A indústria química, os agrotóxicos e a loucura

Artigo de Najar Tubino

A indústria química é um ramo industrial, formado por oito grupos. Sua história guarda episódios que expressam as mazelas do capitalismo

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Este é um ramo industrial, formado por oito grupos, desde a produção de químicos básicos, farmacêuticos, higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, adubos e fertilizantes, agrotóxicos, sabão e detergentes, tintas, esmaltes e vernizes e fibras artificiais e sintéticas. Faturou no mundo US$3,4 trilhões em 2010. No Brasil pouco mais de US$100 bilhões. As vendas globais da indústria química como um todo são divididas da seguinte forma: 37% para os produtos químicos básicos, 30% para os produtos das ciências da vida (fármacos e agroquímicos), 23% para as chamadas especialidades – tintas e cosméticos e 10% para produtos de consumo. Para um PIB mundial de US$70 trilhões, as vendas da indústria química representam 4,8%. O Brasil ainda importa a maioria dos produtos, o que custou no ano passado quase US$20 bilhões.

O histórico da indústria química está ligado à Alemanha. Não somente pelas descobertas, como a síntese da amônia (NH3), para uso em fertilizantes, ou a criação da aspirina, cuja patente ocorreu em 1899. Em 1860, foi criada a empresa BASF – Badische Anilin und Soda Fabrick (Fábrica de Baden de Anilina e Soda), em Mannhein. Em 1863, o comerciante de corantes Friedrich Bayer e o mestre-tintureiro, Johann Weskott, instalaram uma pequena fábrica para produzir corantes artificiais para tingimento de tecidos. Assim nasceu a Bayer, que em 1896 se instalou no Brasil. Em 1922 criaram o slogan “se é Bayer é bom”.

Primeiro ataque com arma química

O químico envolvido com a Basf chamado Fritz Haber, autor da descoberta da síntese da amônia e ganhador do prêmio Nobel de 1920, financiado por esta empresa a partir de 1909, também foi o responsável pelo uso de gases tóxicos na primeira guerra mundial.O primeiro ataque com armas químicas aconteceu em Ypres, cidade belga, contra tropas francesas e argelinas, no dia 22 de abril de 1915. Conforme o relato dos pesquisadores Reinaldo Calixto de Campos e João Augusto Gouveia em um texto sobre a história da química:

“-O primeiro emprego moderno, em larga escala, de um agente químico como arma letal direta foi o gás cloro, lançado a partir de 5.730 cilindros de metal, cada um pesando 100kg, com cloro líquido, ao longo de 10 km de frente. O primeiro ataque foi um sucesso, com uma nuvem de gás verde, de cerca de um metro e meio de altura avançando, empurrada pelo vento, abrindo uma larga brecha nas linhas inimigas, uma vez que os que não sufocaram, debandaram, com os alemães avançando pela terra de ninguém e tomando as trincheiras aliadas. A partir daí os aliados passaram a usar também gases químicos. Até o fim da primeira guerra mundial 22 tipos diferentes de agentes químicos foram testados”.

Criminoso de guerra

Quando a guerra terminou, com a derrota da Alemanha, Fritz Haber, que era judeu, foi procurado como criminoso de guerra, mas se escondeu na Suíça. Ele morreu em 1934, o homem que ajudou a transformar nitrogênio em pão, cujo processo industrial é responsável ainda hoje pela produção de 130 milhões de toneladas de amônia, usada pela indústria de fertilizantes. Era autoritário, monarquista, e um precursor do delírio alemão de superioridade racial. Quando ganhou a patente de capitão do exército alemão, deu uma festa para comemorar em Breslau, cidade onde conheceu a mulher Clara Immerwahr, judia e a primeira mulher a doutorar-se em Química pela Universidade de Breslau, embora nunca tenha trabalhado na profissão. Neste dia fatídico, Clara deu dois tiros no peito com a arma do recém -nomeado capitão. O filho deles, Hermann mudou-se para os Estados Unidos e, no final da II Guerra Mundial, em 1945, também se suicidou.

DDT usado no combate aos piolhos

Outro alemão, Friedrich Wöhler, está ligado à história dos agroquímicos. Em 1828 ele sintetizou o composto inorgânico cianato de amônia, transformando-o em ureia. Porém, os inseticidas orgânicos só começaram a ser utilizados em larga escala na década de 1940, durante a segunda guerra mundial, a fim de proteger os soldados nas regiões tropicais e subtropicais da África e da Ásia, das pragas transmissoras da doença do sono, da malária, do tifo, entre outras. Devido a necessidade de proteger o exército, as pesquisas de novos inseticidas foram impulsionadas, o que resultou no desenvolvimento de vários agrotóxicos, que são usados ainda hoje.

O marco na química foi a descoberta da atividade inseticida do 1,1,1-tricloro-2,2-di (p-clorofenil) etano, em 1939, pelo pesquisador Paul Muller, prêmio Nobel em 1948. O famoso DDT foi usado pela primeira vez em 1943, para combater piolhos que infestavam as tropas estadunidenses na Europa, e que transmitiam a doença do tifo exantemático. O DDT é um organoclorado composto por átomos de carbono, hidrogênio e cloro. Outros organoclorados desenvolvidos nesta época – aldrin, dieldrin, heptacloro e toxafeno.

Mais tóxicos que os organoclorados

Os organofosforados foram desenvolvidos nas décadas de 1930/40, como armas químicas, eram compostos derivados do ácido fosfórico, que podem conter em sua estrutura átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio, enxofre, nitrogênio e fósforo. A toxidade é maior que os organoclorados, mas são menos persistentes no ambiente. O herbicida glifosato e os inseticidas malation, paration e dissulfoton são exemplos de organofosforados. Dos 115 elementos químicos da tabela periódica, 11 podem estar presentes nas formulações dos agrotóxicos, sendo que a indústria trabalha com mais de mil formulações.

As seis maiores empresas do ramo – Bayer, Syngenta, Basf, Monsanto, Dow e Dupont – controlam quase 90% do mercado mundial. No Brasil são oito empresas que controlam a maioria do mercado. A produção de organossintéticos no Brasil começou em 1946, com a empresa Eletroquímica Fluminense, que fabricava o BHC, também conhecido como gamexane ou pó de gafanhoto. Teve seu uso proibido em 1983. Em 1948, a Rhodia passou a produzir o inseticida parathion, e em 1950, uma fábrica de armas químicas do exército brasileiro começou a fabricar no Rio de Janeiro o DDT.

Explosão dos agrotóxicos

Mas a explosão dos agrotóxicos no país só ocorreu a partir da década de 1970, quando os militares lançaram o Programa Nacional de Defensivos Agrícolas (PNDA), que funcionou até 1979. A produção e a instalação de fábricas recebiam incentivos fiscais, financiamentos, benefícios tarifários para a importação de maquinário e equipamentos. Tudo isso foi evoluindo e hoje o Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, com mais de um bilhão de litros, e um faturamento que no ano passado alcançou quase US$bilhões para a indústria. Muito pior que isso foi a introdução dos transgênicos, a partir do início da década, cuja responsável maior é a empresa Monsanto, que incentivou o contrabando de sementes da Argentina para o Rio Grande do Sul, durante o governo Olívio Dutra.

Usou o sobrenome da esposa

Esta mesma empresa tem um histórico trágico e pestilento. Criada em 1901, em Saint Louis por John Francis Queeny, que aproveitou o nome de solteira da mulher para registrar a firma Monsanto Chemical Works – o nome dela era Olga Mendez Monsanto, conforme histórico publicado no livro “Transgênicos, as sementes do mal”, do pesquisador brasileiro Antônio Andreoli e do pesquisador alemão Richard Fuchs. O primeiro produto que a empresa desenvolveu foi a sacarina, que era vendida para a Coca-Cola. Começou a produzir aspirina em 1917, mercado que dominou até 1980. A partir de 1933 entrou para a Bolsa de Nova Iorque, registrada com o nome de Monsanto Chemical Company.

Desde 1930 vendeu os produtos originados do PCB – bifenil policlorinado – que causa grave danos à saúde, o que era do conhecimento da empresa, e mesmo assim continuou vendendo até 1979. O PCB é usado na indústria eletrônica, o maior cliente da Monsanto era a General Eletric, usava como lubrificantes de motores, transformadores elétricos e agente refrigerador. A GE na época tinha uma indústria a beira do rio Moharwk, no estado de Nova Iorque, e por sua vez, é afluente do rio Hudson.

Histórico do glifosato

No dia 16 de abril de 1947, um cargueiro ancorado nas proximidades da indústria da Monsanto, carregado com nitrato de amônia, se incendiou devido a um cigarro e explodiu. A cidade de Texas e a indústria da Monsanto foram destruídas. O fogo atingiu um oleoduto com fluídos inflamáveis – benzeno, propano e benzol etílico – e o fogo se alastrou por três dias, matando 576 pessoas. Em 1955, a Monsanto retomou os negócios com adubo e em 1956 lançou o herbicida Randox. A partir de 1960 começou a crescer no setor agrícola. Em 1969, lançou o herbicida Lasso. Em 1970 o pesquisador John Franz, da Monsanto, sintetizou uma molécula mais tarde conhecida – registrada em 1974 – como glifosato, o princípio ativo do herbicida Roundup.

Em 1974 ele chegou ao mercado da Malásia e do Reino Unido. Dois anos depois foi lançado nos Estados Unidos. Em 1983, o Departamento Agrícola da Monsanto começou a cultivar as primeiras plantas transgênicas. Em 1992, começou a comprar as empresas de sementes. Em 1999 bateu recorde de lucro, com US$9,1 bilhões, sendo 50% do setor agrícola.

A escória da humanidade

Na década de 1990, a Monsanto entrou no mercado de algodão da Índia, que é o segundo maior produtor mundial, com mais de 12 milhões de hectares cultivados. Lançou a semente Bt. A maior parte da produção está no estado de Maharastra. Desde 1997, 54 mil agricultores familiares se suicidaram na região. A causa: endividamento no banco, secas, inundações, baixa produtividade. No total, o que é um escândalo mundial, são quase 200 mil suicídios, desde 1997. A Monsanto diz que as mortes não tem ligação com o lançamento da semente Bt. O detalhe é que o preço das sementes de algodão subiu mais de 1000% no mesmo período. A Monsanto, desde a sua origem – o marido não quis se comprometer com o nome próprio e usou o da esposa – mostrou a capacidade de provocar discórdias no planeta. Sem contar a pretensão de dominar o mercado de alimentos no mundo, o que significa exercer seu poder fascista, numa área onde pelo menos metade da população mundial ainda depende dos recursos de suas propriedades. A outra metade vive nas cidades. A Monsanto, certamente, ocupará o espaço destinado à escória da humanidade, num futuro bem próximo.

(Fonte: http://www.cartamaior.com.br/)

Conheça o rio Citarum, na Indonésia, considerado o rio mais poluído e tóxico do mundo

A 40 km a leste de Jacarta, Indonésia, há um rio com mais de 300 quilômetros de extensão.

Por milhares de anos, o rio Citarum foi um recurso importante para o povo indonésio. Hoje, ele continua sustentando a pesca, agricultura, geração de energia elétrica e saneamento básico para quase 30 milhões de habitantes.

Quando a Indonésia vivenciou uma explosão de desenvolvimento, pouca atenção foi dada para os principais componentes da infra-estrutura. O tratamento adequado para a eliminação de resíduos foi amplamente negligenciado. Como resultado, os fabricantes e os moradores abusaram do rio, deixando o Citarum como um dos cursos de água mais poluídos do mundo.

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O rio Citarum tem uma relação com a humanidade que data do século IV d.C, quando o reino Tarumanagara se desenvolveu em suas margens. Os primeiros moradores contaram com a água para tudo, desde o banho à eliminação de resíduos. Durante séculos, as populações menores e a falta de indústria pesada influenciou para a falta de ameaça ecológica do rio.

A partir do século 20, o rio tornou-se um perigo significativo para a saúde. A alta no preço do combustível na década de 1970 obrigou as empresas a cortarem gastos. Identificar um trabalho mais barato foi a solução para as empresas melhorarem suas demonstrações de lucros. Uma opção era Java, uma das ilhas mais populosas do mundo, e uma região desesperadamente assolada pela pobreza. O recurso mais abundante da ilha era a mão de obra, o que era excesso de oferta e reduzia os custos. Isso atraiu a indústria para a Indonésia.

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A geografia da ilha fez com que o rio Citarum se tornasse uma escolha fácil para as empresas com considerações de exportação. Infelizmente, ele também era um veículo conveniente para a eliminação de resíduos e o súbito enriquecimento da região fez com que não se ressaltasse essa preservação das águas do rio.

O crescimento descontrolado da indústria tem abusado cada vez mais do rio Citarum. A qualidade da água se deteriora significativamente no exterior das fábricas, onde tubos de evacuação expelem uma mistura tóxica criando uma imagem assustadora e revoltante do rio.

Em outros lugares, massas de lixo flutuantes criam uma camada grossa de lixo sobre a superfície. Dejetos humanos se acumulam em piscinas insalubres ao longo da costa, disseminando doenças. Em alguns casos, os resíduos escondem completamente a água do rio. Se não fosse um barco navegando por meio do lixo, seria difícil encontrar a água embaixo.

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O povo indonésio são geralmente conscientes do perigo da água, mas muitos não têm a educação formal para entender as consequências a longo prazo. Aqueles que estão conscientes e dispostos a tomarem medidas corretivas não têm recursos para fazê-lo.

Ironicamente, os resíduos do rio também fornecem benefício para a comunidade: empresas de reciclagem percorrem o rio recolhendo o plástico e transformando em outros meios de rentabilidade.

No entanto, o impacto econômico negativo é muito maior. Fazendas ao longo do rio não têm escolha a não ser usar os fluxos contaminados como fonte de água para as culturas. Os grãos de arroz não crescem como deveriam no tempo da colheita e ainda possui uma desvalorização da agricultura dessa área por conta do rio.

Para isso, em 2008, o Banco Asiático de Desenvolvimento entrou em ação. O grupo anunciou um empréstimo de R$ 130 milhões para serem distribuídos ao longo dos próximos 15 anos com o intuito de limpar o rio. Além de limpar o Citarum, os fundos ajudariam a reeducar as comunidades locais sobre o cuidado adequado para a fonte de água preciosa. O banco espera inverter a tendência negativa ambiental, abordando tudo de poluição e saneamento para a população.

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Graças aos esforços do banco e a cooperação do governo local, o estado do rio Citarum melhorou. O progresso tem sido lento, mas constante; há uma melhora visível, mas ainda há muito trabalho a ser feito. Os detritos já não persistem em grandes áreas, mas as fábricas ao longo das margens ainda expelem resíduos tóxicos. O rio continua a servir como um repositório de excrementos humanos para as áreas de Java onde faltam sistemas de esgotos modernos. Enquanto o objetivo não for alcançado, passos positivos recentes dão a esperança de uma solução no futuro.

(Fonte: http://www.jornalciencia.com/)

Divestimento no clima

Artigo de Efraim Rodrigues*

 

A força mais poderosa do universo, de acordo com Luis Stuhlberger, são os 100 trilhões de dólares dos fundos mundiais de investimento.

Ele deve saber o que fala, é o gestor do fundo verde do Banco Credit Suisse.

A estratégia mais promissora para tentar resolver o problema do clima está exatamente nos fundos de investimento, conhecidos como o órgão mais sensível do homem.

Nesta semana, uma de minhas alma-mater, Harvard, decidiu não mais investir em empresas relacionadas a grandes emissões de carbono, como as petrolíferas. Os recursos que mantém Harvard são tão grandes, da ordem de 33 bilhões de dólares, que se ela vendesse tudo que possui destas empresas, poderia derrubar seu preço, causando perdas para si mesma. De toda forma, o simples passo de não colocar mais dinheiro nelas já estabelece um exemplo a ser seguido e as coloca na defensiva.

A Exxon, por exemplo, na internet se diz apoiando a iniciativa One trillionth (um medidor mundial da emissão de carbono, muito interessante), mas quando chega a hora de lidar com o órgão mais sensível do homem, diz a seus investidores que não terá dificuldades para usar o petróleo de que é proprietária, uma quantidade de carbono algumas vezes maior do que seria seguro emitir.

E se os investidores começarem a achar que este petróleo todo é mais problema do que solução? E se, não perdoem o trocadilho, Harvard fizer escola? E se os investidores acharem que gastar 100 milhões de dólares/dia para encontrar novas fontes de petróleo, que talvez nunca serão utilizadas é um gasto sem sentido?

Não foi fácil fazer a Exxon produzir um relatório de risco de carbono, na verdade ela é meio como o Pedrinho, quando faz coisa errada, sai com um “não quero falar disso” quando então precisa de alguma pressão para se pronunciar. No caso da Exxon, a pressão foi feita pelos investidores, e eles ingenuamente escolheram o dia 31 de março para divulgar seu relatório, o mesmo dia da divulgação do relatório do IPCC, que mostrou que a coisa vai piorar antes para os mais pobres, e que isto será uma fonte mundial de fome e instabilidade econômica e política.

E agora eu pergunto, será que quando o estômago ronca, o órgão mais sensível do homem ainda é o fundo de investimento?

*Efraim RodriguesPh.D., é Doutor pela Universidade de Harvard, Professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina. É professor visitante da UFPR, PUC-PR, UNEB – Paulo Afonso e Duke – EUA.

(Fonte: http://ambienteporinteiro-efraim.blogspot.com.br/)

ONU pede uma revolução energética contra o aquecimento climático

Por Mariette LE ROUX | AFP

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O mundo pode alcançar o objetivo de limitar a 2º celsius o aquecimento antes de 2050 se reduzir entre 40% e 70% suas emissões de gases de efeito estufa, especialmente no setor energético, afirmou neste domingo um grupo de especialistas das Nações Unidas.

Esta revolução energética requer o abandono de combustíveis fósseis poluentes e a utilização de fontes mais limpas para evitar o efeito estufa, que poderá provocar um aumento da temperatura do planeta entre 3,7ºC e 4,8ºC antes de 2100, um nível catastrófico, segundo os cientistas.

“Há uma clara mensagem da ciência: para evitar uma interferência perigosa com o sistema climático, temos que deixar de continuar operando igual”, explicou Ottmae Edenhofer, copresidente do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC) da ONU, que elaborou o documento.

“Reduzir o consumo de energia nos daria mais flexibilidade para escolher entre as tecnologias com pouca emissão de carbono, agora e no futuro”, indica o cientista Ramón Pichs-Madruga, um dos três copresidentes do grupo.

Para chegar ao objetivo de limitar o aquecimento a 2ºC antes de 2050 “existem muitos caminhos”, mas “todos requerem investimentos substanciais”, explicaram os especialistas no relatório.

Centenas de cientistas trabalharam no projeto da ONU. O IPCC publicou seu primeiro relatório em 2007, provocando um grande debate mundial.

Em 2011 as emissões de gases do efeito estufa foram de 430 ppm (partículas de CO2 por milhão), uma concentração considerada muito elevada.

Para manter esse número em até 450 ppm, seria preciso reduzir entre 40% e 70% as emissões atuais entre 2010 e 2050, até zerá-las em 2100.

Mas, mesmo com esse nível, a probabilidade de limitar a 2ºC o aumento da temperatura seria de 66%. É necessário, além de diminuir as emissões, “triplicar ou quase quadruplicar” o uso de fontes energéticas limpas ou nucleares.

Mudança em grande escala

Todas essas medidas supõem uma “mudança mundial em grande escala no setor de abastecimento energético”, e implicariam diminuir em 0,06% o consumo energético global.

A queda no consumo e na emissão de gases ainda teria consequências positivas para a saúde e para o impacto humano na natureza.

Entretanto, se os níveis de CO2 ficarem em 550 ppm em 2100, a possibilidade de chegar ao objetivo de reduzir o aumento na temperatura seria inferior a 50%.

Além disso, se a temperatura subir entre 0,3ºC e 4,8ºC, o nível do mar poderia aumentar entre 26 e 82 centímetros, afetando diretamente a vida nas áreas costeiras.

O informe não apresenta recomendações, mas sim uma lista de opção possíveis, e recorda que na última década as emissões de gases do efeito estufa aumentaram em 1 bilhão de toneladas a cada ano, por causa do crescimento econômico.

“Todos os esforços realizados até agora (…) não reduziram realmente as emissões”, explicou Youba Sokona, o terceiro copresidente do IPCC.

“Os desafios são grandes, mas ainda não é tarde demais para agir”, acrescentou.

A comunidade internacional fracassou em 2009, em uma reunião em Copenhague, em fixar objetivos de autorregulação.

Reação internacional

Em uma primeira reação ao documento, a comissária europeia para o Clima, Connie Hedegaard, pediu para que os Estados Unidos e a China, os países mais poluentes do mundo, se comprometam com a contra o aquecimento global.

“O informe do IPCC é claro, não há plano B. Só há o plano A, o da ação coletiva para reduzir as emissões imediatamente”, afirmou Hedegaard em um comunicado.

Ao anunciar que a União Europeia adotará esse ano um ambicioso programa de redução de suas emissões até 2030, questionou, em referência aos EUA e a China: “quando vocês, os grandes emissores, vão fazer o mesmo? Quanto mais tarde, pior, mais difícil será fazê-lo”.

Já o secretário de Estado americano, John Kerry, reagiu ao documento declarando que o combate ao aquecimento é uma questão de vontade, e não de capacidade.

“O informe diz muito claramente estamos frente a uma questão de vontade mundial, e não de capacidade”, ressaltou Kery em um comunicado, destacando que as já existem as tecnologias necessárias para proporcionar uma mudança e pedindo por mais investimentos no setor.

O relatório tem 2.000 páginas, e o resumo divulgado neste domingo foi aprovado depois de ser analisado e revisado por representantes governamentais e científicos reunidos em Berlim.

(Fonte: https://br.noticias.yahoo.com)

Sabemos o que fazer, mas quase nada fazemos

Artigo de Washington Novaes

Com um território equivalente à soma dos espaços da Espanha, Alemanha, França, Inglaterra e Itália, o cerrado é o segundo maior bioma brasileiro.

Com um território equivalente à soma dos espaços da Espanha, Alemanha, França, Inglaterra e Itália, o cerrado é o segundo maior bioma brasileiro.

Só pode ser bem-vinda a notícia de que o Departamento de Zoneamento Territorial do Ministério do Meio Ambiente está preparando um diagnóstico para o Cerrado e uma proposta de estratégia para esse bioma (Ministério do Meio Ambiente, 31/3). O Cerrado já perdeu mais de 50% de sua vegetação e, segundo estimativa de estudiosos, mais de metade da água acumulada no subsolo e que gera 14% dos fluxos para as três grandes bacias nacionais – a amazônica, a do Paraná e a do São Francisco. E pode perder mais, dizem técnicos, com a expansão da fronteira agropecuária, pressionada pela maior exportação de commodities, pelo aumento do consumo interno e pela expansão dos agrocombustíveis. Tudo isso resulta em ampliação do uso da terra e das taxas de desmatamento.

Pela mesma razão, é preciso que a sociedade esteja atenta para o que acontecerá no Senado na discussão de parecer do senador Blairo Maggi ao projeto de lei da Política de Gestão e Proteção do Bioma Pantanal – outra área já diante de agressões em curso e da possibilidade de que se permita ali a substituição de áreas preservadas por pastagens cultivadas, da possível supressão de reservas legais e dos efeitos danosos sobre os recursos hídricos. O Pantanal é um privilégio brasileiro, fundamental para o clima e a conservação da biodiversidade.

O último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado há poucos dias (Estado, 30/3), alerta exatamente para a vulnerabilidade de espécies terrestres e aquáticas, o risco de que tenham de migrar ou se extingam diante dos impactos do clima. E menciona especificamente a Amazônia brasileira, mas não apenas ela, embora lembre que no espaço amazônico estão estocados 90 bilhões de toneladas de carbono (na seca de 2005 foram liberados 5 bilhões de toneladas).

Outros estudos estão apontando para os impactos do clima nas populações de polinizadores, principalmente abelhas, das quais depende cerca de 10% da produção agrícola mundial, perto de US$ 212 bilhões anuais (30/3). Os polinizadores estão sendo afetados principalmente pelas mudanças no uso da terra, secas, inundações. Áreas particularmente atingidas são as de produção de verduras e frutas. E a perda da biodiversidade originária – estudo da Natura (17/3) – pode ser muito problemática, já que um hectare de palmeiras de dendê produz 200% mais óleo de palma do que um hectare de sistema agroflorestal. No mundo todo, afirma o economista indiano Pavan Sukhdev, o custo da perda da biodiversidade pode chegar a US$ 4,5 trilhões por ano.

Os dramas do clima e cenários soturnos não são para o fim do século, estão acontecendo agora em todos os continentes e oceanos – lembra texto de Giovana Girardi neste jornal (29/3). E podem desacelerar o crescimento econômico, dificultar a redução da pobreza e a segurança alimentar. O cientista José A. Marengo enfatiza a necessidade de correr com programas de adaptação – mas deixando claro que não há uma fórmula única, depende de cada lugar, de seus problemas e possibilidades específicas. Todavia já são evidentes os riscos de savanização de várias áreas.

O conservador e prudente jornal britânico The Guardian chega a discorrer sobre estudo do Centro Espacial Goddard, da Nasa, segundo o qual “a civilização industrial global pode entrar em colapso nas próximas décadas” por causa do “consumo insustentável de recursos e da distribuição desigual da renda” – cada vez maior. Não seria a primeira vez na História do mundo, observa o jornal, citando o desaparecimento de civilizações como as de Roma e da Mesopotâmia. Tecnologia, apenas, não resolverá. O desfecho, contudo, não é inevitável, “dependerá de políticas adequadas” (14/3).

Uma dessas políticas terá como missão encontrar formatos adequados para expandir em 60% a produção global de alimentos até 2050 sem ampliar os problemas da água (a agricultura já usa 70% do total), da desertificação (mais 60 mil km2 por ano), do consumo de recursos naturais acima (pelo menos 30%) da capacidade de reposição. Em outra área, diz o World Economic Forum que serão necessários investimentos anuais de US$ 6 trilhões, ao longo de quase duas décadas, para estabelecer uma “economia de baixo carbono”. Mas como se fará para eliminar, por exemplo, o subsídio ao consumo de combustíveis fósseis – petróleo, principalmente -, uma das fontes mais poluidoras?

Diz o governo brasileiro que em 2010 a redução do desmatamento no Brasil produziu uma queda de emissões maior que a do total dos países desenvolvidos. Isso foi consequência dos esforços para reduzir o pico do desmatamento na Amazônia. Porém ainda não chegamos a reduções mais fortes em outras áreas (transportes, indústria e agricultura, principalmente).

Um dos problemas está exatamente na falta de avanços na implantação do novo Código Florestal. E uma das questões mais fortes está em que, dois anos depois da nova legislação, ainda não se implementou o Cadastro Ambiental Rural (jornal Valor Econômico, 27/3), que permitiria identificar em cada propriedade áreas de preservação obrigatória da vegetação, reservas legais e desobediências à lei. Os decretos de regulamentação do novo código também estão parados. E com tudo isso, como afirmou o Valor, “o Código Florestal continua no papel”, embora haja 5,4 milhões de imóveis rurais no País.

Paralelamente, as unidades federais administradas pelo Instituto Chico Mendes não têm dinheiro para nada. O Brasil, segundo as Universidades Yale e de Columbia, está em 71.º lugar entre 178 países em termos de “ameaças à natureza” e proteção à saúde humana (Instituto Carbono Brasil, 29/1).

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, espera que os países cheguem a um acordo sobre o clima em setembro, mas não há nada concreto à vista. E o experiente Nicholas Stern, consultor do Reino Unido, alerta: “Sabemos o que está acontecendo. Mas nada fazemos” (UN News, 21/3).

(Fonte: http://www.estadao.com.br/)

Em defesa do IPCC

Artigo de Heitor Scalambrini Costa*

ipcc_postcardO Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em inglês) foi criado em 1988 pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Organização Metereológica Mundial (OMM), e se tornou uma das referências mais citadas nas discussões sobre mudança climática. Em 2007, o IPCC dividiu o premio Nobel da Paz com o ex-vice-presidente americano, Al Gore, pelo trabalho de ambos na conscientização da comunidade e das lideranças mundiais para o problema e as consequências da mudança climática.

O IPCC é um órgão composto por delegações de 130 governos para prover avaliações regulares sobre a mudança climática global. Sua criação se deu devido à percepção de que a ação humana poderia estar exercendo uma forte influência sobre o clima do planeta, sobretudo através da emissão de gases – como o dióxido de carbono (CO2), óxido nitroso (N2O) e metano (CH4), que causam o efeito estufa. Desde então, o IPCC tem publicado diversos documentos e pareceres técnicos.

Sem duvida, é um órgão que sofre pressões políticas – ingenuidade seria pensar o contrário. A pressão é mais percebida nos textos destinados aos formuladores de políticas públicas, enviados pelos países que são os maiores poluidores do planeta, e que detêm maior poderio econômico-militar. Todavia o IPCC procura manter o seu perfil científico.

Como não existe infalibilidade nas ciências, em particular em um tema de tal complexidade científica, como a da interpretação dos fenômenos climáticos e sua correlação causa-efeito, algumas das previsões mais alarmistas do IPCC, no passado, contribuíram para certo desgaste de sua reputação e prestígio. Como foi o caso das previsões, em 2007, do desaparecimento das geleiras do Himalaia. O IPCC aprendeu e, por sua vez, passou a adotar critérios mais exigentes para as asserções e previsões incluídas em seus relatórios e pareceres.

Lamentavelmente uma minoria (minoria mesmo) de técnicos, cientistas, políticos, com interesses escusos, tenta enxovalhar o trabalho do IPCC. Assim, causando danos não apenas ao IPCC, mas aos moradores do planeta Terra, visto que as questões levantadas (cientificamente duvidosas) acabam postergando as medidas de políticas públicas que precisam ser adotadas com urgência pelos governantes. O que pode ser um erro fatal para o planeta – erro causado por esses que maculam o trabalho do IPCC.

Na historia recente da humanidade, temos exemplos de graves danos à vida humana causados pela intervenção de ditos “cientistas”. O exemplo mais contundente foi a “polêmica” provocada na segunda metade do século passado com relação ao cigarro provocar ou não o câncer. Dúvidas “plantadas” por lobbies poderosos (através desses “cientistas”) sobre a relação de causa-efeito atrasaram a tomada de medidas concretas contra o cigarro – medidas que poderiam ter evitado a morte de milhões de pessoas em todo o mundo.

Por outro lado, exemplos mostram que podemos tomar decisões coletivas para preservar o planeta. O Protocolo de Montreal é um bom exemplo. Este tratado mundial, assinado em 1987, levou ao banimento dos clorofluorcarbonos (usados então nos compressores de geladeiras residenciais em todo o mundo), que reduzem a camada de ozônio e agravam para os seres humanos as consequências das radiações ultravioletas, causa principal do câncer de pele. O tratado também impediu uma maior concentração de poluentes na atmosfera e mudanças climáticas ainda mais graves.

Não se pode desmerecer o papel do IPCC e a repercussão de suas conclusões, as quais definitivamente colocaram a discussão da mudança climática entre as grandes questões mundiais e um dos principais temas da agenda política em diversos países.

A polêmica e a crítica são boas e necessárias. O que deve ser repudiado são as tentativas de desqualificar esse órgão de fundamental importância para a compreensão das mudanças no clima e para a tomada de decisões urgentes que assegurem que a vida continue no planeta como a conhecemos… Pois assim queremos que continue!

*Heitor Scalambrini Costa, Articulista do Portal EcoDebate, é Professor da Universidade Federal de Pernambuco.

(Fonte: http://www.ecodebate.com.br/)

Mudanças climáticas põem em risco segurança hídrica na América do Sul

Por Elton Alisson

Diminuição das chuvas e aumento da temperatura poderão causar impactos na geração de energia e na agricultura dos países da região, indica relatório do IPCC (foto:divulgação Usina Hidrelétrica de Mauá/AgB)

Diminuição das chuvas e aumento da temperatura poderão causar impactos na geração de energia e na agricultura dos países da região, indica relatório do IPCC (foto:divulgação Usina Hidrelétrica de Mauá/AgB)

As mudanças climáticas já observadas e as projetadas para as Américas do Sul e Central colocarão em risco a segurança hídrica das regiões e terão impactos diretos no abastecimento doméstico e industrial e em setores fortemente dependentes de água, como o de geração de energia hidrelétrica e a agricultura.

O alerta é do Relatório sobre Impactos, Adaptação e Vulnerabilidades às Mudanças Climáticas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), apresentado no dia 31 de março em Yokohama, no Japão, e em seguida no dia 1º de abril, na Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro.

O capítulo 27 do documento, que aborda as projeções das mudanças climáticas paras as Américas do Sul e Central, destaca que a vulnerabilidade atual de abastecimento de água nas zonas semiáridas das duas regiões e nos Andes tropicais deverá aumentar ainda mais por causa das mudanças climáticas. E o problema poderá ser agravado pela redução das geleiras andinas, pela diminuição de chuvas e pelo aumento da evapotranspiração nas regiões semiáridas das Américas do Sul e Central, previstos pelo IPCC.

Se essas previsões forem confirmadas, elas afetarão o abastecimento de água das grandes cidades e de pequenas comunidades nas duas regiões. Além disso, comprometerão a geração de energia hidrelétrica e a produção de alimentos, aponta o relatório.

“No fim das contas, os principais impactos das mudanças climáticas previstos para as Américas do Sul e Central estão relacionados com a água”, disse Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e um dos autores do capítulo 27 do relatório, durante a apresentação da publicação, no Rio de Janeiro.

“Todos os setores que dependem, de alguma forma, de água poderão ser afetados”, estimou Buckeridge. De acordo com o relatório, as Américas do Sul e Central contam com boa disponibilidade de água, mas o recurso hídrico é distribuído de forma desigual nas duas regiões.

O principal usuário de água nas Américas do Sul e Central é a agricultura, seguido pelo abastecimento dos 580 milhões de habitantes das duas regiões, excluídos os 14% que hoje nem sequer têm acesso ao recurso, aponta o documento.

Ainda de acordo com a publicação, a energia hidrelétrica é a principal fonte de energia renovável nas duas regiões, correspondendo a 60% de suas matrizes energéticas, enquanto em outras regiões essa contribuição é, em média, de 20%.

Como a projeção é de aumento de chuvas em algumas regiões do Brasil, os sistemas de energia hidrelétrica baseados principalmente no Rio Paraná poderão ter um ligeiro aumento na produção de energia.

No entanto, o restante do sistema hidrelétrico do país – especialmente os localizados no Nordeste – poderá enfrentar diminuição na geração de energia, comprometendo a confiabilidade de todo o sistema, aponta o relatório.

“Imagine se eventos climáticos extremos, como os períodos de seca combinados com altas temperaturas que ocorreram no início deste ano na região Sudeste do Brasil, também acontecerem eventualmente na região Sul do país. Eles poderiam afetar fortemente o funcionamento de usinas hidrelétricas como as de Itaipu”, disse Buckeridge à Agência FAPESP.

Impactos nos alimentos

Na agricultura, as mudanças climáticas previstas para as duas regiões poderão causar diferentes impactos na produção de alguns tipos de alimentos e na segurança alimentar das populações, indica o relatório.

Mesmo com a diminuição prevista da disponibilidade de água, a cana-de-açúcar e a soja são mais propensas a responder positivamente ao aumento das emissões de gás carbônico e às mudanças de temperatura e aumentar a produtividade e a produção.

No Nordeste do Brasil, contudo, deverá cair o rendimento de culturas de subsistência para a população da região, como feijão, milho e mandioca, e haverá redução de áreas atualmente favoráveis para o cultivo de feijão caupi.

E um aquecimento de 5,8 °C em 2100 (o pior dos cenários previstos) poderia tornar a colheita de café inviável em Minas Gerais e São Paulo – os dois maiores produtores do grão no Brasil.

“O que tem se observado em termos de impacto das mudanças climáticas na agricultura em regiões de latitudes médias e tropicais é que, à exceção da soja, haverá redução na produção principalmente de trigo, arroz e milho cultivados nessas regiões”, disse José Marengo, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e um dos autores do capítulo 27, durante o evento de lançamento no Rio de Janeiro.

“E essas culturas agrícolas compõem, basicamente, a cesta básica da maioria dos países em desenvolvimento”, afirmou.

O relatório pondera que, como resultado de taxas de crescimento mais elevadas e melhor eficiência do uso da água, algumas culturas nas Américas do Sul e Central, incluindo soja, feijão, milho e cana-de-açúcar, poderão até responder com uma produtividade cada vez maior.

A qualidade nutricional desses alimentos, no entanto, deve diminuir em razão do teor de açúcar mais elevado em grãos e frutas e a redução do teor de proteína em cereais e leguminosas, apontam pesquisadores da área.

“Estudos mais recentes demonstram que, com aumento de gás carbônico na atmosfera, as plantas crescem mais e ficam mais robustas. O teor de proteínas delas diminui, em média, 7% e isso gera uma queda na qualidade dos alimentos”, avaliou Buckeridge.

Algumas práticas de adaptação sugeridas pelo relatório do IPCC são avanços no melhoramento genético para o desenvolvimento de culturas agrícolas mais bem adaptadas a eventos climáticos extremos e para atender a demanda mundial por alimentos nas próximas décadas.

Segundo projeções do relatório, até 2040 será preciso aumentar, no mínimo, 70% a produção mundial de alimentos, e a América do Sul e a África são as únicas regiões no mundo que dispõem de terra agriculturável disponível para atender parte dessa demanda.

“Não terá como aumentar a produção da maioria das espécies de vegetais por meio da genética clássica”, disse Buckeridge. “Será preciso utilizar a biotecnologia para transformar as plantas de modo que produzam mais alimentos e sejam mais bem adaptadas às mudanças climáticas”, avaliou.

(Fonte: http://agencia.fapesp.br/)

Mudanças do clima reduzem produção de alimentos

Por Flávia Moraes

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Foto: Parker Knight

A agricultura não convive bem com fenômenos climáticos intensos. Secas e chuvas torrenciais são capazes de destruir a safra de uma cultura. Ao longo da história, a humanidade aprendeu a conviver com alguns eventos climáticos adversos. No entanto, esses eventos estão se modificando e isso afeta diretamente a produção de alimentos, fundamental para a sobrevivência dos mais de 7 bilhões de humanos que habitam a terra.

De acordo com o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC), divulgado na semana passada (31), as mudanças climáticas já estão afetando negativamente as produções de milho e trigo em diversas regiões do planeta.

O Programa de Pesquisa em Mudanças do Clima, Agricultura e Segurança Alimentar (CGIAR), uma parceria global que une organizações que pesquisam sobre segurança alimentar, analisou as previsões do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC) focando nos impactos que serão sentidos pelos pequenos agricultores , pecuaristas e pescadores.

Com base no documento do IPCC, o programa elaborou uma nota de revisão, na qual começa analisando o estado do clima em que nos encontramos hoje, depois segue para uma previsão de como será essa produção daqui há 15 anos e ainda olha para um possível estágio do planeta em 2050. Tudo isso focado em impactos na produção de alimentos.

Em relação ao Brasil, as principais previsões negativas estão focadas no Nordeste. Isso porque a expectativa é de que, nos próximos anos, a seca seja mais severa na região, o que vai afetar ainda mais a produção de alimentos e qualquer tentativa de pecuária. Como consequência, a baixa oferta de alimentos ocasionará o aumento nos preços. Confira abaixo os principais impactos no país e no mundo.

2010s

Os impactos das mudanças do clima não são homogeneamente distribuídos, já que as áreas tropicais do planeta são as mais expostas e também as que mais sofrem com o número de pessoas que já vivem em limites de insegurança alimentar.

O clima, que afeta a questão alimentar de todo o planeta, traz consequências mais severas às pessoas pobres, dificultando a disponibilidade de comida, o acesso à comida e a estabilidade do suprimento de alimentos ao longo do tempo.

Várias áreas agrícolas já sofrem com o impacto das mudanças do clima, como é possível constatar na produção de milho e trigo, por exemplo. Por outro lado, arroz e soja ainda não apresentaram nenhuma mudança drástica no seu rendimento.

Em regiões tropicais, como o Brasil, a pecuária já começa a sofrer ameaças, devido à sensibilidade à temperatura, à crise de água e a disponibilidade de alimentos para os animais (basicamente a falta de pastagem). Assim, economias locais, como o Nordeste do Brasil, já estão na lista de risco das mudanças do clima.

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2030s

A adaptação se torna cada vez mais importante, ao passo que as mudanças no clima vão se intensificando. No Nordeste do Brasil, por exemplo, a produção de milho vai sofrer uma queda de 10%, e as de arroz e trigo diminuirão 14%.

Se não houver qualquer tipo de adaptação, com o clima 1 grau Celsius acima das temperaturas pré-industriais, tanto as regiões tropicais quanto as temperadas irão sofrer com a diminuição da produção de milho, trigo e arroz.

Os problemas do aumento de temperatura também irão afetar drasticamente a pecuária, já que esses animais precisam de pastagem para se alimentar e não se sabe exato o impacto do calor nesse tipo de sistema, bastante complexo. Além disso, o estresse hídrico, previsto pela redução das chuvas, em regiões como o Nordeste brasileiro, também vão afetar o bem-estar desses animais.

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2050s

A partir de 2050, o relatório afirma que os impactos das mudanças do clima na segurança alimentar serão evidentes e são as regiões tropicais as que mais sofrerão, principalmente no que se refere aos pequenos produtores agrícolas, pecuaristas e pescadores.

O aumento do preço dos alimentos é outro fator de risco previsto, pois as mudanças na temperatura e no padrão de precipitação, mesmo ignorando os efeitos do aumento de dióxido de carbono na atmosfera, podem fazer os preços subirem de 3 a 84%, dependendo da região. Ao mesmo tempo, a demanda por comida está prevista para subir 14% por década, até 2050, devido ao crescimento populacional.

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IPCC: próximos capítulos

O relatório do IPCC consinte em três partes. O primeiro capítulo, lançado em outubro de 2013, tratou da parte física da ciência do clima.

O segundo capitulo, lançado no último dia 31, foi sobre impactos, adaptação e vulnerabilidade.

A última parte do relatório do IPCC, voltada para a questão da mitigação às mudanças do clima, está prevista para ser lançada na segunda quinzena deste mês. Nos próximos dias 7 a 12 de abril, os especialistas do IPCC estarão reunidos em Berlim, na Alemanha, para aprovar cada linha do novo conteúdo. O relatório completo, com os três capítulos, deve ser lançado em outubro deste ano, em Copenhagen, na Dinamarca.

(Fonte: http://www.oeco.org.br/)

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O relógio da Terra mostra-nos alguns dos impactos causados pelo Homem na Terra. As estatísticas nele apresentadas, que estão a ser actualizadas ao vivo, podem ser verificadas nos sites seguintes:


População mundial: US Census Bureau
Taxa de crescimento populacional: CIA World Factbook
População prisional: UK Homeoffice
Divórcios (apenas para os Estados Unidos): Wikipédia
Imigração ilegal nos Estados Unidos: Wikipédia
Abortos: Wikipédia
Mulheres que morrem durante procedimentos abortivos incorrectos: Organização Mundial de Saúde
Taxa de infecções por HIV: Avert
Taxa de incidência de cancro: UICC
Temperatura média da Terra: Wikipédia
Extinções de espécies: National Wildlife Federation
Produção de petróleo: CIA World Factbook
Produção de carros: Mation Master
Produção de bicicletas: Earth Policy
Produção de computadores: Top Secret
Estatísticas de mortalidade: Organização Mundial de Saúde