU On-Line – A importação de lixo evidencia problemas de gestão?

Maurício Waldman – Sem dúvida alguma. Uma ponderação se impõe: estamos dando solução ao lixo dos outros e permitindo que nossos rios regurgitem garrafas plásticas e os aterros fiquem entupidos com retalhos das confecções. Esses são claros exemplos das falhas estruturais nos esquemas de interceptação das sobras. Neste cenário é difícil ficar deslumbrado com apontamentos indicando crescimento de municípios com CSL, divulgados peloCompromisso Empresarial para a Reciclagem – CEMPRE. Na realidade, mesmo que o número de municipalidades com programas de CSL tenha passado de 405 em 2008 para 766 no ano de 2012, a população brasileira atendida pela CSL passou de 26 para 27 milhões.

Em síntese: um desempenho manifestadamente medíocre. Para arrematar, a eficiência do serviço público é, no geral, muito baixa. A porcentagem de rejeitos na composição gravimétrica se mantém elevada, principalmente pela ausência de investimentos em educação ambiental. A falta de proficiência técnica gera perdas indevidas de materiais coletados. As metrópoles brasileiras enterram fração considerável dos recicláveis colocados pela população nos contêineres das prefeituras. Não fosse o trabalho digno e honrado dos catadores, tecnicamente não existiria reciclagem no Brasil.

IHU On-Line – Este panorama tem se alterado?

Maurício Waldman – Sim, mas do mesmo modo que a reciclagem como um todo. Qual seja: vários passos atrás do que de fato a sociedade precisaria. Rubrique-se que, embora o PNRSreconheça o resíduo sólido reutilizável e reciclável como bem econômico, dotado de valor social, gerador de trabalho, de renda e promotor de cidadania, a resistência em firmar parcerias com entidades dos catadores é manifesta. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, dentre os programas de CSL em curso nos municípios brasileiros em 2008, apenas 43% destes envolviam a participação de cooperativas de catadores. Mesmo assim, tais iniciativas oscilam enormemente quanto à vontade política das prefeituras em calçá-las com apoio efetivo. Certificando esta última postura, a nota oficial divulgada pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR, em 05-08-2010, é lapidar. O MNCRalertou que somente 142 municípios brasileiros (2,5% do total) mantêm parceria com associações e cooperativas de catadores.

IHU On-Line – Qual a origem desta ausência de diálogo como os catadores?

Maurício Waldman – Existe toda uma carga de estereótipos que impregnam negativamente a percepção dos catadores junto a um segmento ponderável da opinião pública, particularmente devido à própria natureza da atividade destes trabalhadores, que manipulam materiais classificados pelo código cultural dominante como lixo. Existem muitos relatos de incêndios criminosos de galpões utilizados pelos catadores para a triagem dos recicláveis, apreensões ilegais de carroças, diversos tipos de impedimentos à catação e atos de violência direta perpetrados com apoio de forças policiais. Mantém-se um relacionamento contraditório com os grupos de catadores: necessários por proverem poderosos grupos empresariais das cobiçadas sobras que sustentam suas linhas de produção; rejeitados por força de estigmas culturais, raciais e sociais que se abatem contra a população pobre do país, agravados, no caso da população catadora, por singularidades que os tornam incompatíveis com o padrão sociocultural hegemônico. Apenas a mobilização permanente da categoria, apoiada por organizações religiosas e/ou ambientalistas, tem garantido a manutenção das suas conquistas, a defesa dos seus direitos e o avanço das suas reivindicações.

IHU On-Line – Quais são as principais problemáticas do lixo domiciliar no país? Quais são os resultados da sua pesquisa sobre o tema, considerando o período de 2006-2010?

Maurício Waldman – Num prisma conceitual, a obra do geógrafo Milton Santos, pontuando a importância dos processos nas configurações materializadas no espaço geográfico, nos proporciona um excelente marco teórico. A célebre máxima pela qual o espaço resulta de uma acumulação desigual de tempos é matricial para analisar os refugos e suas variáveis junto à realidade concreta e nas flexões do imaginário social. Retenha-se que a expressão modernidade é das que mais incorrem em afetações ideológicas. Portanto, não pode ser utilizada aleatoriamente. Citando Milton Santos uma vez mais, o geógrafo advertia que a globalização se especifica diferentemente no espaço mundial. Daí ser falho pressupor uma sociedade moderna abstrata. Coerentemente, numa formação socioespacial como a brasileira, uma gestão atendendo a princípios quanto aos materiais descartados não pode copiar metodologias — modernas ou não, tanto faz — em vigor na França, México, Noruega ou Egito. Conforme consta na Pesquisa de Pós-Doutorado pela UNICAMP e em Lixo: Cenários e Desafios, o que se tem no país são resíduos sólidos brasileiros, aos quais cabem soluções brasileiras. Neste quesito, medidas de incentivo e apoio aos catadores, desobrigação tributária da reciclagem, programas de lixo-educação, valorização de materiais autóctones, revisão da matriz energética e, inevitavelmente, a reforma do Estado, são todas urgentes, indispensáveis. Este é o debate central e fundamental. Mas ignorado quando se trata de esclarecer a questão teórica do lixo.

IHU On-Line – Qual é o impacto do lixo nas cidades? Quais os principais entraves gerados por conta da destinação incorreta do lixo? E os impactos em cidades brasileiras?

Maurício Waldman – Esta questão pode ser colocada em mão dupla: os impactos do lixo nas cidades e os que ocorrem a partir das cidades. O meio urbano se tornou, desde o século XIX, o epicentro da civilização moderna, eixo de um estilo de vida cada vez mais identificado com o consumismo e a utilização perdulária dos insumos naturais. Para comprovar esta colocação basta situar o cálculo de que as 29 mais glamorosas metrópoles europeias, visando manter em funcionamento sua engenharia urbana, arrebanham recursos de territórios 1.130 vezes mais extensos do que a área que ocupam. Outra coletânea de dados sobre o apetite urbano por insumos é a informação de que as cidades ocupam 6% da superfície terrestre.

Porém, reclamam para si 60% das águas doces e 75% dos recursos naturais planetários. Na ótica do relacionamento com o ambiente, a titularidade do meio urbano é inquestionável: as metrópoles mantêm o conjunto da biosfera sob seu tacão, submetida na condição de refém das expectativas, desejos e vontades citadinas. Assim sendo, pressionadas por demandas crescentes e correndo o risco de serem asfixiadas sob o acúmulo de dejetos gerados por elas mesmas, as cidades promovem impactos que se estendem numa escala extremamente vasta do espaço-tempo. Em suma: o meio urbano se tornou a expressão mais pura da Civilização do Lixo.

IHU On-Line – No que isso implica?

Maurício Waldman – Significa que, a partir desta linha de abordagem, não vem muito ao caso a magnitude da cidade. Tampouco sua inserção numa lógica mais tecnificada ou menos tecnificada. O conjunto das cidades está impactado pelos descartes que produzem e pari passu estão impactando o ambiente numa escala sem precedentes. Não importam as distâncias nem as especificidades. É neste seguimento que, para exemplificar, na região do Oeste Paulista — onde atualmente desenvolvo minha terceira investigação de pós-doutorado —, informações coligidas pelo Núcleo de Estudos Ambientais e Geoprocessamento – NEAGEO, da Universidade do Oeste Paulista – UNOESTE, radiografaram 22 aterros ativos. Existem pistas de que é um para cada município. O único aterro sanitário em operação — situado em Presidente Venceslau — é prova cabal da falácia em imaginar que esta modalidade seja solução para a destinação final dos resíduos. Apesar das boas notas da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental – CETESB, órgão do governo paulista, o aterro, ao menos até recentemente, era frequentado por população do lixo, não tratava o chorume e fazia vista grossa para a liberação de gás metano na atmosfera. Isso ocorre numa região onde os horizontes texturais admitem ampla capilaridade para infiltração, em especial pela configuração pedológica, caracterizada por rochas sedimentares com porções de areia e argila. Pelo fato de todo o Oeste Paulista apresentar solos arenosos e nesta senda, com maior capacidade de percolação do chorume em face do meio poroso, é possível concluir que os majestosos recursos hídricos da região estejam em franca destruição. Uma tragédia dentre muitas com foco nos refugos.

IHU On-Line – Neste eixo de análises, qual seria a relação entre lixo e economia?

Maurício Waldman – Este é um verdadeiro nó górdio da economia moderna, comentado mais recentemente pelo economista ecológico catalão Joan Martinez Alier. Porém, consiste num tema antecipado pelo genial filósofo francêsAbraham Moles. Na avaliação desse pensador, o dinamismo do mercado implica a indução do descarte contínuo dos bens, ejetados por um carrossel do consumo. No seu entrosamento mais literal, sua argumentação sinaliza que vivemos numa civilização consumidora que produz para consumir e cria para produzir, um ciclo onde a noção fundamental é a de aceleração. Numa única palavra, vivemos numa Civilização do Lixo. Em termos do sistema de produção de mercadorias, é importante notar que a função deste modelo é impulsionar os ciclos de reprodução do capital. Quanto mais rápida as mercadorias forem substituídas, tanto mais encorpado será o giro do dinheiro. Quanto mais lixo, mais giro de capital.

IHU On-Line – Quais seriam os dilemas em torno da gestão do lixo, tendo em vista as posições defendidas pelos catadores, empresários, defensores do processo de reciclagem e do processo de incineração do lixo?

Maurício Waldman – Os dilemas resultam das contradições que grassam em meio à materialidade social, refletida nas propostas defendidas pelos diferentes atores que disputam os resíduos. É inegável a existência de um rol de problemáticas declinando em antagonismos e crispações no campo empresarial, colocando setores do empresariado uns contra os outros, embates que afetam diretamente o avanço de políticas públicas de apoio aos catadores e de conservação dos recursos naturais.

IHU On-Line – Como ocorrem estes atritos?

Maurício Waldman – Pontuando melhor a afirmação, para as recicladoras os resíduos constituem matéria-prima. Contudo, para muitas empresas do segmento fabril, a reciclagem funciona apenas como uma possibilidade de minimizar custos de produção. Simultaneamente, para os setores envolvidos no esquema Waste to Energy, os rejeitos configuram meramente um combustível, uma sucata energética e não algo reaproveitável. Ou seja: o lixo não constitui insumo para o processo produtivo em si e tampouco é percebido como fator para a minimização de custos. Por sua vez, para os grupos empenhados com o gerenciamento dos aterros e coleta dos rejeitos, o que interessa é a quantidade de refugos domésticos disponíveis para serem coletados. Ignoram, portanto, a reciclabilidade dos materiais e a recuperação da energia. Fechando o círculo, aspectos econômicos envolvidos na atividade não são vistos na mesma perspectiva pelos catadores “avulsos” ou pelas cooperativas. Existem também contraposições entre os que lidam com o comércio de sucatas, entre os que as adquirem e os que retiram estes materiais das ruas, isto é, os catadores.

IHU On-Line – Neste fogo cruzado, como fica a gestão pública?

Maurício Waldman – Percebem-se neste imbróglio discordâncias entre os gestores públicos e a plataforma defendida pelos catadores, discrepâncias dos prefeitos frente às propostas das empresas que atuam com o lixo e todo um leque de contraposições programáticas no seio das próprias administrações. Particularmente, é obrigatório destacar a perpetuação de modelos ultrapassados de gestão, solenemente ignorando a reciclagem enquanto política pública efetiva e, quando muito, voltados para despachar os restos para um aterro sanitário qualquer.

IHU On-Line – Por que, mesmo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, os municípios encontram dificuldades em acabar com os lixões, considerando que não conseguiram cumprir a meta de erradicar os lixões até agosto?

Maurício Waldman – Antes de qualquer pontuação, seria absolutamente fundamental recordar que a caprichosa forma como a política é gerida no país não garante que a aprovação de uma lei pressuponha força normativa. Não é à toa — confirmando a leniência observada no cumprimento das normas legais — que o linguajar popular brasileiro predica que as leis possam “pegar” ou “não pegar”. Nesta linha de arguição, teríamos igualmente “não-leis que pegam”. Este é o caso bastante conhecido da “legislação”autogerida pelos condomínios impondo o uso do elevador de serviço para pobres, pessoas malvestidas, negros, mestiços e outros “indesejáveis”. Este “código legal” apenas deixou de vigorar com a promulgação de lei oficial proibindo essa prática discriminatória e pela pressão social, particularmente a movida pelo movimento negro. E para além da condicionalidade, existem também embaraços quanto à consecução das legislações, sujeitas em ser erodidas pelo mandonismo local, pelos interesses das grandes corporações, pelo arbítrio dos poderes governamentais e por intrusões políticas de todo o tipo. Nessa perspectiva, a cobertura legal assentada nas legislações torna-se letra morta ou é acometida de achaques constantes, visando inviabilizá-las ou pavimentar seu desmanche.

IHU On-Line – Quais os impasses na aplicação da Lei 12.305?

Maurício Waldman – O que estamos observando condiz em tudo com o que acabei de colocar. Os fatos estão aí à vista de todos. Creio que não houve qualquer voluntarismo na forma como se esboçou a legislação. O simples fato de ter circulado duas décadas pelos corredores do poder comprova a força dos interesses que pretendem sufocar qualquer normatização relacionada aos resíduos no país. Mais ainda, a persistência dos segmentos de opinião que percebem a gravidade da problemática do lixo. Contudo, o modo que marcou a atuação dos atores institucionais favoráveis à Lei está diretamente relacionado com as obstruções que têm perpassado pela sua aplicação. Isto pela simples razão de que os impasses jamais poderiam ser imputados exclusivamente aos adversários da Lei. Cabe aqui um papel importante à crítica política, dirigida em especial aos que, transitando por espaços institucionais, imaginaram que o exercício do senso público possa ser sumarizado por discursos pirotécnicos. E pior, que lançar mão de rompantes – tipo Esta Lei já pegou – seja por si só suficiente, desmentidos, aliás, pelo frigir dos acontecimentos. Transparece, pois, numa direção contrária à arrogância destes círculos e de assessorias anexas, que a prática se mantém como critério central da verdade.

IHU On-Line – Como o senhor vê as propostas em torno da produção de biogás a partir do uso de resíduos sólidos?

Maurício Waldman – Esta proposta é bastante atraente, mas cabem correções e reparos. Acredito que antes de pautarmos políticas para aproveitar o metano dos aterros, precisamos retroagir nos processos e radiografarmos o problema na origem. Nesta averbação se impõe o imperativo em reciclar nos próprios lares os restos culinários. A saber: no geral a reciclagem da fração úmida ou orgânica do lixo domiciliar recebe pouquíssima atenção dos cidadãos, das autoridades e dos especialistas. Seria cômico se não fosse sério consignar que, mesmo na literatura técnica e nos planos de gestão do lixo em todos os níveis administrativos, sequer se destaca que os orgânicos podem ser reciclados. Nesta vertente, temos imensa potencialidade colocada pelos refugos orgânicos.

IHU On-Line – Como isso poderia ser feito?

Maurício Waldman – É perfeitamente possível compostá-los nas residências. É o que comprova a notável iniciativa de entidades como Morada na Floresta, atuante na capital paulista, que tem divulgado e estimulado o uso residencial de minhocários.Reciclar resíduos orgânicos em casa permanece como prática essencial para solucionar o problema do lixo urbano. Entenda-se que no país as sobras de cozinha constituem fração majoritária dos descartes residenciais. Normalmente 60% do total. Mesmo os resíduos municipais da cidade de São Paulo — a mais cosmopolita das metrópoles brasileiras — perfazem 51% de orgânicos da sua composição. Tais emolumentos estatísticos falam por si mesmos. Implantando-se a compostagem residencial, mais da metade do lixo simplesmente desaparece, se tornando um recompositor de solo da melhor qualidade. Deste modo, transformamos um problema em solução a beneficiar o conjunto da sociedade.

IHU On-Line – Existem experiências realizadas nesta direção?

Maurício Waldman – Sim, claro. São muitas as experiências significativas de países europeus, sempre a partir da segregação na fonte. Hoje em dia, menos de 3% dos resíduos orgânicos do lixo domiciliar da Áustria é encaminhado para os aterros. NaAlemanha e nos Países Baixos mais de 80% da população colabora com a coleta seletiva de orgânicos.

Aproximadamente 33% dos belgas composta o lixo culinário. Complementando, seria oportuno registrar a possibilidade de geração de metano nas residências, poupando o contribuinte dos caros e nem sempre eficientes equipamentos geridos pelo Estado. Para comprovar, existe o sucesso dos planos chineses de geração de metano no âmbito doméstico. Em 2004, 15 mihões de domicílios chineses utilizavam biogás alimentado pelo próprio núcleo residencial. Esse número cresceu para 27 milhões de lares em 2010. No decênio 2003-2013, foram construídos 41,7 milhões de biodigestores de pequena escala no meio rural da China. Gestores públicos dos EUACanadá e de muitos países europeus têm demonstrado simpatia pelo biogás residencial, basicamente por solucionar na raiz dois graves problemas: a destinação final do lixo e a produção de energia.

IHU On-Line – Neste contexto, qual seria a melhor maneira de erradicar o lixo produzido ou reaproveitá-lo de algum modo, considerando o contexto brasileiro?

Maurício Waldman – Certifique-se de que não existe erradicação total do lixo. O chamado Zero Waste pode até encantar os ouvidos. Contudo, deve ser avaliado com base em dados objetivos. Objetivamente Lixo Mínimo soaria mais correto. Assinale-se que toda atividade humana gera resíduo, sendo que deste montante devemos excluir os rejeitos, sobras não passíveis de reaproveitamento. Claro que existe um avanço contínuo do aparato tecnológico abrindo brechas para o ingresso de materiais dantes descartados nos circuitos da recuperação. A caixinha longa vida e o isopor comprovam este raciocínio. Não eram recicláveis, mas passaram a ser. Todavia, tal como registrado em Lixo:Cenários e Desafios, a questão mais profunda que o lixo nos coloca é a questão do estilo de vida, dos padrões de consumo, das perspectivas imaginárias que modelam o comportamento da maioria das pessoas. No Brasil como em qualquer parte do mundo, o que a Era do Lixo está expondo de modo radical é a impossibilidade de mantermos o modus vivendi e o modus operandi que lastreou o surgimento e a difusão da civilização ocidental. Ao menos da forma como se tornou conhecida. Hoje, nos deparamos com uma versão contemporânea do enigma filosoficamente colocado pela Esfinge pela mitologia da Grécia antiga. É como se o lixo estivesse nos dizendo: Decifra-me ou devoro-te.

IHU On-Line – Então na sua avaliação o mundo já chegou numa situação limite em relação à quantidade de lixo produzido e às possibilidades de dar um destino adequado a ele, ou o desenvolvimento de tecnologias dará conta de solucionar esse problema?

Maurício Waldman – Seria uma vez mais meritório advertir que os lixos já assumiram os contornos de uma calamidade civilizatória. Em termos mundiais, apenas a massa de lixo municipal coletado, estimada em 1,2 bilhão de toneladas, supera nos dias de hoje a produção global de aço, orçada em 1 bilhão de toneladas. Por sua vez, as cidades, estacas geográficas da Modernidade, ejetam 2 bilhões de toneladas de refugos, superando no mínimo em 20% a produção planetária de cereais. Os números falam por si mesmos. Hoje, o mundo está mais voltado para gerar refugo do que produzir carboidrato básico. Neste quadro marcado por uma profunda inversão de valores, não creio que mais tecnologia seja a solução. Por sinal, a crise do lixo que presenciamos resultou exatamente da imposição radical de gradientes técnicos no ambiente de vida.

IHU On-Line – Qual seria a solução?

Maurício Waldman – Caso o problema seja técnico, precisamos então rever o que entendemos por técnica. Entre os antigos gregos, a noção de tekhne — origem das palavras técnica e tecnologia — estava impregnada de noções estéticas, incluindo a beleza e o bem-estar das populações. É exatamente disto que precisamos: repensar padrões, rever prioridades, reconsiderar ações e procedimentos. Precisamos acima de tudo de mais Humanidade, mais respeito ao meio ambiente e às futuras gerações. Debate este em cujo seio o Lixo desponta como uma preocupação essencial. (Por Patricia Fachin)

(Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/)

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O relógio da Terra mostra-nos alguns dos impactos causados pelo Homem na Terra. As estatísticas nele apresentadas, que estão a ser actualizadas ao vivo, podem ser verificadas nos sites seguintes:


População mundial: US Census Bureau
Taxa de crescimento populacional: CIA World Factbook
População prisional: UK Homeoffice
Divórcios (apenas para os Estados Unidos): Wikipédia
Imigração ilegal nos Estados Unidos: Wikipédia
Abortos: Wikipédia
Mulheres que morrem durante procedimentos abortivos incorrectos: Organização Mundial de Saúde
Taxa de infecções por HIV: Avert
Taxa de incidência de cancro: UICC
Temperatura média da Terra: Wikipédia
Extinções de espécies: National Wildlife Federation
Produção de petróleo: CIA World Factbook
Produção de carros: Mation Master
Produção de bicicletas: Earth Policy
Produção de computadores: Top Secret
Estatísticas de mortalidade: Organização Mundial de Saúde