Desvendando mitos sobre o Cadastro Ambiental Rural

Vídeo produzido pelas redes: Observatório do Clima e  Observatório do Código Florestal

Fragmentação e degradação de habitats reduz a diversidade de Insetos Polinizadores

Por: Patricia Fachin

Apesar de a “crise de polinizadores” no Brasil ainda não ser comparável à situação desses insetos nos EUA e na Europa, “é preocupante que, ao longo de todo o país, adotemos práticas que são extremamente perigosas para esses insetos e que foram apontadas globalmente como as principais causas das crises de polinizadores”, adverte o biólogo Cássio Alencar Nunes, na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ele, embora os estudos sobre a diminuição de insetos polinizadores ainda sejam “incipientes” no Brasil, as pesquisas realizadas até o momento já evidenciam a diminuição de colmeias em estados como Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia.

Entre os fatores que têm contribuído para a redução dos insetos polinizadores, Nunes explica que a “fragmentação e degradação de habitats nativos e mudanças no uso do solo” e o uso de agrotóxicos têm reduzido “consideravelmente a diversidade e abundância de insetos polinizadores”. E aconselha: “Ainda temos tempo para agir antes desse desastre ocorrer no nosso país. A tendência atual de desmatamento e degradação dos habitats nativos e uso indiscriminado de agrotóxicos nos leva a pensar que, além de possível, essa crise de polinizadores é potencial! Mas, se agirmos rápido e com planejamentos a longo prazo, podemos evitá-la”.

Cássio Alencar Nunes é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, mestre em Ecologia, Conservação e Manejo da Vida Silvestre pela UFMG. Atualmente é doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ecologia Aplicada da Universidade Federal de Lavras – UFLA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – É possível identificar quais as causas relacionadas à diminuição da população de abelhas e insetos polinizadores no país?

Cássio Alencar Nunes – No Brasil, ainda são incipientes os estudos que comprovam a diminuição de insetos polinizadores de maneira que não local. Entretanto, é preocupante que, ao longo de todo o país, adotemos práticas que são extremamente perigosas para esses insetos e que foram apontadas globalmente como as principais causas das crises de polinizadores. Uma dessas práticas é a fragmentação e degradação de habitats nativos e mudanças no uso do solo. Alguns estudos já mostraram que em alguns locais no Brasil a fragmentação dos habitats reduz consideravelmente a diversidade e abundância de insetos polinizadores.

O nosso código florestal, que é a legislação que protege os habitats nativos no Brasil, foi recentemente alterado apesar das inúmeras advertências dos cientistas. Uma mudança que pode ser muito prejudicial, por exemplo, é a redução de 58% da necessidade de restauração de habitats nativos (de 50 para 21 milhões de hectares). A outra prática é o uso indiscriminado de agrotóxicos. O Brasil é o número um do mundo em consumo de agrotóxicos, o que chega a ser assustador. No meio dos agrotóxicos usados existem alguns que foram banidos em diversas partes do mundo, justamente por ter sido comprovado que estes causavam alterações significativas nas comunidades de abelhas.

IHU On-Line – Em quais regiões do Brasil já se evidencia uma diminuição da população de abelhas e insetos polinizadores?

Cássio Alencar Nunes – Existem alguns casos isolados já relatados ou estudados em algumas regiões do Brasil, nos estados de Santa Catarina, Minas Gerais, São Paulo, Rio Grande do Sul e Bahia. Ainda é preciso que mais estudos sejam feitos em todo o território nacional com o intuito de monitorar as populações e comunidades de insetos polinizadores para saber se e onde exatamente estão ocorrendo os declínios.

IHU On-Line – Quais são as consequências da diminuição dessas populações para a agricultura e para o meio ambiente em geral?

Cássio Alencar Nunes – Como esses insetos desempenham uma função ecossistêmica muito importante como é a polinização, a perda de espécies e diminuição das populações pode levar a uma série de problemas. Para o meio ambiente, a diminuição da polinização vai levar diretamente à diminuição da fertilidade das plantas que dependem desses agentes e indiretamente a uma cascata de efeitos para os organismos que dependem de alguma maneira das plantas afetadas. Assim, a perda ou diminuição dos insetos polinizadores leva a um desequilíbrio do ecossistema.

Para a agricultura, os efeitos diretos são semelhantes, ou seja, as culturas que dependem de polinizadores para produzir frutos, sementes e grãos terão a produtividade reduzida, o que indiretamente irá afetar a economia que gira em torno da agricultura. Especificamente falando de abelhas, a diminuição das populações afeta diretamente também a indústria de apicultura, diminuindo a produção de mel, própolis e outros produtos derivados.

IHU On-Line – Quais são os tipos de cultivos que mais dependem da polinização das abelhas e dos insetos polinizadores?

Cássio Alencar Nunes – As culturas que são mais dependentes são as de frutos em geral e algumas sementes. No Brasil, as culturas que mais dependem essencialmente do serviço de polinização são as de cacau, melão, maracujá, melancia. Outras culturas que também dependem em um alto grau dos polinizadores são maçã, abacate, café, guaraná, goiaba, pêssego, pera e tomate.

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IHU On-Line – Qual é a importância das áreas de mata nativa para a sobrevivência dos insetos polinizadores?

Cássio Alencar Nunes – As áreas de habitat nativo (dizemos habitat, porque pode não ser uma mata e sim um campo nativo ou um cerrado) podem atuar como fonte de alimento (pólen e néctar) para os agentes polinizadores, principalmente nos períodos entre safras. Além disso, os habitats nativos fornecem áreas para descanso, refúgio e reprodução dos polinizadores.

IHU On-Line – O que poderia ser feito para evitar a diminuição dos insetos polinizadores?

Cássio Alencar Nunes – Num artigo recente, nós discutimos três estratégias principais para evitar a crise de polinizadores no Brasil; todas de longo prazo. A primeira e mais importante é a manutenção de uma certa quantidade de habitat nativo na paisagem agrícola. As áreas nativas são fontes de abrigo e alimento para grande parte dos polinizadores que são úteis para a cultura agrícola. A segunda medida seria a redução ou o uso menos indiscriminado de agrotóxicos, já que estes químicos têm grande potencial de reduzir a diversidade, abundância e eficiência de insetos polinizadores, além de poluir os ecossistemas. Neste caso dos agrotóxicos, a pesquisa sobre químicos que sejam eficientes contra as pragas específicas e que não afetem a comunidade biológica como um todo, é uma boa ideia também. A terceira estratégia é a de monitorar continuamente as comunidades de polinizadores ao longo de todo o território nacional com métodos padronizados.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Cássio Alencar Nunes – Apenas dizer que a crise de polinizadores ainda não é forte no Brasil como é na Europa e nos EUA, então ainda temos tempo para agir antes desse desastre ocorrer no nosso país. A tendência atual de desmatamento e degradação dos habitats nativos e uso indiscriminado de agrotóxicos nos leva a pensar que, além de possível, essa crise de polinizadores é potencial! Mas, se agirmos rápido e com planejamentos a longo prazo, podemos evitá-la.

(Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/)

Ser Humano: Maior Espécie Invasora

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves*

“O ser humano é um ectoparasita que está matando o seu hospedeiro”
Alves (28/09/2016)

“Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo de
um por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento”
Patterson (07/05/2014)

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Em 2012, escrevi um artigo provocativo no Portal Ecodebate perguntando se a expansão do ser humano por todos os cantos e espaços do Planeta poderia ser considerada uma atividade semelhante ao que acontece na biologia com as espécies invasoras.

A ideia do conflito irreconciliável e antagônico entre o ser humano e a natureza não é nova. Diversos autores já trataram a humanidade como um câncer, uma praga ou erva daninha que ataca a biodiversidade da Terra. Por exemplo, o grande ambientalista David Attenborough disse: “Somos uma praga sobre a Terra. Não é apenas a mudança climática; é o espaço absoluto, lugares para cultivar alimentos para esta enorme horda. Ou nós limitamos o nosso crescimento populacional ou o mundo natural fará isso por nós. Aliás o mundo natural já começou a fazer isso para nós agora”.

Na mesma linha, o filósofo britânico John Gray, em entrevista à revista Época (29/05/2006), apresenta um prognóstico pessimista sobre a humanidade: “A espécie humana expandiu-se a tal ponto que ameaça a existência dos outros seres. Tornou-se uma praga que destrói e ameaça o equilíbrio do planeta. E a Terra reagiu. O processo de eliminação da humanidade já está em curso e, a meu ver, é inevitável. Vai se dar pela combinação do agravamento do efeito estufa com desastres climáticos e a escassez de recursos. A boa notícia é que, livre do homem, o planeta poderá se recuperar e seguir seu curso”.

Também o Dr. David Suzuki (2016) considera que os seres humanos estão no topo dos predadores do mundo. Predação é uma função natural importante. Mas como a população humana cresceu, passou a influir na dinâmica dos ecossistemas rompendo os equilíbrios naturais. Ele diz que precisamos parar de procurar bodes expiatórios e olhar no espelho e perceber que a principal causa do declínio das espécies são o agigantamento das atividades antrópicas.

Agora em abril de 2016, a revista Nature publicou o texto “Post-invasion demography of prehistoric humans in South America” (GOLDBERG, et. al. 2016) que trata da “invasão” humana na América do Sul. O texto reconstrói os padrões espaço-temporais de crescimento da população humana na América do Sul, usando um banco de dados recém-agregados de 1.147 sítios arqueológicos e 5.464 datações calibradas abrangendo quatorze mil a dois mil anos atrás. Demonstra que, em vez de uma expansão exponencial constante, a história demográfica dos sul-americanos é caracterizada por duas fases distintas. Em primeiro lugar, os humanos se espalharam rapidamente por todo o continente desde 14 mil anos, mas manteve-se com população baixa até 8.000 anos atrás, incluindo um período de oscilações (boom and bust) sem crescimento líquido por 4.000 anos. Só com sedentarismo generalizado a partir de 5,5 mil anos atrás houve uma segunda fase demográfica de crescimento exponencial da população. A capacidade da humanidade para modificar seu ambiente e para aumentar acentuadamente a capacidade de carga na América do Sul é, portanto, um fenômeno recente.

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O estudo estabelece uma base para a compreensão de como os seres humanos contribuíram para a maior extinção do Pleistoceno de grandes mamíferos, como preguiças, cavalos e criaturas chamadas gomphotheres. Em seguida, o estudo considera que, de acordo com outras espécies invasoras, os seres humanos parecem ter sido submetidos a um declínio da população, consistente com a ideia da sobre-exploração dos recursos naturais. Mas com o surgimento de sociedades sedentárias houve novamente crescimento exponencial da população.

Hoje em dia parece que o crescimento populacional ultrapassou a capacidade de carga novamente. A pergunta que fica é se os avanços tecnológicos serão capazes de superar os limites da capacidade de carga ou se a pressão das atividades antrópicas vai provocar uma grande extinção em massa das espécies endêmicas e dos demais seres vivos do Planeta.

O artigo publicado na revista PLoS Biology, em agosto de 2016, estima que o mundo natural contém cerca de 8,7 milhões de espécies. Mas a grande maioria ainda não foi identificada. Os autores alertam que muitas espécies serão extintas antes que possam ser estudadas.

As estatísticas mostram que as áreas de proteção ambiental cobrem apenas 20 milhões de quilômetros quadrados, ou cerca de 15% do planeta, número que está abaixo das Metas de Aichi de Biodiversidade, adotadas por mais de 190 países em 2010, que prevê 17% de cobertura em 2020. As Metas de Aichi são consideradas o maior acordo global sobre biodiversidade em nível mundial e estão voltadas à redução da perda da biodiversidade, em todo o planeta. Reunidas em cinco objetivos estratégicos, as 20 Metas de Aichi são assim chamadas, pois foram definidas durante a 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP-10), realizada em Nagoya, Província de Aichi, Japão. No entanto, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), as conquistas em número e tamanho têm de ser acompanhadas de melhoras em sua qualidade, com a proteção de lugares com maior diversidade biológica.

Nos últimos 20 anos, o mundo perdeu 3,3 milhões de quilômetros quadrados, ou quase 10%, das suas áreas de natureza não domesticada, isto é, regiões praticamente intocadas pela ação humana, segundo cálculo do periódico científico “Current Biology”. Trata-se de uma perda catastrófica da vida selvagem. Em artigo publicado na revista Science, o biólogo americano Samuel Wasser mostra que cerca de 50 mil elefantes africanos são caçados por criminosos a cada ano, para uma população de 500 000 indivíduos. Uma taxa de 10% ao ano pode levar rapidamente à extinção da espécie.

Para mudar este quadro, o biólogo Edward Osborne Wilson acredita que o ser humano está provocando um “holocausto biológico” e para evitar a “extinção em massa de espécies”, ele propõe uma estratégia para destinar METADE DO PLANETA exclusivamente para a proteção dos animais. No livro O futuro da Vida, Osborne faz uma defesa da incrível diversidade de espécies que o Homo sapiens está destruindo antes mesmo de ter acumulado conhecimento sobre elas.

Como diz matéria da France Presse (06/11/2014): “O ser humano é, por excelência, a espécie mais invasora do planeta. Surgiu na África e se expandiu, modificando todos os ecossistemas”. É uma espécie autoinvasora, pois as migrações são seguidas de dominação e destruição.

A mesma conclusão é apresentada em interessante artigo de Fábio Olmos, em O Eco (19/09/2016) que mostra como a dominação do Planeta pelo Homo Sapiens provocou a extinção de inúmeras espécies nos últimos 50 mil anos. Ele sintetiza o artigo: “Uma conclusão é que somos a mais destruidora dentre as espécies exóticas e invasoras, embora não nos listem no catálogo oficial das espécies-praga danosas à biodiversidade”.

Portanto, se não tomar cuidado, a humanidade pode ser vítima de seu próprio sucesso, podendo fracassar devido ao retrocesso das demais espécies, como as abelhas que são fundamentais para a polinização e a produção de alimentos no mundo. O parasitismo humano está matando o hospedeiro e provocando um holocausto biológico. O invasor parasitário geralmente fracassa quando o egoísmo predomina sobre o altruísmo e se adota uma solução de terra arrasada.

Referencias:

ALVES, JED. Ser humano: espécie invasora? Ecodebate, RJ, 25/07/2016

ALVES, JED. Planeta sitiado, #Colabora, RJ, 07/06/2016

ALVES, JED. Mundo cheio e decrescimento, Ecodebate, RJ, 03/06/2016

ALVES, JED. O mundo com 10 bilhões de habitantes em 2053, Ecodebate, RJ, 28/09/2016

WILSON, Edward O. O futuro da vida: um estudo da biosfera para a proteção de todas as espécies, inclusive a humana. Rio de Janeiro: Campus, 2002

ATTENBOROUGH, David. Humans are plague on Earth, The Telegraph, 22/01/2013

France Presse. Avanço de espécies invasoras ameaça biodiversidade no planeta, G1, O Globo, RJ, 06/11/2014

GOLDBERG, Amy, MYCHAJLIW, Alexis M. HADLY, Elizabeth A. Post-invasion demography of prehistoric humans in South America, Nature, 06/04/2016

PATTERSON, Ron. Of Fossil Fuels and Human Destiny, May 7, 2014

Dr. David Suzuki. The Planet’s Most Dangerous Predator Is Us, EcoWatch, Sep. 13, 2016

BBC. Monsters We Met – Episode 1 – The Eternal Frontier, 2013

Fabio Olmos. Humanos, a espécie invasora suprema, O Eco, 19/09/2016

Richard Black. Species count put at 8.7 million, BBC News, 23 August 2011

  • José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE.

(Fonte: https://www.ecodebate.com.br)

TRF1 aprova proteção a 475 espécies aquáticas ameaçadas. Captura fica proibida

A lista de espécies aquáticas ameaçadas de extinção volta a vigorar, protegendo 475 peixes e invertebrados marinhos e de água-doce, incluindo tubarões, raias e garoupas, entre outros. A decisão é do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1).

A vigência da lista, estabelecida pela Portaria 445/2014 do Ministério do Meio Ambiente (MMA), estava suspensa por decisão liminar. Agora, a proibição da exploração dessas espécies volta a valer até que o tribunal julgue o mérito da ação.

“No cenário atual, em que os barcos pescam sem limitação, sem monitoramento ou manejo e fiscalização adequada, a Portaria 445 é absolutamente fundamental para garantir um mínimo de proteção a essas espécies que estão claramente ameaçadas de extinção”, avaliou a diretora-geral da OCEANA, bióloga Monica Peres.

A Portaria do MMA estabelece que as 475 espécies “ficam protegidas de modo integral, incluindo, entre outras medidas, a proibição de captura, transporte, armazenamento, guarda, manejo, beneficiamento e comercialização”. A proibição não se aplica a exemplares reproduzidos em cativeiro.

A partir de 1º de março fica proibida a pesca do guaiamum

A partir de 1º de março fica proibida a pesca do guaiamum

Um grupo de 14 espécies de interesse comercial ainda fica liberado para a pesca por pouco mais de dois meses (até 1 de março de 2017). Entre eles, estão a gurijuba (Sciades parkeri), o bagre-branco (Genidens barbus), o pargo-rosa (Lutjanus purpureus) vários peixes-papagaios e o guaiamum (Cardisoma guanhumi).

As espécies ameaçadas são classificadas, na portaria, em três níveis de ameaça: criticamente em perigo, em perigo e vulnerável. Para as espécies classificadas como vulnerável, menos de 200, poderá ser permitido o uso sustentável, “desde que regulamentado e autorizado pelos órgãos federais competentes”.

Segundo Monica Peres, “Agora o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e o Ministério do Meio Ambiente (MMA) vão ter que trabalhar com urgência para elaborar essas regulamentações. Na prática, teremos 461 espécies proibidas hoje e 475 espécies protegidas a partir de março. Nós, da OCEANA, esperamos que os ministérios façam isso com adequada base científica e consultas à sociedade”.

A bióloga reforça que a proteção dessas espécies só vai ser efetiva quando tivermos planos de recuperação para as sobrepescadas e planos de gestão para as pescarias. Esses planos devem prever monitoramento e análise de dados, formulação e implementação de normas e fiscalização. “Acredito que a 445 vai trazer o setor pesqueiro para a discussão da retomada da gestão da pesca no Brasil”, disse.

A lista foi definida após cinco anos de trabalho que, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), envolveu 1.400 cientistas e 200 instituições de pesquisa. Poucos meses depois, em março de 2015, o Conselho Nacional de Pesca e Aquicultura (CONEPE), a Federação Nacional dos Engenheiros de Pesca do Brasil (FAEP-BR) e a Confederação Nacional dos Pescadores e Aquicultores (CNPA) solicitaram a declaração da nulidade da Portaria. Argumentaram que ela não poderia ter sido publicada de forma unilateral pelo MMA, sem a participação do extinto Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), hoje incorporado ao MAPA.

O caso foi julgado pela 6ª Turma do TRF1, tendo como relator o desembargador Jirair Meguerian. O que estava em julgamento agora era se a portaria ficava suspensa ou vigorava até o julgamento do mérito. O pedido para liberar a vigência foi feito pela União, por meio da AGU, com parecer favorável do Ministério Público Federal (MPF).

A vigência efetiva da portaria e a proibição de captura das espécies só depende, agora, da publicação da decisão do TRF1 no Diário Oficial da Justiça, o que ainda não tem prazo definido.

(Fonte: http://brasil.oceana.org/)

Bem-Vindo ao Antropoceno

Por Eduardo Araia

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Se a história geológica da Terra fosse condensada nas 24 horas de um dia, o homem moderno só surgiria quando faltassem três segundos para a meia-noite. À primeira vista seria um obscuro coadjuvante numa movimentada trama de mais de 4,5 bilhões de anos. Mas esse modesto personagem revolucionou o seu roteiro: sobreviveu a glaciações, espalhou-se da África para outros continentes, tomou conta do mundo e interferiu em praticamente todos os ecossistemas.

Sua influência hoje é tamanha que já se discute se o Homo sapiens merece uma época geológica só para si, o Antropoceno – a “idade recente do homem”. Se confirmada, a era dos impactos humanos poria o antropoide de 200 mil anos numa dimensão geofísica comparável à dos asteroides que dizimaram a vida terrestre ou à dos supervulcões cujas erupções cobriram de nuvens os céus do planeta.

Este é um debate que promete render. De um lado há cientistas mais conservadores, para quem o homem, por mais impactantes que sejam os seus feitos, não passa de uma poeira cósmica que ainda não deixou marca registrada no solo terrestre, aquela que, daqui a milhares ou milhões de anos, permitiria a um geólogo alienígena concluir, sem sombra de dúvida, que nossa raça habitou este planeta.

Do outro lado, há um contingente apreciável de acadêmicos preocupados com o futuro e com a rapidez das transformações do planeta, que não se importam em rever conceitos. Muitos estratígrafos – geólogos especializados no estudo da formação e disposição dos terrenos estratificados (aqueles que se apresentam em camadas sucessivas) – têm demonstrado abertura para o tema. Um dos mais destacados é o inglês Jan Zalasiewicz, da Universidade de Leicester, para quem, se o termo já é usado por geólogos e ecologistas, merece ter uma definição aceita.

Fração de Segundo

A história geológica da Terra se estende por 4,5 bilhões de anos e quatro grandes divisões, ou éons: Hadeano, Arqueano, Proterozoico e Fanerozoico (o atual). Cada éon subdivide-se em eras. O éon Fanerozoico (com 543 milhões de anos) tem três: Paleozoico (A), Mesozoico (B) e Cenozoico (C). As eras são divididas em períodos. A atual era Cenozoica (65 milhões de anos), tem dois: o Paleogeno (D) e o Neogeno (E). Os períodos, por sua vez, dividem-se em épocas. O nosso período Neogeno (de 23 milhões de anos) possui quatro épocas, por enquanto: o Mioceno, o Plioceno, o Pleistoceno e o Holoceno (iniciado há 12 mil anos). O Antropoceno – a idade recente do homem – seria uma quinta época. Apenas um ponto na linha do tempo.

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“O Antropoceno é significativo em muitos níveis”, afirmou Zalasiewicz à PLANETA. “Em termos geológicos, ele representa a propagação global de fenômenos que não haviam sido vistos antes na história de 4,5 bilhões de anos do planeta, e cujos efeitos, em muitos casos, vão durar milhões de anos. O conceito reflete a interação de nossa própria espécie com o planeta e nos permite considerar as consequências de nossas ações coletivas no contexto do ‘tempo profundo’ da história da Terra. Por isso, pode tornar-se um fator importante das tentativas socioeconômicas, legais, políticas e filosóficas para controlar coletivamente o nosso impacto no planeta.”

“O conceito do Antropoceno reflete a interação de nossa própria espécie com o planeta e nos permite considerar as consequências de nossas ações coletivas no contexto do ‘tempo profundo’ da história da Terra.”

Jan Zalasiewicz, geólogo

Zalasiewicz começou a ser atraído para o assunto ao perceber a disseminação que a palavra Antropoceno ganha, rapidamente, no meio acadêmico. Em 2007, quando presidia a Comissão de Estratigrafia da Sociedade Geológica de Londres, ele perguntou a 22 colegas presentes num encontro sua opinião sobre o termo. O resultado não deixou dúvidas: 21 consideraram o conceito válido.

Evidências Colhidas

Cientistas reunidos em um encontro na Sociedade Geológica de Londres, em maio passado, compilaram indicadores que tornam plausível a ideia de uma “idade do homem”.

Paisagem alterada De acordo com o geógrafo Erle Ellis, da Universidade de Maryland (EUA), a humanidade já remodelou mais de 75% da superfície do planeta. As áreas de natureza intocada correspondem a apenas 23%. O restante engloba terras cultiváveis, lugares povoados e áreas industriais.

Mudança climática A interferência humana no clima vai alterar a terra, os mares e a atmosfera por milhares de anos, segundo o climatologista australiano Will Steffens. Isso vai acarretar uma acidificação de longo prazo dos oceanos por conta do dióxido de carbono, a qual terá impacto duradouro na formação de rochas no leito marinho.

Solos transformados Represas, mineração, erosão e urbanização já alteraram os solos de forma substancial, diz o geólogo norte-americano James Syvitski, da Universidade do Colorado em Boulder. A retenção de vastas quantidades de sedimentos em represas, por exemplo, diminui a sedimentação em regiões litorâneas.

Mudanças biológicas O homem está abrindo caminho para uma ampla extinção de espécies ao destruir florestas e contribuir para o aquecimento global. Também está criando novas formas de vida, na agricultura e na biotecnologia. A agricultura e os meios de transporte levam organismos antes restritos a determinadas regiões para outros cantos do mundo. Tudo isso será perceptível para os geólogos do futuro a partir dos fósseis de nossa época.

Zalasiewicz comanda hoje o Grupo de Trabalho do Antropoceno na Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS, na sigla em inglês), cuja missão é avaliar se a época proposta possui de fato méritos para fazer parte da cronologia geológica. O grupo reúne “uma ampla diversidade de cientistas e pessoas que atuam em humanidades”, diz o geólogo, e está reunindo evidências para apresentar à comissão. A decisão final sairá das conclusões dos membros da ICS e do organismo que o abriga, a União Internacional de Ciências Geológicas.

“Antes eu pensava no começo da Revolução Industrial como o marco inicial do Antropoceno. Mas estou começando a inclinar-me para o estabelecimento desse marco na Segunda Guerra Mundial.”

Paul Crutzen, químico

Embora alguns jornais e revistas importantes tenham indicado o 34º Congresso Internacional de Geologia (ICG, na sigla em inglês), em agosto de 2012, em Brisbane, na Austrália, como um marco decisivo no debate, os cientistas advertem para não se esperar novidades importantes sobre o tema na ocasião. Os geólogos são uma comunidade cautelosa de cientistas, compreensivelmente recalcitrante para reconhecer como mudança consolidada algo que, em termos geológicos, ainda está na incubadeira.

Para alguns cientistas, o Antropoceno ainda nem começou. Em termos estratigráficos, ele só ficaria mais patente nas próximas décadas, com o aumento considerável no nível do mar, por exemplo. “Brisbane é prematuro para nós”, avalia Zalasiewicz. “Temos o objetivo de montar uma proposta para a ICG seguinte, no prazo de cinco anos. Fazer alterações na Escala de Tempo Geológico é um processo lento e cuidadoso, devido ao papel fundamental da Escala de Tempo para a geologia. O Antropoceno é, em muitos aspectos, uma questão mais complexa do que a consideração de intervalos anteriores do tempo geológico.”

O surgimento da agricultura foi responsável por desmatamentos e maior emissão de CO2 no ar.

Seja qual for o resultado do processo, é inegável que o termo já entrou para o glossário científico. Cunhado na década de 1980 pelo biólogo norte-americano Eugene Stoermer, o conceito começou a ser popularizado em 2000 pelo químico holandês Paul Crutzen. Vencedor do prêmio Nobel de 1995, pela descoberta dos efeitos danosos de compostos na camada de ozônio, Crutzen assistia a um simpósio no México no qual seu presidente referia-se várias vezes à presente época geológica, o Holoceno, iniciada há cerca de 12 mil anos, com o fim da última glaciação. Incomodado com a recorrência no uso do termo, o químico não resistiu e pediu a palavra: “Precisamos parar com essa história. O Holoceno já ficou para trás. Agora estamos no Antropoceno!”

No intervalo para o café sua intervenção já era o assunto mais comentado, sinal de que a ideia ressoava no meio científico. Em 2002, o holandês desenvolveu o conceito em um artigo publicado na revista científica Nature e com isso pesquisadores de diversas disciplinas passaram a utilizá-lo. Não demorou muito para a palavra se tornar comum em órgãos de divulgação científica.

Uma vez que se aceite o Antropoceno como época geológica, é necessário definir quando o período começou. Ao divulgar o termo, Crutzen pensava inicialmente no início da Revolução Industrial, em meados do século 18, quando os níveis de gás carbônico começaram a se acumular na atmosfera, uma alteração confirmada por amostras de núcleos de gelo. A maioria das pessoas que usa a palavra adota esse ponto de vista, mas o próprio Crutzen está revendo a ideia. “Estou começando a inclinar-me para o estabelecimento do marco na Segunda Guerra Mundial”, o início da era nuclear”, disse à PLANETA.

Para o paleoclimatologista norte-americano William Ruddiman, da Universidade da Virgínia, o começo do período deveria ser estabelecido bem antes: no início do Holoceno. Ele lembra que a agricultura se disseminou há cerca de 8 mil anos, desflorestando várias regiões do planeta, gerando um incremento de gás carbônico na atmosfera capaz de evitar uma nova idade do gelo. Outros cientistas consideram que o Antropoceno deveria ser datado em meados do século 20, quando se iniciou uma acelerada expansão do crescimento demográfico e do consumo dos recursos naturais.

As indefinições não impedem que a expressão se espalhe. Alguns cientistas e pensadores veem nela uma espécie de sinal de arrogância da raça, reveladora do fato de que “possuímos” a Terra e a estamos exaurindo – um exemplo da hybris (soberba) da mitologia grega, cuja punição divina era fazer o pecador voltar aos limites que havia transgredido. No geral, a palavra Antropoceno é usada como um imenso sinal amarelo no que se refere aos impactos humanos sobre nossa morada planetária. Crutzen já declarou que esperava que a disseminação do termo fosse “um alerta para o mundo”.

As atividades de mineração alteram fortemente os solos em que estão localizadas.

“Inauguramos uma guerra total contra Gaia”, diz à PLANETA o teólogo Leonardo Boff. “Ela precisa de um ano e meio para repor o que o ser humano lhe rouba num ano. Se não contivermos esse movimento, ele poderá nos levar a um caminho sem retorno, numa Terra devastada, coberta de cadáveres e com parca vitalidade. Nessa guerra, não temos chance de ganhar. A Terra não precisa de nós; nós, sim, precisamos da Terra. Ela pode continuar sem nós até que surja um ser complexo capaz de suportar a consciência, o espírito e a inteligência.”

Recentemente, a revista Nature defendeu em editorial a adoção do termo Antropoceno como uma oportunidade para fazer os seres humanos reformularem seu papel na Terra: “O conceito encorajaria uma atitude mental que será importante não apenas para entender por completo a transformação que está ocorrendo agora, mas para agir a fim de controlá-la.”

Zalasiewicz e Crutzen salientam que a validação formal dos geólogos teria o poder de ajudar a integrar as discussões sobre o papel da humanidade nas várias disciplinas científicas. Essa nova postura, permeada por uma consciência ética sobre o convívio com o planeta, pode resultar na reformulação necessária. Trata-se, no entanto, de uma tarefa indigesta, politicamente complicada, que exige mudanças nos modos de produção e consumo cujas dificuldades aumentam ainda mais em tempos de crise econômica como a atual.

“Os princípios de responsabilidade e de cuidado são axiais para um novo rumo civilizatório global”, observa Boff. “Mas essa consciência ainda não chegou aos tomadores de consciência. Talvez só chegue quando se realizar o que Hegel prognosticou: ‘O ser humano aprende da história que não aprende nada da história; mas aprende tudo do sofrimento.’ Quando a crise global atingir a pele de todos, todos darão o máximo de si para salvar-se, porque esse é o instinto de vida, mais forte do que o instinto de morte.

“Gaia precisa de um ano e meio para repor o que o homem lhe rouba num ano. Se não contivermos esse movimento, ela poderá nos levar a um caminho sem volta. Nessa guerra, não temos chance de ganhar.”

Leonardo Boff, teólogo

(Fonte: http://www.revistaplaneta.com.br/)

 

TAMBÉM SOMOS CONTRA

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Banco Mundial: serão necessários 3 planetas para manter atual estilo de vida da humanidade

Se a população global de fato chegar a 9,6 bilhões em 2050, serão necessários quase três planetas Terra para proporcionar os recursos naturais necessários a fim de manter o atual estilo de vida da humanidade, lembrou o Banco Mundial. A voracidade com que se consomem tais recursos fez as Nações Unidas incluírem o consumo em sua discussão sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030.

O nosso consumo global já é 1,5 maior que a capacidade da Terra de aguentar. Foto: Flickr/woodleywonderworks (CC)

O nosso consumo global já é 1,5 maior que a capacidade da Terra de aguentar. Foto: Flickr/woodleywonderworks (CC)

Se a população global de fato chegar a 9,6 bilhões em 2050, serão necessários quase três planetas Terra para proporcionar os recursos naturais necessários a fim de manter o atual estilo de vida da humanidade, segundo o Banco Mundial. A voracidade com que se utiliza tais recursos fez as Nações Unidas incluírem o consumo em sua discussão sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para 2030.

A meta número 12 dos ODS não poupa os países desenvolvidos nem as nações em desenvolvimento. Insta todos a diminuir o desperdício de alimentos — um terço deles é jogado fora anualmente —, repensar os subsídios aos combustíveis fósseis e reduzir a quantidade de resíduos lançados sem tratamento no meio ambiente, entre outras tarefas urgentes.

A América Latina e o Caribe têm desafios importantes a cumprir em relação a esses e outros quesitos. Atualmente, a região joga fora 15% da comida que produz. Conseguiu diminuir de 1% para 0,68% o percentual do Produto Interno Bruto (PIB) gasto em subsídios para os combustíveis fósseis entre 2013 e 2015, mas alguns países ainda dedicam cerca de 10% do PIB a eles. Finalmente, cada latino-americano produz até 14kg de lixo por dia, dos quais 90% poderiam ser reciclados ou transformados em combustível caso fossem separados por origem.

Conheça a seguir quatro metas de consumo sustentável que valem para a região e para todo o mundo até 2030.

Reduzir à metade o desperdício mundial de alimentos per capita na venda a varejo

Estima-se que a cada ano cerca de um terço dos alimentos produzidos — o equivalente a 1,3 bilhão de toneladas, avaliadas em cerca de US$ 1 trilhão — acaba apodrecendo no lixo dos consumidores ou dos varejistas, ou estraga devido a métodos ineficientes de coleta e transporte.

A degradação e queda de fertilidade dos solos, o uso insustentável da água e a pesca excessiva estão reduzindo a quantidade de recursos naturais disponíveis para produção de alimentos. Por isso, é essencial não só pensar em formas de preservar e recuperar tais recursos, mas também de reduzir o desperdício para alimentar as 8,3 bilhões de pessoas que o planeta deverá ter até 2030.

Alcançar uma gestão sustentável e uso eficiente dos recursos naturais

A voracidade com que os recursos naturais estão sendo usados fica clara quando se observam alguns números relativos a consumo de energia. Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar. Todo o resto foi gerado com petróleo, carvão, gás natural e urânio.

E quais setores avançam mais rapidamente no consumo de energia? Em primeiro lugar, o de transportes: até 2020, o transporte aéreo global deve triplicar, enquanto as distâncias percorridas pelos carros aumentarão 40%. Já o uso de energia para comércios e residências fica em segundo. A boa notícia é que as medidas para poupar podem facilmente começar dentro de casa.

Segundo estimativas das Nações Unidas, se toda a população mundial começasse a usar lâmpadas de baixo consumo, seria possível economizar US$ 120 bilhões anualmente. Em 2013, apenas um quinto da energia utilizada no mundo veio de fontes renováveis, como água, vento e luz solar.

Racionalizar os subsídios aos combustíveis fósseis

Segundo o estudo Indicadores de Desenvolvimento Global (WDI), do Banco Mundial, os países mais ricos do mundo são os que mais gastam com subsídios ao petróleo, carvão e gás natural (quase 14% do PIB).

Depois, vêm as economias de renda média-baixa, que incluem países da América Central como Guatemala e Nicarágua e gastam em média 11% do PIB com subsídios. Para a ONU, os subsídios ineficientes incentivam o consumo perdulário. Para racionalizá-los — e estimular, portanto, o uso de fontes de energia que impactem menos o meio ambiente —, é preciso adotar medidas que removam as distorções do mercado, como reestruturar os sistemas tributários nacionais, segundo a instituição.

Alcançar uma gestão ambientalmente racional dos produtos químicos ao longo de seu ciclo de vida

Ao incluir essa meta no ODS 12, as Nações Unidas buscam minimizar o impacto dos resíduos químicos tanto na saúde quanto no meio ambiente. A geração de lixo tóxico per capita praticamente dobrou no mundo inteiro entre o fim dos anos 1990 e da década de 2000. Nos países de renda média, como o Brasil, a quantidade subiu de 17kg per capita entre 1996 e 2000 para 42kg entre 2006 e 2011. Mas nem de longe eles são os mais poluentes: os de alta renda, mas que ainda não se uniram à OCDE (a qual exige boas práticas nas políticas públicas), despejaram 981kg de lixo tóxico per capita entre 2006 e 2011.

Outro dado preocupante é que cerca de 200 milhões de pessoas podem ser afetadas pelos resíduos presentes em 3,000 locais em todo o mundo. Para reverter o quadro, a ONU destaca a importância de incentivar indústrias a buscar formas sustentáveis de gerenciar seus resíduos. E, ainda, de estimular os consumidores a reduzir o consumo e reciclar o lixo.

Como se vê, o conceito de consumo vai muito além do simples gesto diário de fazer compras, e torná-lo sustentável passa por uma série de desafios que envolvem toda a sociedade. É uma meta que precisará ser levada cada vez mais a sério para não causar novos danos aos limitados recursos do planeta.

(Fonte: https://nacoesunidas.org)

Vivemos uma “ordem de guerra contra a Terra”

Entrevista com Vandana Shiva*

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Vandana Shiva, física, filósofa, ativista ecofeminista, nasceu no vale de Doon, no Himalaia. Seus pais faziam parte do movimento independentista da Índia. Apesar das dificuldades por ser mulher, estudou física e depois filosofia. Nos anos 1970, somou-se ao movimento Chipko, constituído por mulheres que se abraçaram às árvores de uma mata para evitar que fossem cortadas. Em fins dos anos 1980, criou o Movimento Navdanya, para defender as sementes nativas frente aos transgênicos. A partir daí, criou comunidades de sementes para cuidar da vida e evitar sua depredação. Formou aUniversidade da Terra, que promove a ciência digna, a soberania alimentar e alerta contra o impacto das políticas das corporações na mudança climática. Recebeu oPrêmio Nobel Alternativo em 1993.

Punto Final teve a oportunidade de entrevistá-la quando visitou a Argentina, convidada para o Festival Internacional de Cinema Ambiental (FINCA). A conversa começou a partir da recordação de nossa irmã Berta Cáceres, líder doConselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras(COPINH), assassinada por cuidar do Rio Gualcarque, junto à comunidade lenca deRio Branco, em Honduras.

“Quero render uma homenagem a minha irmã Berta, uma lutadora pela terra, que fez um sacrifício dando sua vida. Mas, sua vida não foi dada voluntariamente, foi arrancada mediante a violência. A terra, toda a comunidade ecológica, e Berta, merecem justiça. Deve haver uma comissão de investigação que seja independente, não só restrita aos crimes cometidos contra os ativistas ambientalistas em Honduras, mas por toda a violência perpetrada pelas corporações, tomando os governos e os convertendo em maquinarias de guerra contra seus próprios cidadãos. A vida de Berta é um chamado a despertar. Devemos despertar e exigir justiça para o planeta, e justiça para Berta”, disseVandana Shiva.

A entrevista é de Claudia Korol, publicada pela revista Punto Final, edição n. 857, 05-08-2016. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O assassinato de Berta foi um crime contra uma guardiã da vida, e faz parte da criminalização das mulheres defensoras da vida. Como analisa esta política?

O sistema político e econômico, que tem mais de duzentos anos de história, o capitalismo patriarcal, se baseia na guerra contra a Terra, guerra contra as mulheres, guerra contra a vida. Por isso, quando mulheres como Berta Cáceres se levantam em defesa da vida, em defesa da terra, em defesa dos direitos das pessoas, o sistema as criminaliza, porque é um sistema criminoso. Criminaliza quem luta em defesa da vida. Vemos como aumenta a violência contra as mulheres, porque o capitalismo patriarcal é a convergência da cobiça, da acumulação e do extrativismo, como também é o medo a tudo o que está vivo e livre. EBerta estava em pé, pela liberdade e a vida. Por isso, gerou medo naqueles que destroem a Terra e destroem nossas sociedades a qualquer custo.

Sementes da vida

Aumentou a consciência mundial sobre o cuidado com as sementes, a terra, a vida e, por isso, cresce a luta dos povos, das mulheres, das comunidades, como também cresce a militarização em resposta a essas lutas. Como pensa que deve ser a resposta das comunidades, das mulheres, à estratégia de militarização?

Acredito que a primeira resposta frente à militarização deve ser entender suas raízes. O sistema se baseia na mentalidade de guerra patriarcal capitalista. É uma ordem de guerra contra a Terra, contra o corpo das mulheres, contra as economias locais e contra a democracia. Temos que entender as conexões destas formas de violência.

Tivemos Estados nacionais, alguns se converteram em ditaduras, outros em democracias, mas que não eram extensões do mundo global das corporações. A globalização converteu os governos em extensões de sua atividade corporativa e, por isso, se tornaram Estados corporativos. É muito evidente que quando esses Estados corporativos tomam a vida das pessoas, produzindo câncer e malformações congênitas em meninos e meninas, minando nossas terras ancestrais, destruindo nossos territórios, convertendo as pessoas em refugiados, as pessoas vão se levantar, as pessoas vão protestar, as pessoas vão fazer bloqueios.

Hoje, estamos olhando como testemunhas o último passo das corporações, convertendo os Estados nacionais, primeiro em Estados corporativos e, agora, em Estados militarizados corporativos, quando a violência militarizada é o único caminho que lhes resta para enfrentar as pessoas que estão procurando defender a terra e suas vidas de uma maneira não violenta. Primeiro, temos que expor esta continuidade de poder e violência.

Como respondemos a isso? Respondemos através da paz e da não violência do modo mais profundo. A primeira parte é, realmente, em nossas mentes e em nossas consciências, e em nossas vidas, viver em paz com a Terra. Essa é nossa maior força. A segunda é resistir a regra do medo. O modo mais efetivo de resistir o medo é não ter medo. E continuar tendo coragem, como teve Berta. Neste cultivo do não medo, cultivar nossa força comum, nossas solidariedades, para estarmos juntos. E, finalmente, reconhecer que o sistema econômico se tornou um sistema de guerra. Ao invés de cuidar e promover a vida, está eliminando a vida, e então está extinguindo a vida daqueles que estão em pé pela vida. Temos que construir o mais impressionante movimento planetário pela paz de nossos tempos, onde afluam o movimento ecologista, o movimento contra a militarização, o movimento feminista, o movimento pela justiça. Todos precisam se tornar um”.

Manipulação genética

Além do sistema de morte que o capitalismo patriarcal significa, a mercantilização está gerando vida sintética. O que pensa destas formas de manipulação da vida, aplicando conhecimentos científicos?

Eu chamaria a denominada manipulação da vida por meio da genética de manipulação da vida por meio da guerra. Qualquer um que faça uma biologia realmente independente, dirá que pegar um gene de um organismo e implantá-lo dentro de outro possui sérias consequências. Conhecer essas consequências é parte do fazer ciência. Estas empresas, que não são científicas, possuem três níveis. O primeiro é que não compreendem a vida. Porque a vida é uma complexidade auto-organizada e está sendo tratada como um jogo de tijolinhos. O segundo é que estão tramando suposições que não refletem como realmente funciona a vida. Estão baseados em um reducionismo genético que funciona como um determinismo genético, que é assumido como se existisse uma molécula mestra que dá ordens para todas as demais, e que tudo o que é necessário fazer é mudar essa molécula de lugar. Mas, não existe uma molécula mestra em um sistema vivo. O terceiro ponto é que não assumem a responsabilidade pelas consequências. Os primeiros cientistas que criaram as técnicas de recombinação de DNA colocaram fim nisto em 1972, assumindo em uma declaração que não podiam saber as consequências, e que os cientistas têm a responsabilidade de entender as consequências, antes de realizar ações. Qualquer entidade individual ou corporativa que mude a fabricação da vida, sem entender as consequências e sem tomar as responsabilidades disso, está atuando de maneira não científica. O que chamamos de ciência é um projeto patriarcal para um curto momento da história. É uma ciência reducionista, baseada na dominação da natureza. É o conhecimento gerado para a exploração.

Soberania alimentar

Nós, feministas comunitárias – indígenas, campesinas, populares – neste continente, pensamos que a defesa dos territórios faz parte de nosso projeto de vida, e que o corpo é nosso primeiro território a ser cuidado. Nesta perspectiva, propostas como a soberania alimentar se integram na lógica de luta contra o capitalismo patriarcal.

Concordo. Todas as estruturas artificiais de conhecimento se basearam no que chamei de ‘apartheid ecológico’, separando-nos da Terra em nossas mentes, já que não podemos realmente nos separar da Terra em nossas vidas, porque estaríamos mortos. Desta ideia de separação vem a ideia de que é possível substituir os processos de vida com materiais químicos e tóxicos. Então, nosso corpo não está vivo, não é da Terra, é só uma máquina, da qual você pode remover as partes e acrescentar moléculas sem que isso provoque algo em nossa saúde. Você pode produzir soja transgênica e imaginar que não provoca nada à vida, ainda que mate a todas as bactérias em nosso interior. Pode pretender substituir o açúcar natural por xarope de alta frutose, mas seu fígado vai se rebelar.

A soberania alimentar se baseia em superar o apartheid ecológico, sabendo que somos parte da Terra. Somos o solo, somos o ar, somos a semente, somos a água. E a comida que cultivamos na terra se converte em nosso corpo, nosso sangue, nossas células. A comida é a força da vida, é a rede da vida, e é a continuidade da vida, da Terra e de nós mesmos. É por isso que o território e o corpo correspondem quando produzimos comida da maneira correta e comemos a comida adequada. Mas, quando não correspondemos e deixamos de pensar conscientemente na comida, nos tornamos parte deste sistema de guerra. Ainda que sejamos um pequeno elo da cadeia, estamos ajudando a fazer com que permaneça. É necessário ser consciente disto. Caso se controle o mercado de armas, se controla as guerras. Caso você controle a comida, controla a sociedade. E se você controla as sementes, controla a vida na Terra”.

A maioria das mulheres foi separada da Terra. Este é um obstáculo para realizar esta cadeia de vida.

As mulheres e as comunidades indígenas foram separadas da Terra violentamente. É a maior crise que estamos enfrentando. Porque estar na Terra quer dizer ser guardiões e guardiãs da terra. Nosso desafio é, passo a passo, campo a campo, sítio a sítio, semente a semente, voltar à terra. Isso está acontecendo em todas as partes do mundo onde as pessoas produzem sua própria comida. É o que eu estou fazendo na Índia com oMovimento Navdany, porque ainda que a tendência seja retirar os camponeses e as camponesas de sua terra, nós trabalhamos para mantê-las em sua terra, criando economias através das quais possam ficar na terra.

Essas economias propõem estimular a biodiversidade

Claro. Isto é muito necessário, e em especial na Argentina, que vive uma escravidão da soja, onde os cidadãos se fecham em si mesmos, assim como os camponeses. A monocultura prejudica a mente. Parte do problema que temos é que há muitas ‘soluções individuais e globalizadas’. Temos que permitir que cresçam soluções múltiplas. Para poder sair da escravidão e produzir a biodiversidade que a terra e as pessoas necessitam é preciso criar associações entre moradores do campo e das cidades. Por que os produtores se relacionam com a Monsanto e não com os moradores das cidades? Porque o sistema está trabalhando para aqueles que criaram este sistema totalitário, mas não está trabalhando para as pessoas que cultivam a terra. Este sistema rompeu os processos ecológicos da Terra, como também as relações entre os povos. Temos que reparar este sistema rompido. Cada pessoa criativa pode trabalhar para respeitar os direitos da Mãe Terra e os direitos da Humanidade.

(Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/)

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O relógio da Terra mostra-nos alguns dos impactos causados pelo Homem na Terra. As estatísticas nele apresentadas, que estão a ser actualizadas ao vivo, podem ser verificadas nos sites seguintes:


População mundial: US Census Bureau
Taxa de crescimento populacional: CIA World Factbook
População prisional: UK Homeoffice
Divórcios (apenas para os Estados Unidos): Wikipédia
Imigração ilegal nos Estados Unidos: Wikipédia
Abortos: Wikipédia
Mulheres que morrem durante procedimentos abortivos incorrectos: Organização Mundial de Saúde
Taxa de infecções por HIV: Avert
Taxa de incidência de cancro: UICC
Temperatura média da Terra: Wikipédia
Extinções de espécies: National Wildlife Federation
Produção de petróleo: CIA World Factbook
Produção de carros: Mation Master
Produção de bicicletas: Earth Policy
Produção de computadores: Top Secret
Estatísticas de mortalidade: Organização Mundial de Saúde